Coligações, debates, eutanásia... 10 diferenças políticas entre Rio e Rangel

25 nov, 14:07
Rui Rio e Paulo Rangel (Lusa/Mário Cruz)
Rui Rio e Paulo Rangel (Lusa/Mário Cruz)

Dois homens do Norte, um do Porto e outro de Vila Nova de Gaia, que nunca foram propriamente amigos próximos, e que agora, com caminhos e visões diferentes, disputam a liderança do PSD que vai ser decidida a 27 de novembro.

São dois homens do Norte, um do Porto, e outro de Gaia. Com percursos e visões diferentes, disputam a liderança do PSD este sábado

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São dois homens do Norte mas estão hoje como nasceram: em margens diferentes. Rui Rio nasceu no Porto há 64 anos, Paulo Rangel há 53 em Vila Nova de Gaia, mas é mais do que o Douro o que hoje os separa: é a disputa pela liderança do PSD, nas eleições marcadas para este sábado, 27 de novembro. A CNN Portugal acompanhará em direto a eleição. 

Até lá, comparamos semelhanças e diferenças entre dois homens que se conhecem há vinte anos, nunca foram propriamente amigos de casa, mas já trabalharam de perto: integraram a mesma direção nacional, durante a liderança de Manuela Ferreira Leite, e Rangel escreveu o programa eleitoral da candidatura de Rio à Câmara do Porto em 2001, tendo sido em 2019 escolhido por Rio como cabeça de lista nas eleições europeias. 

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Rui Rio entrou na vida política através da Juventude Social-Democrata (JSD) e tornou-se militante do PSD em 1975, com 18 anos. Já Paulo Rangel entrou na esfera política através do CDS-PP, depois de um convite de António Lobo Xavier, na presidência de Paulo Portas, tendo-se filiado no PSD apenas em 2005.

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Cada um tem uma narrativa diferente para o PSD. Rio tem jogado com os ganhos eleitorais e com o trajeto descendente nos votos do PS, frisando aos militantes que estão a escolher não só um novo líder mas também um possível futuro primeiro-ministro. Por sua vez, Rangel tem apelado à união e ao crescimento do PSD, vincando a dissociação com o rival.

Afinal, o que separa Rui Rio de Paulo Rangel?

1. A experiência europeia e a local 

Eurodeputado desde 2009, Paulo Rangel tem mais experiência política europeia e internacional. Já Rui Rio, que foi presidente da Câmara do Porto durante 12 anos, entre 2002 e 2013, tem uma experiência de maior proximidade, em instituições locais e regionais.

Essa experiência alimenta uma visão, que fica na resposta de Paulo Rangel às questões colocadas pela CNN Portugal: "Trazemos uma visão inovadora, europeia, cosmopolita e moderna, e queremos ser o motor da renovação geracional e a abertura do PSD à sociedade. Uma visão mais local, menos europeia, e ligada a conjunturas antigas já não se adequa aos novos desafios".

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Rangel fala em "clareza", "ambição" e numa alternativa "sem ambiguidades ao Partido Socialista". E partilha da visão do adversário no que toca às reformas de que o país precisa, quer ao nível do crescimento e da criação de emprego, da garantia de uma "saúde de qualidade para todos os portugueses" e da exigência do ensino. 

Quanto à comunicação interna, direcionada para o partido, Rangel prefere "a união da pluralidade de visões (...) em vez de um centramento numa só perspetiva", que acaba por provocar "divisão, afastamento de militantes e o aparecimento de novos projectos políticos".

A CNN Portugal colocou a mesma pergunta à candidatura de Rui Rio, mas não obteve resposta. 

2. Oposição com e oposição contra 

Rangel tem sido muito crítico quanto à falta de firmeza na oposição feita por Rui Rio ao Governo de António Costa. Acusou-o mesmo de ser "a muleta do PS", em entrevista ao semanário Expresso. "Houve demasiada cooperação, colaboração e tolerância com o PS", disparou.

Em resposta a estas críticas, Rui Rio afirmou, no Conselho Nacional do PSD, que "o povo não vota em quem grita mais", mas sim "em quem é fiável, em quem sente que pode confiar". 

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O atual presidente do PSD também já fez saber que se vai focar nas legislativas, em fazer frente ao PS, deixando de parte a campanha interna para as diretas. Decisão que mereceu uma reação irónica por parte do adversário: "Fico muito contente por ver Rui Rio finalmente a fazer oposição ao Governo de António Costa".

