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Provas ModA arrancam hoje com greves e polémica pelo meio. "Os alunos vão fazer uma prova que não serve para nada"

27 mai, 07:00
Escola
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Os diretores admitem "constrangimentos", mas estão otimistas. Garantem que as provas ensaio serviram para colmatar falhas, suprir necessidades e "olear a máquina". Já professores e sindicatos adivinham mais trabalho "para pessoal docente e não docente", para “algo que serve para muito pouco”

“Na próxima quarta-feira realizar-se-ão as provas ModA de Educação Artística para o 4.º ano, de carácter obrigatório. Todos queremos que os alunos sejam criativos. Até aqui, tudo certo. No entanto, os materiais exigidos, segundo o estabelecido para as escolas, parecem levantar algumas questões. A lista de materiais é extensa e, perante a eventual falta destes nas escolas, poderão ser os pais a assumir essa responsabilidade”. A denúncia consta de um email a que a CNN Portugal teve acesso. Foi escrito por uma professora titular de uma turma do 4.º ano de uma escola do Centro do país.

“Esta situação não me parece correta em termos de equidade. Num país com realidades tão distintas, terão todas as famílias acesso a este ‘arsenal’ de materiais?”, questiona a docente.

Da lista de materiais exigida às escolas do 1.º Ciclo para as provas de monitorização da aprendizagem (provas ModA) de Educação Artística constam itens como “coletes numerados de acordo com a lista da turma”, “um conjunto de acessórios: óculos, panos de vários tamanhos e cores, chapéus de diversos tipos, chinelos e sapatos sem par, lenços de vários tamanhos, xailes, cintos, bengalas, colheres de pau, meias sem par, cordas, paus, caixas de cartão de diferentes tamanhos, em número suficiente para permitir a escolha por parte dos alunos” e “um instrumento musical de altura indefinida (clavas, caixas chinesas, blocos de dois sons, tamborins ou pandeiretas) por aluno”, para a parte A da prova A. Para a parte B, o IAVE pede “lápis de cor de, pelo menos, oito cores diferentes; lápis de cera de, pelo menos, oito cores diferentes; canetas de feltro de, pelo menos, oito cores diferentes; folhas de papel de diferentes tipos (lustro, seda, revista, cartolina, embrulho, etc.); fios de diferentes tipos (lã, fitas de embrulho, tecido, ráfia, norte, etc.); pedaços de tecido de pequena dimensão, aproximadamente de 10 cm x 10 cm”, em número suficiente para ser partilhado por grupos de seis alunos.

O secretário-geral da FENPROF, José Feliciano da Costa, diz à CNN Portugal que este é apenas um exemplo das queixas que têm chegado à estrutura sindical sobre as provas ModA. O sindicalista assegura que as provas ensaio, que serviram para testar a preparação das escolas para receber, pela primeira vez, as provas de avaliação externa das aprendizagens que vêm substituir as provas de aferição e vão ser realizadas em formato digital, vieram revelar muitas fragilidades. “Temos conhecimento de uma escola onde o diretor teve de ir ao chinês mais perto comprar extensões, porque as salas não tinham tomadas suficientes para alimentar todos os computadores dos alunos que ficassem sem bateria”, conta

Internet fraca e hotspots dos alunos

José Feliciano da Costa diz que a própria instalação elétrica de algumas escolas “não suporta ter tantos computadores ligados ao mesmo tempo”. E este não é o único problema. As falhas de internet de que diretores e professores se queixam também não facilitam a vida aos alunos e às escolas. “A qualidade da internet é insuficiente para dar conta de provas destas. É preciso socorrerem-se de equipamentos próprios de alunos, de professores, de autarquias, porque as escolas não têm capacidade. Sou professor de informática e sei muito bem as dificuldades nas escolas nesta matéria. Muitos alunos trazem os seus próprios hotspots, que esses já não são fornecidos aos alunos”, denuncia Daniel Martins, coordenador interino do S.TO.P!.

O secretário-geral da Fenprof sublinha ainda as “diferentes condições em que são aplicadas estas provas, mesmo dentro das próprias escolas”. “Há diferenças de condições entre os alunos. Nem todas as crianças têm acesso a computadores e dispositivos eletrónicos em casa. Até podem ter as aprendizagens adquiridas, mas nem todas terão capacidades iguais para as colocarem em prática em formato digital”, explica.

Em suma, ambos os dirigentes sindicais garantem que as escolas “não têm condições técnicas, não têm material” e denunciam a “falta de investimento” da tutela nesta matéria. “O parque informático nas escolas é muito débil”, resume Daniel Martins.

O movimento de professores Missão Escola Pública (MEP) também garante que a rede de internet não foi reforçada de forma eficaz em todas as escolas e acrescenta, numa nota escrita enviada à CNN Portugal: “continuam a existir alunos sem acesso aos kits informáticos ou ainda a aguardar a reparação dos equipamentos”. “Esta situação é incompreensível perante os milhões de euros do PRR destinados à transição digital das escolas. Em teoria muito se avançou; na prática, continuam a faltar condições essenciais”, resume o movimento.

