Como hipoteticamente fomos todos manipulados por uma alegada estratégia de marketing que supostamente deu mais milhões ao Milhão: Prozis, 8 coisas

5 jul, 12:25
Miguel Milhão

Miguel Milhão: este nome entrou abruptamente na discussão pública. E ele diz que enriqueceu ainda mais por isso mesmo, por estarmos a falar dele. É mesmo assim?

Miguel Milhão e a marca de suplementos alimentares que fundou em 2006, a Prozis, viveram dias turbulentos nas últimas semanas. O que começou com uma publicação no LinkedIn a aplaudir a anulação da decisão do processo Roe vs. Wade - que em 1973 legalizou a interrupção voluntária da gravidez nos EUA - acabou num movimento pelo cancelamento da empresa de nutrição desportiva e de venda de roupa. 

Pelo meio, o empresário de 39 anos assumiu-se como tendo “recursos ilimitados” e garantiu que “não precisava de Portugal”. O que agudizou a pressão sobre a marca e levou a pedidos “desesperados” de dentro da empresa para que não intensificasse a polémica. No final, disse Miguel Milhão, era tudo uma estratégia de marketing que supostamente lucrou milhões. 

1.“Parece que os bebés que ainda não nasceram tiveram os seus direitos de volta nos EUA. A natureza está a curar-se”

Numa altura em que os Estados Unidos observavam nas ruas de Nova Iorque, Washington e Flórida as enormes manifestações contra o acórdão do Supremo Tribunal dos EUA que reverteu a decisão que estabelecia o direito ao aborto, Miguel Milhão utilizou a rede social LinkedIn para escrever duas frases que colocaram a marca no centro de uma avassaladora onda de críticas: “Parece que os bebés que ainda não nasceram tiveram os seus direitos de volta nos EUA. A natureza está a curar-se”.

LinkedIn

O fundador da Prozis, que nos últimos dez anos não tinha tornado pública qualquer posição política ou religiosa, aplaudia o retrocesso da lei federal sobre o direito constitucional ao aborto. Em pouco mais de 24 horas teve 750 reações e mais de mil comentários no LinkedIn. O comentário acabaria por ganhar uma enorme expressão nas redes sociais. A hashtag #CancelProzis (cancelem a Prozis) foi uma das maiores tendências no Twitter no dia 26 de junho, quando o comentário foi publicado, e, no Instagram, multiplicaram-se publicações feitas a discutir as palavras do empresário.

2. A onda de críticas 

Na semana em que Miguel Milhão defendeu a reversão da decisão que estabelecia o direito ao aborto, pelo menos 11 influencers que trabalhavam com a marca vieram a público criticar abertamente o empresário, anunciando que iriam terminar as suas parcerias - que envolviam, por exemplo, a publicação de fotografias com artigos da Prozis ou a promoção de códigos de descontos em suplementos alimentares.

Jéssica Athayde, Rita Belinha Marta Melro e Diana Monteiro foram alguns dos rostos que se distanciaram da Prozis por simbolizar valores com os quais não concordavam e atacaram o fundador da marca por apoiar a decisão do Supremo Tribunal norte-americano - tudo isto aconteceu num clima de polarização nas redes sociais. Ao passo que a apresentadora Rita Belinha escreveu que trabalhar com Milhão é “como trabalhar com um racista ou um homofóbico”, Diana Monteiro, que vive nos Estados Unidos, afirmou que não podia continuar com a parceria que tinha há seis anos com a marca por o seu “coração” e os seus “valores falarem mais alto". 

Outros embaixadores da Prozis foram pressionados pelos seus seguidores devido ao seu silêncio sobre a polémica, como Luciana Abreu e Carolina Patrocínio. Já Joana Amaral Dias assumiu mesmo que não se iria desvincular da marca, mesmo estando “nos antípodas” das posições de Miguel Milhão - em entrevista à TVI acusou ainda alguns influencers de “hipocrisia”. Isto porque, argumenta, “as pessoas têm o direito de se desvincular da marca como o Miguel tem direito à opinião dele”.

 


 

3. O podcast polémico

Quando nas redes sociais o movimento a pedir o cancelamento da marca por causa da frase polémica do seu acionista maioritário estava a crescer - e com as palavras “prozis” e “aborto” a dominar as pesquisas no Google -, Miguel Milhão decidiu lançar um contrataque.

No dia 28 de junho tornou público um episódio do podcast interno da Prozis para reagir à controvérsia e vincar novamente as suas ideias sobre o aborto. Assim, o empresário de 39 anos afirmava que “matar um embrião, matar um feto ou matar um recém-nascido ou matar a criança ou matar um adulto é a mesma coisa" e que, se tivesse uma filha que tivesse sido violada, “tentava falar com ela e eu cuidava da criança sem problema nenhum". "Não consigo sacrificar um inocente pelos crimes de um criminoso."

Miguel Milhão utilizou também o termo “incancelável” para responder às críticas feitas pelas influencers que abandonavam a marca e sublinhava que tinha “recursos ilimitados” para fazer face à alavanche de críticas sobre a sua posição relativamente ao aborto. “Não preciso de Portugal, não preciso da Prozis. Não gosto desta multidão, destes filhos da puta. Podem todos deixar de comprar na Prozis."

