Ouvir João Soares denunciar motivações políticas e de perseguição ao PS numa operação judicial que visou estancar a impunidade dos compadrios autárquicos com dinheiros públicos, sejam eles rosa, laranja ou lilás às riscas, foi constrangedor. E mais penoso quando sugeriu, sem se rir, que o timming tenha sido definido pelo centenário do golpe militar que pôs fim à Primeira República. Fez-me logo lembrar o pai Soares, naquelas célebres declarações à porta da prisão de Évora, a propósito de Sócrates, e a que toda a gente, bem, deu então o desconto face à idade do senhor. Acontece que João Soares, que se saiba, não sofre de falta de lucidez. Como não sofrem Mariana Vieira da Silva e outros com o mesmo discurso patético. A sofrerem de alguma coisa é de falta de vergonha. De resto, têm sido acompanhados por conhecidos egomaníacos de outros meios, inchados pela relevância que julgam ter e traumatizados por um qualquer passado mais triste. Uns teorizam conspirações por oportunismo; outros por mera patologia e à falta de um colete de forças.
Se os últimos são só dignos de pena, até porque o ridículo é isento de impostos, os primeiros merecem ser desmascarados e combatidos: eu, dirigente ou histórico socialista, coraria de vergonha que autarcas do meu partido andassem à descarada a empregar camaradas, e as mulheres e os irmãos destes, celebrando contratos à medida com as empresas de outros camaradas, aldrabando as regras da contratação pública com vulgares encenações de legalidade. Porque o problema, obviamente, está na essência - não no facto de em causa estarem 800 mil, dois milhões ou dois tostões.
A obrigação destes senadores partidários, em vez de tentarem burlar o povo com teorias absurdas de subjugação da justiça a interesses políticos, seria de discutirem publicamente de que forma podem criar mecanismos internos de vigilância dos abusos dos seus autarcas e colaboradores.
É isto que os desonestos da nossa intelectualidade fingem não perceber. Refugiam-se no pormenor dos “meros” 800 mil euros, como se o crime se medisse a peso ou se dinheiro fosse deles, para desvalorizarem tudo o resto - que até se abstém, com nojo, de comentar. E então passam rapidamente à sátira. Eles e alguns dos intelectuais de pacotilha, comentadores das quintas-feiras da má língua que, com aquelas gargalhadas sarcásticas, prestam um enorme serviço aos pequenos e grandes corruptos deste país, que eles juram não existir.
Sou o maior crítico do Ministério Público onde merece ser criticado - o que já fiz sobejas vezes a propósitos do fiasco da operação Influencer, por exemplo. Mas serei um defensor, sempre, da ação generalizada da justiça e de centenas de homens e mulheres na Polícia Judiciária que dedicam a vida, de manhã à noite, para que sejamos o país que não somos, em que o Estado trata todos por igual nos direitos e oportunidades.
Os desonestos, que denunciam o exagero de 400 inspetores numa operação, não sabem ou fingem não saber que em cada busca participam quatro ou cinco elementos. E que se falamos de 20 empresas, logo aí estamos a falar inevitavelmente de 100 polícias. Fora as casas de cada alvo, mais as juntas de freguesia, outros organismos públicos e, no caso desta operação “Imergente”, até a sede do PS. Chama-se princípio da legalidade, a obrigação que o Ministério Público tem de perseguir criminalmente todas as suspeitas - e que os mais desonestos, até porque alguns estudaram Direito, bem conhecem.
De resto, são os mesmos desonestos que zurziram sobre o excesso de meios policiais numa célebre operação na Madeira, quando segundo eles a montanha tinha parido um rato - e agora veio o Tribunal da Relação, num acórdão, repor o que sempre fora evidente: há ali, obviamente, fortes indícios de crimes de corrupção e outros. Sobre isso, agora, dos desonestos das quintas-feiras da má língua já não se ouve uma palavra.