3. Mais à esquerda ou mais à direita (ou ao centro)

Rui Rio assume-se como um social-democrata do centro-esquerda, defendendo que é nesse espaço que se ganham eleições em Portugal: é ao PS que o PSD tem de "roubar votos", sustenta. Ao mesmo tempo, Rio tem 'pedido' abertura aos socialistas para negociar, no caso do PSD não ganhar com maioria nas próximas legislativas. Aliás, no discurso que fez na Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), há poucos meses, Rio deixou claro que o PSD "não é um partido de direita" e que quando foi fundado em 1974 "não só era de centro, como era marcadamente de centro-esquerda".

Paulo Rangel assume-se como um social-democrata de centro-direita, que prefere apoiar-se na nova "direita moderada", sem margem para um 'passou-bem' aos socialistas. Nem ao Chega.

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"O espaço político natural do PSD abrange todo a área não-socialista moderada: que vai do centro para o centro-esquerda e centro-direita até à direita moderada", esclarecendo ainda que "a esquerda e a direita radical estão fora deste espaço".  

4. Ideologias partidárias internacionais 

Rangel é vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE), revendo-se pois nessa "família política". Fá-lo tanto do ponto de vista da "pluralidade interna e da diversidade de posições", como também na variedade de perfis partidários. 

"Diria que o PSD, conjuntamente com vários outros, pertence à ala mais progressista do PPE", explicou.

A CNN Portugal não obteve resposta por parte do candidato Rui Rio a esta pergunta. 

5. Porta aberta ou fechada ao PS depois das legislativas 

Nas intervenções à comunicação social, há da parte de Rio uma maior aproximação ao PS, enquanto Rangel prefere acordos à direita.

Não foi há muito tempo que Paulo Rangel afastou entendimentos com o PS caso seja eleito primeiro-ministro nas legislativas de 30 de janeiro. De acordo com o social-democrata, o espírito para as legislativas deve ser o de vencer e não o de "sustentar governos socialistas". 

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"Eu, sendo eleito líder do PSD, irei a eleições para as ganhar. Não irei para fazer entendimentos, para sustentar governos do Partido Socialista", reforçou, acrescentando que o voto no PS é "inútil porque agora não tem a geringonça e não vai ser capaz de refazer um acordo à esquerda".

Rui Rio tem uma outra perspetiva e já admitiu dialogar com o PS "em nome do interesse nacional", mas excluindo um Governo de bloco central. Ou seja, sem ministros do PS num Governo do PSD e sem ministros do PSD num Governo do PS. 

"Se entende o bloco central como um Governo em que há um ministro do PS e um do PSD, isso não, não é preciso para nada."

Para Rio, recusar falar com os partidos seria incorrer no mesmo erro que António Costa cometeu quando nasceu a geringonça. "Os partidos não devem ser assim tão radicais que inviabilizem a governação do país. Estou convencido que os portugueses me entendem quando digo que, em nome do interesse nacional, não devemos fechar as portas todas e devemos estar abertos ao diálogo."

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6. Chega? Não

Relativamente ao Chega, as opiniões são convergentes. Rangel admitiu negociar com a direita, mas não toda, no caso de não conseguir uma maioria absoluta: "Se esta não for possível, há os partidos, a começar pelo CDS-PP, pela Iniciativa Liberal, que são partidos com quem nós temos muito boas relações e com quem podemos fazer um entendimento que pode levar à maioria absoluta". O partido de André Ventura "não faz parte da direita moderada", disse: esse é um “limite intransponível”. 

Na mesma linha, Rui Rio, colocou o Chega no quadro dos partidos com que "não é possível falar", uma vez que "não se moderou”. Mais tarde, noutra declaração, foi mais longe e disse que abdicaria de formar Governo se para tal fosse necessário englobar o Chega.

André Ventura, por sua vez, reagiu dizendo que existe um "acordo de cavalheiros" entre o PS e o PSD para "anular a importância do Chega no Parlamento". 

7. Sós ou acompanhados para as legislativas 

A questão é pragmática. Rangel insistiu, sempre que foi questionado sobre uma pré-coligação com o CDS-PP às legislativas antecipadas, que proporia que o PSD avançasse sozinho. Já Rio, inicialmente, mostrou-se "dividido" quanto a coligações pré-eleitorais. Depois, foi noticiado que o tema tinha sido levantado numa reunião da Comissão Política Nacional e que a direção do partido rejeitara a hipótese. Rio alega que não houve nenhuma "deliberação final”.

