O governo fez um ano, nesta segunda encarnação. A oposição também. E não se recomenda. O Chega não é oposição, é situação e oportunismo. E o PS ainda não é alternativa
Luís Montenegro celebrou esta semana o primeiro aniversário da segunda légua deste seu governo, interrompido pelas legislativas antecipadas do ano passado. A data passou sem grande foguetório, seja porque os foguetes já tinham sido lançados na efeméride da vitória eleitoral, seja porque não há muito a festejar. Afinal, falamos do Governo cuja única ideia de grande reforma (lei laboral) marca passo até à derrota final, e que se mostra incapaz de dar resposta aos problemas reais, quotidianos, dos cidadãos: (in)capacidade de resposta do SNS, impossibilidade de encontrar casa para comprar ou arrendar, demora no auxílio pós-catástrofes, aumento do custo de vida e perda de poder de compra, para além dos entorses estruturais de que já quase não se fala, mas continuam a pesar sobre o país, sejam a burocracia endémica ou a lentidão da justiça.
Ao fim de um ano, o Governo cá vai andando com a cabeça entre as orelhas. A oposição também. Como faço questão de me focar sempre no mais importante, nos mais poderosos, nas decisões mais impactantes e consequentes, raramente tenho falado da oposição neste espaço. A excepção é o Chega — a atenção que dou ao partido de André Ventura é sobretudo ditada pela forma como vai levando a água ao seu moínho, impondo como temas centrais da agenda do Governo e da AD assuntos que antes eram laterais e secundários. Sobretudo toda a narrativa que relaciona imigração e insegurança, e as lengalengas que isso traz por arrasto. É claro que as contradições e aos absurdos com que Ventura & Cia nos brindam diariamente também ajudam na hora de distribuir a atenção; assim como o palco, sempre bastante generoso e ainda muito acrítico, que a comunicação social continua a dar ao líder da extrema-direita, mesmo quando diz absurdos como a proposta de referendar uma lei chumbada pelo Tribunal Constitucional. Mas, dito isto…
E oposição, temos?
Em todo o caso, sendo o maior partido a oposição, é duvidoso que o Chega lidere a oposição. Mais: é quase imperceptível que exista uma. Uma oposição forte é vital a qualquer democracia – nada estimula um governo a governar melhor do que o risco de perder o poder. Por cá, esse risco não se sente.
Durante meses, a circunstância da campanha presidencial mascarou esta tragédia do regime que é a debilidade da oposição e a inexistência de uma alternativa. Todos os candidatos presidenciais (pelo menos, todos de que me lembro, incluindo o Manuel João Vieira) faziam oposição ao Governo. Até Marques Mendes, que Deus o guarde, por vezes divergia e sinalizava o que então me parecia uma evidência: se fosse eleito para Belém, o ex-líder do PSD seria a maior dor de cabeça que podia sair na rifa a Luís Montenegro.
Seguro começou a piar fininho mas acabou a falar grosso, Ventura gritou o tempo todo, Cotrim Figueiredo fez o seu one man show habitual, o Almirante munia-se ocasionalmente de profundas razões contra o governo, e os candidatos dos partidos mais pequenos reproduziam o que o guião da respetiva agremiação ditava.
Terminadas as eleições, ungido Seguro de um mandato para pacificar, estabilizar e sonolenciar o país (inventei o verbo agora), sumiu a oposição. Explico-me, começando pelo partido de Ventura.
O Chega não é oposição, é situação. Como têm demonstrado inúmeros eleitos do Chega na Assembleia da República e em autarquias pelo país fora, esta gente quer a parte que acha que lhe cabe nos benefícios do “regime”, e de “50 anos de corrupção” e “compadrio”. Querem as nomeações, as subvenções e os financiamentos que vêm (ou julgam que deviam vir) com o estatuto de “grande partido”. Por seu lado, os financiadores do Chega também querem o retorno do seu investimento. Querem, por exemplo, boa parte daquele código do trabalho laboriosamente elaborado pela ministra Maria do Rosário Palma Ramalho. Por isso Ventura já achou o código laboral “ok, mas…”, já o achou “inaceitável” e agora acha que é “mau, mas negociável”. Hesita entre dar o que os empresários financiadores do partido querem (aprovar o pacote precarial) ou fazer aquilo que o eleitorado defende (não agravar a lei laboral).
Como este caso, tantos. Quando era candidato presidencial, Ventura fazia mais oposição ao Governo do que faz agora, porque uma coisa era 31 de boca, outra é ter na mão o destino das leis. Quando contava pouco, bastava estar contra; agora que faz maiorias, precisa de acrescentar propostas, para não ser apenas “bota abaixo”. Por essa razão se tem saído com ideias como a redução da idade da reforma ou o aumento dos dias de férias – não é porque acredite nisso, veja nessas moedas de troca qualquer vantagem para a pátria ou porque tenha refletido longamente sobre alternativas ao Governo. É só porque precisa de passar a ideia de que também “propõe” coisas, e nada melhor do que “propor” coisas populares.
O exótico debate sobre se o Chega agora é de esquerda, porque propõe mais Estado ou políticas mais distributivas, é supor que o partido tenha um pensamento, quando tem só um catavento: vê para que lado o vento sopra e passa a ser esse o seu ponto cardeal. Amanhã outro. Depois, se verá. O Chega não virou esquerdista, só se mantém oportunista. Votará em conformidade. Na oposição ou na situação, as sondagens dirão.
Cautelas e caldos de galinha
(Ia direito ao PS, mas lembrei-me de que, do lado direito do espetro, ainda existe a Iniciativa Liberal. Parece que é oposição só porque não lhe dão mais oportunidades para ser o contrário disso – e nem tem votos que cheguem para grande coisa. A IL já viabilizou iniciativas com a AD e o Chega, e suspira por dar uso à maioria de dois terços que pode mudar a Constituição. Infelizmente para a IL, vive uma circunstância de dois papas. E o ego de João Cotrim Figueiredo vale mais do que Mariana Leitão toda.)