Greves anunciadas

O calendário das provas que vão avaliar externamente a aquisição das aprendizagens no 4.º e 6.º anos arranca esta quarta-feira com as provas de Educação Artística do final do 1.º ciclo. Termina a 8 de junho, com Matemática do 6.º ano. Pelo meio, há uma greve geral e pré-avisos de greve às provas ModA, que podem “ser um constrangimento. As escolas neste momento não sabem se as provas se vão realizar nas suas instalações, porque há um pré-aviso de greve que pode impedir que as provas se realizem”, admite Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

“Estamos muito focados na greve de dia 3. Pela importância que tem, pelas implicações que tem em termos do pacote laboral, mas também por causa da lei do trabalho em funções públicas e por causa das ilegalidades cometidas anteriormente nas escolas”, diz José Feliciano da Costa, referindo-se a uma paralisação que não abrange apenas a comunidade escolar, mas todo o país.

A FENPROF está “focada” na greve geral, mas, juntamente com o S.TO.P!, também convocou greve às provas ModA. “As razões prendem-se com todas as implicações que isto tem. Porque, na prática, não são um processo de aferição. Aquilo não resulta em nada. Porque é que se está a fazer isto? Por teimosia?”, questiona Feliciano da Costa.

Daniel Martins concorda com a falta de utilidade prática das provas ModA. “Os alunos vão fazer uma prova que não serve para nada. São provas feitas por uma mera obrigação burocrática e estatística”, defende o dirigente do S.TO.P!.

“Este ano, ainda se agrava mais. Este Governo começou a fazer provas ensaio no ano passado. Deviam ter sido feitas uma vez, mas decidiram fazê-las também este ano. Deviam ter sido feitas em fevereiro, mas não foram por causa das tempestades. Em vez de as cancelar, este Governo adiou-as. Isto fez com que, no espaço de um mês, estão a fazer-se as mesmas provas, com todo o constrangimento que isso gera nas escolas”, acrescenta ainda David Martins, sublinhando “o tempo que ocupam e que devia estar a ser usado no trabalho com os alunos” e a “ansiedade terrível nas crianças, com provas feitas duas vezes no espaço de um mês e picos”.

Alunos sem aulas por causa das ModA

Os sindicatos criticam a interferência que as provas têm no normal funcionamento das escolas e o facto de muitos alunos ficarem sem aulas por causa delas.

“Isto é um contrassenso. O ministro está sempre muito preocupado com os alunos sem aulas. Por causa das provas ModA, muitos professores deixam de dar as suas aulas, porque os diretores dispensam os alunos para terem salas e não sobrecarregarem as estruturas”, ataca Daniel Martins.

“No período mais crítico e de maior ansiedade para os alunos - o final de ano letivo, período de avaliações e preparação para exames nacionais -, em vez de professores e profissionais da educação estarem concentrados na preparação dos alunos para esta fase, vão estar imputados a tarefas burocráticas e os alunos ficam sem as aulas”, acrescenta.

Cristina Mota, porta-voz da MEP também critica o “cancelamento” de aulas por causa da realização das provas ModA. “Existem turmas que já acumularam seis dias sem aulas, aos quais se somam os dias anteriormente interrompidos para a realização das provas-ensaio”, contabiliza.

“Esta situação condiciona inevitavelmente as aprendizagens dos alunos numa altura particularmente sensível do ano letivo, agravando dificuldades já existentes num contexto em que a falta de professores continua, por si só, a comprometer de forma significativa o ensino ministrado”, sublinha.

Por tudo isto, a MEP defende que, como não têm implicação direta na avaliação dos alunos a aplicação de provas de avaliação externa das aprendizagens devia ser feita “sobre uma amostra representativa e não sobre a totalidade da população escolar, à semelhança do que sucede em estudos internacionais como o PISA”.

Diretores otimistas

Os diretores escolares não afinam pelo mesmo diapasão. Filinto Lima garante que, cada vez mais, os resultados das antecessoras provas de aferição “começam a ter impacto no trabalho de muitas escolas”.

“Há, de facto, quem diga que é muita parra para pouca uva. Muito trabalho para pouco resultados. Eu não quero afinar por aí. As provas têm resultados mais macro - para o ministério saber o que está a ser feito nas escolas - e resultados mais micro - nas próprias escolas, para serem debatidos em conselho de pedagógico e em conselho de turma”, garante o presidente da ANDAEP, acrescentando que, “em algumas escolas, este trabalho serve de avaliação dos alunos e serve como teste para avaliação final do aluno”, já que o ministério deixou ao critério das escolas aproveitar ou não as provas ModA como elementos de avaliação final dos alunos.

Mas Filinto Lima assegura que as escolas estão preparadas para receber as provas, que “aprenderam com o passado” e “aproveitaram as provas ensaio para fazer o diagnóstico do que estava menos bem”.

Apesar dos “problemas de sempre”, com a internet e com a resistência de instalações elétricas envelhecidas nas escolas, Rui Cardoso, diretor do Agrupamento de Escolas de Viso, em Viseu, está confiante que “vai correr tudo bem”.   “As provas ensaio apresentaram algumas fragilidades e corrigimos essas fragilidades. No meu agrupamento, a máquina está muito bem oleada e não antecipo problemas de maior”, antevê.

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