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O que é que o PS está a fazer?

19 mai, 09:00
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Depois da hecatombe eleitoral de 2025, numa coisa os socialistas pareciam estar todos de acordo: era preciso uma reflexão profunda sobre as causas que levaram à perda de quase 860 mil votos e 62 deputados em apenas três anos. O PS não se limitou a deitar ao lixo uma maioria absoluta: conseguiu irritar de tal maneira os eleitores, que acabou como terceira força política e ainda viu os seus parceiros de geringonça reduzidos a pó. E, nisso, Pedro Nuno Santos tem razão: ele não é o único responsável pelo desaire eleitoral do PS. 

O sucesso de uma eventual recuperação eleitoral dependia de um diagnóstico certeiro sobre as causas de tamanha derrota. Sobretudo quando a vitória da coligação que está hoje no poder nem sequer foi maioritária. Mas o PS decidiu abdicar dessa reflexão. Optou por saltar etapas, elegeu um líder à pressão — o que estava ali mais a jeito — e seguiu em frente. As autárquicas foram para os pardais e as presidenciais até nem correram mal, tendo em conta o bullying que o partido fez a António José Seguro. 

Sem um diagnóstico feito — e bem feito —, José Luís Carneiro não quis abanar o partido, mudar os rostos e mudar de política. Pelo contrário. Aceitou ficar na montra de uma loja que vende políticas em segunda mão, com um armazém carregado de stock da geringonça, e rodeou-se — ou deixou-se rodear — pelos mesmos que quase levaram a firma à falência. Os últimos meses, e as últimas semanas em particular, são bem exemplo disso.

O pacote laboral. O PS colocou-se na defensiva. Decidiu encarar esta reforma proposta pelo Governo, não como uma oportunidade para aparecer com um discurso e propostas novas, mas como o último guardião das políticas da geringonça. Não por acaso, José Luís Carneiro fala de uma contrarreforma, como se mexer numa lei feita pelo PS fosse uma espécie de atentado lesa-pátria. É preciso defender o legado deixado pela Agenda para o Trabalho Digno do PS, que tão bons resultados deu ao país na competitividade, na produtividade e no aumento dos salários. 

A crise na saúde. Em oito anos de governação socialista, o orçamento da saúde aumentou quase 9 mil milhões de euros, geridos por três ministros e um CEO da saúde, já na reta final. O PS alterou a lei de bases, reestruturou praticamente toda a organização do setor e praticamente acabou com as PPP, mesmo as que funcionavam bem, para garantir o apoio dos parceiros da geringonça. Durante oito anos, houve sempre bebés a nascer em ambulâncias, nunca houve médico de família para todos, as urgências nunca estavam todas abertas, as listas de espera nunca acabaram e a contestação dos profissionais de saúde nunca desapareceu. 

À época, o PS indignava-se com os que pediam a demissão dos seus ministros, porque não era fazendo rolar cabeças que se resolviam os problemas. Era preciso dar tempo para as reformas funcionarem. E tinha razão. Pois, agora, entre todas as pessoas que José Luís Carneiro tinha lá no Largo do Rato para ser a porta voz do partido para a saúde — e integrar o pacto promovido por António José Seguro —, o secretário-geral do PS achou que era boa ideia escolher Mariana Vieira da Silva. A número dois de António Costa, um dos rostos mais visíveis de uma governação de oito anos que teve os resultados que são conhecidos, e que agora vem, indignadíssima, pedir a demissão da ministra da Saúde. 

A Base das Lajes. As matérias de Estado foram sempre tratadas pelo PS com sentido de… Estado. Até à reação de Eurico Brilhante Dias, na semana passada, às declarações de Marco Rubio, a propósito da utilização da Base das Lajes. É absolutamente legítimo e desejável que os partidos da oposição peçam explicações ao Governo, que façam perguntas e que escrutinem a ação governativa. Mas o que Eurico Brilhante Dias fez foi apenas patético. Embaraçou José Luís Carneiro e o seu próprio partido. Obrigou camaradas seus, como Francisco Assis, a virem a terreiro dar-lhe um puxão de orelhas. E deu mais uma prova de como, no PS, está cada um a falar para o seu lado. 

Eu sei que José Luís Carneiro anda muito entusiasmado com as sondagens que dão o PS a recuperar. Talvez isso explique que o secretário-geral do PS tenha ensaiado, na semana passada, na CNN, uma ameaça velada de que pode não viabilizar o Orçamento do Estado para 2027. E eu percebo que Carneiro tenha pressa. A pressão interna é grande, e o tempo é escasso. Mas se a ideia do PS é apresentar-se a eleições com as falhas do Governo de Montenegro e com o legado de António Costa, então boa sorte.

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