"Tu foste um grande primeiro-ministro": além de um abraço, o que ganha Montenegro ao dizer isto de Passos Coelho? A "memória viva" dos portugueses pode ter boas e más respostas para o líder do PSD

16 ago, 18:18
Passos Coelho com Luís Montenegro (créditos: Luís Forra / Lusa)

ANÁLISE O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho foi à rentrée política do PSD para "dar um abraço ao Luís Montenegro". É um abraço com muito passado que tem muitas pistas de futuro

Fez uma rara aparição mas manteve afastada qualquer hipótese de regresso à vida política ativa. Nem mesmo os apelos populares, entre sorrisos, para uma candidatura à Presidência da República arrancaram de Pedro Passos Coelho qualquer tipo de ambiguidade que deixasse uma porta entreaberta. Uma espécie de D. Sebastião social-democrata que regressou mas que renuncia ao trono que agora pertence a Luís Montenegro. 

"Pedro Passos Coelho não é uma sombra nem uma nuvem negra sobre a liderança de Luís Montenegro. Luís Montenegro teve uma relação de dependência com Pedro Passos Coelho. Agora, assistimos à emancipação política de Luís Montenegro. O líder do PSD faz questão de mostrar que essa libertação não significa um corte com a política de Pedro Passos Coelho", afirma José Filipe Pinto, politólogo e professor catedrático na Universidade Lusófona. 

A presença do antigo líder na festa do Pontal não foi coincidência. Pedro Passos Coelho disse que não ia fazer “grandes declarações”, mas acabou por fazer algo bem mais importante ao contribuir para uma “uma passagem de testemunho que contribui para a unificação do partido”; alguém muitíssimo importante na história do partido que passa “um certificado de competência" a Montenegro para desempenhar o cargo de líder da oposição e de primeiro-ministro.Vim dar um abraço ao Luís Montenegro. Uma pessoa bem preparada e competente, que tenho confiança que será o próximo primeiro-ministro”, disse o histórico social-democrata. O reconhecimento por parte do líder do PSD apareceu pouco depois, durante os 40 minutos de discurso, em que antecipou possíveis ataques dos seus adversários políticos contra “o papão do Passismo” - mas Montenegro não escondeu o orgulho em ter trabalhado com Passos Coelho. "Tu foste um grande primeiro-ministro e eu tenho muito orgulho em ter estado contigo durante esse período."

Seria sempre impossível dissociar Luís Montenegro de Pedro Passos Coelho e ambos sabem disso. Igualmente impossível de dissociar do imaginário público é a ligação de Passos Coelho à aplicação do programa de resgate financeiro da troika e que marcou o país. Para esses portugueses, o nome do antigo primeiro-ministro é sinónimo de austeridade e os adversários políticos do PSD sabem disso.

“O passado do PSD está associado a Pedro Passos Coelho. Cada vez que Pedro Passos Coelho ensaiar o regresso, a esquerda vai apontar a memória da austeridade. Essa memória da austeridade é útil, porque um dos segmentos mais importantes do eleitorado português é o dos pensionistas. Este eleitorado é envelhecido e esses, obviamente, têm essa memória viva”, afirma o politólogo António Costa Pinto.  

Por esse motivo, os especialistas políticos acreditam que a passagem de Passos na festa do Pontal foi “positiva” para o partido por se tratar de uma intervenção "excepcional" de alguém que garante estar “retirado da ação política e da atividade política”. Porém, os politólogos alertam para os possíveis “efeitos devastadores para o PSD” que um corte com este afastamento político teria para a atual liderança. “Ao contrário do anterior presidente do PSD, que sofreu sucessivos desafios num PSD dividido em fações, uma das quais dirigida por Luís Montenegro e mais associada a Pedro Passos Coelho, hoje essa instabilidade desapareceu e agora há unidade no partido”, explica António Costa Pinto.

Mas esta ligação não é clara para todos. Há quem veja uma mudança à esquerda, particularmente no eleitorado ao centro, o mesmo que nas últimas eleições tanto penalizou Rui Rio. Para estes eleitores, há agora uma outra imagem de Pedro Passos Coelho, pois compreendem que uma coisa é governar em tempos de carência e outra é governar em épocas de abundância. Para José Filipe Pinto esta será um ativo que Montenegro terá de utilizar.

“Mais eleitores compreendem que Pedro Passos Coelho foi um pouco além daquilo que era exigido pela troika mas percebe que tinha um sentido de Estado. Hoje já se percebeu que uma coisa é governar em épocas de carência e outra é governar em épocas de abundância. Passos Coelho foi condenado a governar numa época de carência, mas mostrou ser capaz de impedir o país de caminhar para a bancarrota”, aponta o professor universitário.

Olá, esquerda moderada

O atual líder do PSD pretende agora afirmar um projeto político próprio, mesmo reconhecendo que a atual conjuntura é cada vez mais semelhante aos períodos de carência que foram criados pela conjuntura internacional nos anos finais do executivo de José Sócrates. Atualmente, a crise internacional e a guerra na Ucrânia fizeram crescer significativamente a inflação e correm o rendimento de milhões de portugueses, criando o receio de uma tempestade que deixe muitas pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

E esta situação é algo que preocupa os portugueses. Segundo uma sondagem do Conselho Europeu para as Relações Externas, os portugueses são dos povos europeus mais preocupados com o impacto da guerra no custo de vida e nos preços da energia. Estes dados coincidem com os dos resultados do Eurobarómetro especial do Parlamento Europeu, que destacam que os portugueses são dos primeiros a sentir as consequências da guerra e consideram-se pouco preparados. Segundo os resultados, 57% dos portugueses dizem já ter sentido os efeitos da guerra, contra 40% dos europeus que dizem já ter sentido esses efeitos. Ao mesmo tempo, cerca de 66% dos portugueses destacam a luta contra a pobreza como a sua prioridade absoluta. “Nós sabemos que a nossa classe média é uma classe média fictícia. Porque é uma classe que tem poder de compra se tiver vencimento. O nosso Estado Social não garante estas situações de carência”, sublinha José Filipe Pinto.

Talvez por esse motivo, Luís Montenegro avançou, antes mesmo do Governo, com um Plano Nacional de Emergência, avaliado em mil milhões de euros, que os sociais-democratas vão apresentar e que querem ver discutido na primeira semana de trabalhos parlamentares, em setembro. Montenegro explicou que um dos eixos deste programa é a criação de um vale alimentar de 40 euros, de setembro a dezembro, para reformados e pensionistas que recebam até 1100 euros. Este apoio estende-se também às famílias com rendimentos inferiores a este patamar. 

Ao contrário de Rui Rio, Montenegro terá de congregar o que for possível da direita e ir buscar votos à esquerda moderada sem se posicionar ao centro, criando “um partido transversal”. “Nesse sentido, representa um corte total com a liderança de Rui Rio, que tentou sobrepor o PSD num espaço político já ocupado pelo Partido Socialista”, destaca o José Filipe Pinto, que antecipa “uma política de proximidade” do PSD para com as pessoas e os seus problemas. “Portugal tem de criar um tecido social que se mantenha unido. Temos de evitar deixar gente para trás. Esta política, por parte de Montenegro, é nova? É. Tem aspetos em comum com Pedro Passos Coelho, mas agora assistimos à emancipação política de Luís Montenegro.”

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