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8. Debates quinzenais com o governo

Foi a 23 de julho do ano passado que PS e PSD se uniram para acabar com os debates quinzenais com o primeiro-ministro no Parlamento. Na altura, Rui Rio justificou a decisão como um "esforço de credibilização da instituição parlamentar", defendendo que seguir o “mediaticamente correto, não correr riscos e fugir ao embate” nunca dignificou a política.

A visão não é partilhada por Paulo Rangel - que chegou a ser líder da bancada do PSD no Parlamento. Numa entrevista à Antena 1, na altura dos factos, disse tratar-se de um "retrocesso" para a democracia. 

"Eu acho que os debates quinzenais são muito úteis, compreendo que tivesse de haver aqui algumas mudanças de formato e até de tempo, mas nunca menos de um debate por mês. (...) Acho que é mau, penso que é um retrocesso."

Desde então, Rangel parece não ter mudado de ideias. No dia em que apresentou oficialmente a sua candidatura à liderança do PSD, no Hotel Myriad, em Lisboa, o eurodeputado deixou claro que quer os debates quinzenais de volta.

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"Como líder parlamentar que fui, sei bem da importância crucial dos chamados debates quinzenais. Sei bem quão importantes foram os debates quinzenais em 2008-2009 para retirar a maioria absoluta ao PS de José Sócrates nas eleições de 2009" e acrescentou que é "absolutamente incompreensível que a liderança atual do PSD tenha, em conivência com o PS, abolido os debates quinzenais e os tenha substituído por umas modalidades suaves, doces, muito espaçadas no tempo e muitas vezes sem comparência do primeiro-ministro".

9. Como é criar riqueza e combater a pobreza 

Os candidatos à liderança do partido laranja partilham da mesma visão: redução da carga fiscal; aumentar o salário mínimo nacional; dar mais apoios às empresas. 

Um dos grandes objetivos de Rui Rio é reduzir a carga fiscal, mas admite que isso depende "do quadro macroeconómico" que for adaptado.

"Procurarei, na medida em que o crescimento económico o permita, que o défice se reduza no equilíbrio e para lá dele, com um pequeno superavit, porque é imprescindível baixar a dívida pública", disse em entrevista ao Público.

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Além disso, Rio quer também influenciar a subida do salário médio dos portugueses. Como? Conseguindo que as empresas tenham "melhor produtividade e competitividade" de forma a poderem pagar melhores salários, disse ao Público.

Com a mesma perspetiva de futuro, Rangel defendeu, em visita à Madeira, que para criar riqueza é preciso "romper" com a estagnação e que isso só é possível "com acordos na concertação social". 

"Com PSD liderado por mim, o Governo terá na concertação social um parceiro fundamental." 

Rangel também quer uma "subida significativa" do salário mínimo nacional, uma redução ao nível dos impostos, com especial foco no IRC (Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas, aplicado às empresas que trabalham em Portugal) e admite ainda alterações ao nível do IRS para benefício dos mais jovens. 

10. O debate sobre a eutanásia

Eis um debate que sempre separou estes dois homens do Norte. Se Rangel sempre se manifestou contra e defendeu um referendo, Rio sempre foi a favor e entendeu que a Assembleia da República tem legitimidade para decidir e legislar sobre a eutanásia. 

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O Parlamento aprovou, a 5 de novembro, as alterações feitas ao decreto-lei da legalização da morte medicamente assistida. O PSD tinha liberdade de voto e Rui Rio foi um dos 13 deputados do PSD que votou a favor. 

"Em questões de convicção, posso ficar sozinho e já fiquei algumas vezes na vida, mas não mudo. Só assim é que faz sentido estar na vida, não é só na política”, afirmara, a 16 de março. 

Assumidamente católico e praticante, Rangel sempre considerou a despenalização da morte medicamente assistida um tema de consciência individual e, por isso mesmo, defende que deveria ter sido referendado. 

"O facto de o Parlamento ter legitimidade não significa que não haja outras formas de legitimização", afirmou no programa da TVI24 "Prova dos 9", em 2020, acrescentando que "se os próprio deputados acham que é uma questão de consciência, então os deputados não são a consciência de todos, a consciência não é representável no Parlamento."

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