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Grupos anti-imigração viram-se contra minorias e espalham pânico nas ruas da Irlanda do Norte

CNN , Issy Ronald, Hira Humayun, Kathleen Magramo
10 jun, 14:09
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Várias vozes políticas, incluindo o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, condenaram o crime "horrível" e "repugnante" que está a chocar o Reino Unido. Mas agora, são os movimentos anti-imigração que começam a fazer soar alarmes depois de saírem à rua para "ameaçar, intimidar, perturbar e causar destruição gratuita" em protestos contra o incidente

Manifestantes anti-imigração no Reino Unido saíram às ruas esta quarta-feira, depois de um homem de 30 anos, alegadamente oriundo do Sudão, ter sido acusado de tentativa de homicídio na sequência de um ataque à faca na Irlanda do Norte, que o primeiro-ministro Keir Starmer classificou como “horrível”.

Multidões encapuzadas reuniram-se em várias zonas de Belfast na noite passada, incendiando casas, um autocarro, carros e barricadas.

Vídeos das redes sociais verificados pela CNN mostram casas na capital da Irlanda do Norte envolvidas em chamas, enquanto um veículo de emergência e bombeiros percorrem a rua. A tensão também aumentou na cidade vizinha de Newtown Abbey, onde os manifestantes pegaram fogo a dois carros, segundo vídeos geolocalizados pela CNN, e em Kilkeel, onde outro veículo foi incendiado.

Também foram relatados protestos noutras cidades de Inglaterra, País de Gales e Escócia.

A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, afirmou que grupos de homens encapuzados estavam a “expulsar famílias das suas casas através do fogo” em cenas de “pura delinquência”.

Os protestos surgiram depois de a polícia local ter anunciado, na terça-feira, que acusou um homem de tentativa de homicídio devido a um ataque à faca, que deixou a vítima hospitalizada com ferimentos nos olhos, nas costas e no rosto.

O ataque, que ocorreu na noite de segunda-feira no norte de Belfast, foi filmado por uma testemunha e tornou-se viral nas redes sociais. Nas imagens, é possível ver-se um homem a imobilizar no chão outro homem visivelmente ensanguentado e a atacá-lo repetidamente, até que transeuntes e agentes da polícia conseguiram dominá-lo.

Nas redes sociais, em particular no X, contas anti-imigração e de direita aproveitaram o vídeo, que resultou no apelo a protestos por parte de muitos utilizadores.

O bilionário Elon Musk esteve entre as figuras da direita norte-americana que apelaram a manifestações e republicaram conteúdos. “Só protestando REPETIDAMENTE e EM ALTA VOZ haverá alguma mudança!!”, escreveu, ao republicar um apelo de Tommy Robinson, um conhecido agitador controverso que divulga mensagens anti-muçulmanas e é alvo de várias condenações criminais.

Apelos à calma

Vários líderes da Irlanda do Norte e nacionais condenaram entretanto aquilo que classificaram como violência xenófoba nas ruas.

Uma captura de ecrã mostra um homem em cima de outro durante o incidente de esfaqueamento em Belfast, Irlanda do Norte, na segunda-feira, 8 de junho. A CNN desfocou os rostos de ambos os homens. (Imagem obetida pela CNN)

“O ataque no norte de Belfast foi hediondo e errado. Mas há tentativas perigosas de explorar esse facto para visar e atacar pessoas inocentes que estão simplesmente a tentar viver, trabalhar e criar as suas famílias aqui”, escreveu a primeira-ministra, O’Neill, na rede social X.

“O racismo, a intimidação e a violência são errados onde quer que ocorram”, completou.

Starmer classificou o ataque de segunda-feira à noite como “horrível” e “repugnante”, acrescentando que tem “absolutamente nenhuma tolerância para cenas de violência abomináveis como estas nas nossas ruas”.

Também ocorreram protestos de menor dimensão noutras cidades britânicas, incluindo Bangor, Glasgow e Londres, onde um grupo de manifestantes de extrema-direita confrontou a polícia e entoou cânticos anti-imigração.

A deputada de Belfast Claire Hanna disse ao programa Newsnight da BBC que agentes negativos online e alguns políticos locais estavam a explorar a tragédia para incitar à violência e semear divisões.

