Nos últimos dias, têm-me vindo várias vezes à cabeça duas frases batidas dos citadores profissionais do nosso espaço público, e que não resisto a usar: a primeira é que “se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, do romance Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. A segunda, sobre a qual não há propriamente um consenso em relação à sua autoria, é que “insanidade é continuar a fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.
Três notícias desta semana despertaram em mim este ímpeto citador: os incêndios que assolam o país; a crise na saúde; e o “novo” conselho consultivo do Partido Socialista. A proposta é simples: analisamos cada uma destas notícias e, no final, dir-me-ão se as citações acima não podiam ter sido escritas hoje, pelos seus autores originais, enquanto admiravam de cima a nossa amada pátria.
Os incêndios
O debate sobre a falta de meios de combate aos incêndios em Portugal é tão certo quanto a velha máxima popular de que se amanhã não chover, em princípio vai estar sol. Todos os anos, a discussão sobre os incêndios em Portugal acaba resumida à falta de meios de combate, quantos meios aéreos existem, se há bombeiros suficientes e, para os que gostam da realpolitik, se a ministra ou o ministro da Administração Interna devia falar mais ou menos e se “tem unhas” para gerir politicamente esta crise.
Aqui e ali aparecem sempre meia dúzia de “Santos Agostinhos” a pregar aos peixes, lembrando que o problema dos incêndios em Portugal não se resume ao seu combate, mas a um conjunto de problemas de coesão territorial que nenhum Governo começou sequer a tentar resolver. Que o país arde mais em zonas despovoadas e que, enquanto a floresta não passar a ser uma aposta estratégica do país, Portugal vai continuar a arder todos os anos. Dependendo dos humores climáticos, às vezes é só mato, outras vezes perdem-se casas — e até vidas.
Nos últimos 20 anos, Portugal teve quatro primeiros-ministros. Sabem quantos ministros da Administração Interna tivemos? 11. Sim, isso mesmo: 11 ministros da Administração Interna. Será que ainda não deu para perceber que o problema não está necessariamente nos ministros, mas nas políticas?
Saúde
Se, no caso dos incêndios, eles são mais prováveis no verão, no caso da saúde as crises passaram a ser prováveis no ano inteiro. No inverno é porque está frio, no verão é porque está calor, na primavera é porque faltam profissionais de saúde e no outono é porque há greves.
Faltam infraestruturas, faltam médicos, faltam enfermeiros, falta gestão, falta quase tudo a quem, numa aflição, espera do Estado uma resposta. Mas o que falta mesmo ao Serviço Nacional de Saúde é, sobretudo, respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
O que se passou na dermatologia do Hospital de Santa Maria ou no Hospital de Braga — que a TVI e a CNN Portugal denunciaram — é a prova evidente de que o sistema está corrompido. Ninguém acredita que situações semelhantes pudessem ser possíveis no setor privado. Não durante tantos anos. Não nas barbas de vários gestores, alguns promovidos a ministros.
O sistema de saúde está corrompido desde logo pelo PS e pelo PSD, que, alternadamente, vão nomeando os seus caciques locais para funções de gestão para as quais não têm a mínima qualificação. O sistema está corrompido pelos gestores que, sabendo as regras do jogo, montaram um esquema para conseguirem “sacar” mais dinheiro do Orçamento do Estado. E, por fim, o sistema está corrompido por alguns médicos e enfermeiros que, vendo o exemplo que vem de cima e percebendo que não está ninguém a vigiar, decidiram que também deviam ficar com o seu quinhão.
O Orçamento da Saúde em Portugal aproxima-se a passos largos dos 20 mil milhões de euros por ano. Leram bem. Nos últimos 20 anos, Portugal teve os mesmos quatro primeiros-ministros e oito ministros da saúde. Não é preciso ser um génio da gestão para perceber que este dinheiro está a ser mal gerido, pois não?
Os conselheiros do PS
José Luís Carneiro não tem uma tarefa nada fácil como secretário-geral do Partido Socialista. Pronto. Agora que já disse o óbvio, vamos à primeira grande medida que ele tomou.
Foi apresentado esta semana um Conselho Estratégico do partido que vai refletir e apresentar propostas, em várias áreas, para que o PS possa “criar pensamento estratégico, sustentado em evidência, inovação e diálogo com a sociedade” e, com isso, “refletir, propor, debater e iluminar caminhos”, explicou Carneiro.
Para o “pensamento estratégico”, José Luís Carneiro escolheu um conjunto de ex-governantes e deputados socialistas dos últimos 30 anos. Para “iluminar caminhos” foram escolhidos dois ex-líderes da JS. E, para a “inovação e diálogo com a sociedade”, foi buscar dois ou três gestores e alguns académicos. A cereja no topo do bolo é o homem que vai presidir a este Conselho Estratégico: Augusto Santos Silva, que, nos últimos 26 anos, esteve 16 no Governo. Chapeau.
Aguardo, com elevada expectativa, os caminhos diferenciadores que este Conselho Estratégico vai apresentar para Portugal.
Parece-me evidente que o PS e o PSD ainda não perceberam o que está a acontecer às democracias ocidentais. O nível de ressentimento dos eleitores e as consequências que os seus atos podem vir a ter. PS e PSD podem insistir nesta cegueira misturada com soberba, fazendo parecer que estão a mudar muita coisa, na esperança de que tudo fique na mesma. Mas isto é insanidade pura.