À esquerda, o PCP pouco mais pode do que parasitar a CGTP, o BE a pouco mais aspira do que bons soundbites do seu deputado único (visto que o líder partidário, José Manuel Pureza, se mantém na clandestinidade), e o Livre tenta manter-se relevante sem se tornar irritante. Não é fácil.
Todos, mas em particular o Livre, contam os dias até que o PS se apresente como alternativa credível, capaz de disputar o centro à AD, abrindo a possibilidade de a esquerda conseguir, quem sabe, voltar a ter mais deputados do que a direita (ou, pelo menos, conseguir aquela ficção política que é ter mais deputados do que a direita “sem o Chega”, como se o Chega não fosse do sistema…).
Sobre estas contas de cabeça, temos boas notícias e más notícias: a má notícia é que nada disso acontecerá nos tempos mais próximos; a boa notícia é que só há legislativas previstas para 2029. Apesar de tudo, há tempo. E, se há tempo, há esperança.
José Luís Carneiro tem pela frente uma eternidade como líder do PS até poder disputar eleições. Em circunstâncias normais, ser líder da oposição é o pior emprego do mundo; no caso de Carneiro, nem líder da oposição é, o que agrava ligeiramente o cenário. Terá de fazer um caminho das pedras, e ainda bem: se fosse já a votos, apesar do que dizem as sondagens, provavelmente perdia. Montenegro é o incumbente, é favorecido pelo fato de primeiro-ministro e pelo livro de cheques do Ministério das Finanças, e não é a mesma coisa dar bitaites sobre “em quem votaria” sem eleições à vista ou com elas ao virar da esquina.
As sondagens que colocam o PS empatado ou ligeiramente à frente da AD devem ser lidas com uma pitada de sal. Indicam que há um caminho que está a ser feito. Indiciam que o líder do PS não tem de ser uma figura com carisma tradicional, aquele carisma à-Sócrates ou à-Pedro-Nuno, cruz credo!, e que o seu português suave pode chegar para captar a atenção e a simpatia do eleitorado.
Nesse caminho, Carneiro tem beneficiado dos muitos, imensos, clamorosos, erros que o Governo tem cometido. Aparentemente, pode também beneficiar do cansaço de algum eleitorado (sobretudo o mais jovem) em relação aos espalhafatos do Chega. Mas suponho que Carneiro será o primeiro a ter consciência do quanto ainda tem de crescer para poder disputar o poder a Montenegro.
(A grande ironia é que, se tivesse sido ele o escolhido pelo PS para suceder a Costa, acredito que teria muito mais probabilidades de vencer as legislativas de 2024, que Pedro Nuno Santos perdeu por pouco – mas esse comboio já não volta ao apeadeiro).
Evitem humilhações planetárias
Nada do que escrevi acima contraria a perceção de que não há oposição nem existe uma alternativa consistente. A estratégia de José Luís Carneiro é de cautela e caldos de galinha. Apresentar cada crítica emparelhada com uma sugestão; fugir à espuma dos dias com propostas temáticas de algum fôlego; escrever cartas ao primeiro-ministro com essas propostas e depois escrever cartas queixando-se de que ninguém ligou às cartas anteriores; percorrer as estruturas do partido, e o país, levando “diálogo”, “proximidade” e esses ingredientes que fazem a política moderna (e, por falar nisso, o líder socialista até tem publicado vídeos cada vez mais “ousados”, à falta de melhor palavra, no TikTok e arredores).
Tudo isto leva tempo. Leva muuuuuito tempo. E é bom que leve, porque falta uma eternidade até 2029, e são melhores passos seguros e geradores de confiança do que fogachos instantâneos. É, presumo, um trabalho solitário e muitas vezes frustrantes, sobretudo pelo pouco retorno mediático – no dia em que os jornalistas decidem que o tema é X, de pouco serve insistir em falar de Y… e depois os comentadores acusam-no de que só falou de X e nunca de Y. Como escrevia um mestre, as coisas são como são.
Ser persistente ajuda, ter uma costela zen também, mas quem quer ser líder da oposição não pode parecer alheado da realidade, nem hesitante, nem titubeante. Nem apressado para deitar o governo abaixo, nem ansioso para fazer acordos com ele. E, já agora, de nada vale entrar no campeonato do populismo, pois esse já está entregue. O PS que José Luís Carneiro quer construir não pode reagir à polémica entre Paulo Rangel e Marco Rubio dizendo que Portugal sofreu “uma humilhação de dimensão planetária”. É disparatado, é exagerado, é incompreensível, e é mentira. Tudo isto é dar argumentos ao Governo – a coisa correu tão mal que, subitamente, parecia que era o PS que tinha de dar explicações – e é também dar o flanco aos opositores internos. Sim, porque Carneiro também tem de lidar com esses.
Não é fácil? Pois não. Talvez a reentrada em cena de Mário Centeno, aquele que foi o ministro mais popular dos governos de António Costa, com uma intuição política rara e entranhada, possa acrescentar argumentos, estamina e objetividade ao líder socialista. Centeno estreou nesta segunda-feira um programa de comentário semanal na CNN Portugal. No seu estilo, dirá o que tem a dizer sobre o estado do país e da governação. É bom para Carneiro que não pareça que é ele, Centeno, o líder da oposição. Isso pode espicaçar o secretário-geral do PS. Como sempre, haverá na direção socialista quem encare o ex-ministro das Finanças como uma ameaça. Talvez seja mais inteligente encará-lo como uma oportunidade.