“Aquilo a que estamos a assistir é a um ‘pogrom’ baseado na raça. Estamos a ver homens a bater de porta em porta a exigir a expulsão de estrangeiros exclusivamente com base na cor da sua pele”, afirmou Hanna.

A polícia reconheceu que ocorreram “focos esporádicos de desordem” em várias zonas da Irlanda do Norte e que alguns veículos foram incendiados. As autoridades apelaram à calma, a protestos pacíficos e a que as pessoas “ajam de forma responsável”.

“Voltamos a apelar à calma e pedimos a todas as vozes influentes nas comunidades locais que incentivem protestos pacíficos e desencorajem qualquer envolvimento em violência ou desordem”, afirmou Ryan Henderson, chefe-adjunto da Polícia da Irlanda do Norte (PSNI).

O que sabemos sobre o esfaqueamento em Belfast

Um homem na casa dos 40 anos ficou gravemente ferido num ataque à faca na Canard Avenue, esta segunda-feira, por volta das 22:30 locais, segundo Henderson.

Uma faca de cozinha foi recuperada no local e a vítima foi transportada para o hospital com ferimentos significativos nos olhos e lesões graves nas costas e no rosto, acrescentou. A vítima continua internada em estado grave.

A polícia afirmou que um homem alegadamente oriundo do Sudão foi posteriormente detido sob suspeita de tentativa de homicídio. O suspeito viajou de Paris para Dublin e entrou na Irlanda do Norte em fevereiro de 2023. Pediu asilo à chegada e foi autorizado a permanecer no Reino Unido até 2028.

Atualmente, não existem provas de que o esfaqueamento esteja relacionado com terrorismo, afirmou Henderson, sublinhando que a investigação ainda está numa fase inicial.

O suspeito tinha o direito legal de residir na Irlanda do Norte, sublinhou.

O homem continua detido e foi acusado de tentativa de homicídio, posse de uma arma branca em local público e ameaças de morte, devendo comparecer em tribunal na quarta-feira.

Manifestantes reúnem-se na Parliament Square, em Londres, esta terça-feira. (Chris J Ratcliffe/Reuters)

Tensões raciais na Grã-Bretanha

O ataque ocorre num período de tensões raciais elevadas na Grã-Bretanha, particularmente em torno da retórica anti-imigração amplificada por figuras de extrema-direita e pelas redes sociais, tanto dentro como fora do Reino Unido.

Na semana passada, a divulgação das imagens da câmara corporal da polícia relativas à morte do estudante Henry Nowak - que foi algemado pela polícia depois de ter sido mortalmente esfaqueado por um homem Sikh na cidade inglesa de Southampton - provocou indignação nacional. Os agentes foram alvo de críticas pela sua atuação e líderes de extrema-direita foram acusados de usar o homicídio para alimentar violência racista com fins políticos.

Altos responsáveis da administração Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, aproveitaram a condenação do agressor para culpar as políticas migratórias do Reino Unido, gerando tensões com o Governo britânico. O homem condenado pelo homicídio, Vickrum Digwa, de 23 anos, nasceu na Grã-Bretanha.

A Irlanda do Norte também tem vivido um período de tensões raciais recentemente.

Há um ano, várias noites de distúrbios violentos com motivação racial ocorreram na cidade de Ballymena, na Irlanda do Norte, depois de dois adolescentes romenos terem sido acusados de agredir sexualmente uma rapariga adolescente. Todas as acusações contra os dois acabariam por ser retiradas.

A ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, condenou os distúrbios em curso, acusando alguns manifestantes de estarem “determinados a causar destruição precisamente nas comunidades que afirmam estar a tentar proteger”.

A polícia no local do esfaqueamento, esta terça-feira. (Charles McQuillan/Getty Images)

“Não há lugar para delinquentes encapuzados que saem à rua para ameaçar, intimidar, perturbar e causar destruição gratuita - é simplesmente desonesto afirmar que isto está a ser feito pelo bem da Irlanda do Norte”, declarou numa nota divulgada na noite de terça-feira.

“Embora reconheça e compreenda as preocupações após o ataque no norte de Belfast, não podemos permitir que o ódio vença”, acrescentou.

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