Mais guarda-chuvas, graxa e Ducatis houvesse, mais força mostrava o PS

10 mai 2025, 17:58
Pedro Nuno Santos em campanha (Lusa)

REPORTAGEM || Em dia de Benfica-Sporting, foi dar tudo antes do jogo. Afinal, no dia 18 há outro tipo de clássico – e há quem comece a desempatar nas urnas já este domingo. Santo Tirso deu a Pedro Nuno o seu primeiro e verdadeiro mar de gente nesta campanha. Saiu de lá, na própria mota, de sapato engraxado pelo homem que também já deixou o calçado de Mário Soares num brinco. Em Famalicão, arraial minhoto a abarrotar. E com uma surpresa: o famoso Augusto Canário a mandar por o voto no “partido da mãozinha”. Foi uma roda-viva

Pedro Nuno Santos tinha uma exigência: só andaria de moto em plena campanha se fosse mesmo na dele. E lá veio a Ducati de Lisboa, bem como as luvas, o capacete e o casaco até Santo Tirso.

Dá para a metáfora de querer “acelerar até São Bento”. E com outra garantia: não levava “nenhum” outro líder partidário à boleia. Se fosse para ter companhia no percurso, “quanto muito a minha mulher”.

foto José Sena Goulão / Lusa

Gritam-lhe “dá-lhe gás”. E ele está pronto para meter prego a fundo. Este é, finalmente – e literalmente - o dia de colocar a campanha a toda a velocidade. O percurso, relativamente curso, leva até Famalicão, para um arraial minhoto. “Uma viagem maravilhosa, soube mesmo bem poder ter feito este passeio de mota no meio desta campanha, foi um espetáculo”, reage à chegada.

A acompanhar tudo de perto, entre as dezenas de motos, está Manuel Lima - à direita na foto abaixo - do Moto Clube Campense. “É uma honra acompanhá-lo, mas não com muito gás, que choveu e a estrada está perigosa”, conta antes de se fazer à estrada. Na corrida para o governo, é que este homem não vê quaisquer obstáculos. E, com Manuel, estamos na praça onde este dia começa.

É dia de rali em Santo Tirso, mas a multidão que aqui está não vem para ver os carros passar. Antes a caravana socialista. Dividem-se pelos passeios dos dois lados da rua. No ar, um parapente com a mensagem “Vota PS”.

O tempo de espera dá tempo para que o tempo mude. As primeiras gotas ameaçam estragar o mar de gente, o primeiro nesta campanha. Surgem umas caixas com guarda-chuvas. E é uma ver se te avias, uma correria, para garantir que se consegue um, a natureza humana no seu melhor.

“Quase me botavam no chão”, conta Dulce Avides, empregada da limpeza, que acredita que a vitória de Pedro Nuno Santos “está difícil”. “Mas vamos tentar.”

A poucos metros, Ernesto Silva conseguiu três. Um para ele, outro para a esposa, o último para o filho. “Sempre gostei do PS. Este é dos melhores”. Uma mulher vem pedir-lhe um dos guarda-chuvas. Ele justifica-se. “Uns com tantos, outros com tão pouco”, lamenta ela a despedir-se.

Ó Pedro Nuno, fale lá do que a gente quer ouvir

Fátima Ferreira vem prevenida de casa com dois chapéus para a chuva. Com o PS ganha mais um. “Gosto muito dele, gostava de lhe dizer que podíamos ganhar mais um bocadinho. Quando chegar à minha reforma, é certo que vou ter uma quebra.”

Fátima - com o colar de pérolas que se vê na foto abaixo - está com pressa, o candidato atrasado. É que ela tem uma consulta no dentista às 11:30. Tem de abalar. “Vou e volto.” Só lamenta que Pedro Nuno não fale mais de imigração. Foi casada com um brasileiro, mas garante que não é pelo trauma da separação que quer mão pesada no controlo dos imigrantes. Não é, garantimos, caso único por aqui.

Ainda vê Pedro Nuno a ser levantado em ombros, pela primeira vez nesta campanha, na chegada a Santo Tirso. Hora de consulta é sagrada e lá vai ela. Como prometido, antes de o líder do PS montar a sua mota, lá a encontramos de novo.

A hora de almoço aproxima-se. E Amândio Machado convida-nos para a refeição, literalmente cinco minutos depois de nos conhecer. Santo Tirso é isto. A Pedro Nuno recomendava um lombinho assado. O secretário-geral do PS há de deliciar-se, já em Famalicão, com caldo verde e uma bifaninha.

foto José Sena Goulão / Lusa

Mais tempo para dar graxa

Há empurrões, encontrões e outras confusões. O contacto faz-se efusivo. O sol volta a brilhar. “Agora vão ter é de dar guarda-sóis”, comenta-se na multidão.

O que também fica a brilhar são os sapatos de Pedro Nuno Santos. Mérito de João Silva, 63 anos, 50 a engraxar em Santo Tirso. “Para ser bem feito, tem de ser com tempo”. “Mas não pode ser muito tempo, que eu tenho de seguir para Famalicão”, responde o socialista. No meio da conversa, mais um apelo para a rapidez. “Não posso ficar com dois sapatos diferentes.”

foto José Sena Goulão / Lusa

João Silva mantém o mesmo preço há anos, dois euros. Sabe que, se subir, os clientes que já são poucos se afastam. Já depois de o trabalho estar finalizado, admite que os sapatos do secretário-geral do PS “estavam a precisar” do lustre. “Sabia que ele vinha cá, é um orgulho para mim.”

Tal como foi um orgulho, noutros tempos, engraxar os sapatos a Mário Soares, o autor do mítico slogan “Quanto mais a luta aquece, mais força tem o PS” que tanto se repete neste sábado de campanha. Afinal, há portugueses que este domingo vão votar antecipadamente. E, no clássico da política, é preciso desempatar desde o primeiro minuto.

foto José Sena Goulão / Lusa

Dança do voto

Antes de caírem pétalas de rosa do céu, uma atuação musical. “Do I wanna know?”, dos Arctic Monkeys, na coluna. Pedro Nuno faz cara de quem aprecia. Até que, poucos segundos depois, a música muda. “Era só um bocadinho”, ri-se ele, enquanto as jovens do Fusion Dance Studio de Santo Tirso, estrategicamente vestidas de vermelho e branco, fazem a sua coreografia.

Está bem ensaiada, ao contrário das rodas e rodopios com que Pedro Nuno presenteia as idosas que se aglomeram no almoço-comício em Famalicão – na verdade, um arraial minhoto. Quem canta é o mítico Augusto Canário, para muitos a surpresa das surpresas neste dia em que o PS quis ‘pôr a carne toda no assador’. Sim, uma metáfora desportiva num dia em que o país quer lá saber da política, quando Benfica e Sporting se defrontam e o título pode ser decidido.

(José Sena Goulão / Lusa)

“Eu só quero é ver toda a gente bem-disposta” é a canção para o arranque. E para isso acontecer, avisa Canário, “é fazer o que eles mandam” e “pôr a cruz no partido da mãozinha”.

À festa vem também José Luís Carneiro, cabeça de lista por Braga, antigo rival interno, para lembrar que o PS é o partido que garante os “valores de Abril”. Pedro Nuno, que sente a campanha “em crescendo” e a voz a começar a falhar, aproveita para mais um apelo ao voto. Estamos a entrar “na última semana”.

foto José Sena Goulão / Lusa
Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Partidos

Mais Partidos