4. Mais personalidades juntam-se à polémica

O podcast intensificou a polémica e aumentou a contestação, que desta vez passou a incluir políticos e personalidades que não tinham uma relação com a marca. O comediante Bruno Nogueira atacou o empresário por confundir como tentativa de silenciamento a contestação àquilo que disse. “‘Silenciar’ é uma mulher querer abortar e ficar caladinha. ‘Reagir’ é uma mulher querer abortar e ter de procurar uma clínica clandestina porque o seu direito foi silenciado.” 

Já a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua escreveu que o líder da Prozis utilizava a ética para disfarçar o seu ultraconservadorismo e que Miguel Milhão aderia a uma “ideologia patriarcal de submissão das mulheres a um dever reprodutivo”.

Também a apresentadora Helena Coelho escolheu como alvo o momento no podcast em que Miguel Milhão diz não precisar de Portugal, garantindo que neste caso o debate já ultrapassava a questão da reversão do Supremo norte-americano e que se concentrava nos trabalhadores que representam a marca e que “tiveram de dar o corpo às balas e sair prejudicados com o assunto”.

5. A entrada dos movimentos pró-vida

As declarações de Miguel Milhão no podcast não receberam apenas atenção negativa - foram amplamente divulgadas por associações e movimentos pró-vida. No Facebook da Federação Portuguesa pela Vida, uma instituição que se tem movimentado em Portugal contra o aborto e que é presidida por Margarida Neto e Pedro Líbano Monteiro, foi publicado o vídeo dos argumentos do fundador da Prozis para os mais de 1260 seguidores. Também o movimento Caminhada pela Vida, que organiza todos os anos um protesto na Assembleia da República a favor da criminalização do aborto, fez uma publicação semelhante, partilhando a forma como Miguel Milhão defendeu a reversão da decisão que estabelecia o direito à interrupção voluntária da gravidez nos Estados Unidos.
 

6. A resposta oficial da Prozis. "Não somos perfeitos. Somos humanos"

No dia a seguir às declarações de Miguel Milhão no podcast, a Prozis tomava pela primeira vez uma posição oficial sobre a polémica. Nas suas redes sociais foi publicado um comunicado que apelava à paz, salientando que a marca estava “solidária e ao lado de todos aqueles que têm recebido mensagens de intolerância”.

 “Acreditamos na liberdade de expressão e, por isso, apelamos ao respeito pela pluralidade de opiniões. Não somos perfeitos. Somos humanos. Peace", podia ler-se no comunicado publicado no dia 29 de junho.

7. O plano de Milhão: "Acho que merecia um prémio de marketing"

Já quando a controvérsia parecia estar a esfriar, Miguel Milhão voltou a colocar-se perante os holofotes com uma declaração que poucos esperavam. É que os seus comentários não eram mais do que uma jogada de marketing que, diz, renderam cerca de 10 milhões de euros à empresa.

Em entrevista ao Jornal de Negócios, o fundador da marca autoelogiava-se através de uma carta aberta que leu em voz alta. “Com toda a humildade, acho que merecia um prémio de marketing. Eu calculo que o valor de publicidade conseguida esteja acima dos 10 milhões de euros. Consegui fazer com que os zombies trabalhassem para mim simplesmente porque eles não pensam.”

Por “zombies” Miguel Milhão descrevia os críticos que acreditaram naquilo que descreve como declarações “incendiárias”, como a que diz ter “recursos ilimitados” e a que assume que “a Prozis não precisa de Portugal”. “Quem poderia acreditar que uma empresa que tem dez fábricas, mais de 10 mil colaboradores, milhares de parceiros e centenas de milhares de clientes em Portugal não precisaria deste país? Ninguém.”

Ainda assim, o fundador da empresa não escondeu que este suposto plano de marketing colocou o seu círculo próximo em stress, referindo que teve amigos e familiares que foram a sua casa “em pânico” dizer “que eu não podia dizer aquelas coisas”. Entre essas pessoas estava a sua mulher mas também o CEO da Prozis, Jorge Silva e um funcionário amigo que chegou “a chorar dizendo ‘eles não estão vendo o verdadeiro Miguel”.

8. A exigência de um pedido de desculpas

Já na segunda-feira, Miguel Milhão voltaria a pressionar o assunto ao sublinhar que tem sido “atacado” por uma “multidão de cancelamento pelo simples facto de ter manifestado" a sua "visão sobre o que se passou nos EUA”. A essa multidão Miguel Milhão disse querer um pedido de desculpas, tendo também, em entrevista ao jornal I, advertido para a existência de um grupo de pessoas da indústria do entretenimento que “utiliza o álibi da arte e da criatividade para silenciar, intimidar e pressionar”. O principal objetivo deste grupo, que não refere por nome, é o de “transmitir uma espécie de propaganda camuflada”. Para o empresário que fundou a marca em 2006, estas pessoas “vivem todos os dias com medo de que o monstro que ajudaram a criar e alimentam se vire um dia contra eles”. “Quanto a mim”, prossegue, “não tenho medo. Reitero: sou incancelável”.

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