Um país, duas imagens: no Irão há snipers a caçar quem espera pela ajuda dos EUA

13 jan, 19:11
Protestos contra o governo iraniano em Teerão (AP)

Corpos amontoados no chão após serem baleados em protestos e imagens de edifícios públicos destruídos. Ambas as imagens são verdadeiras, mas cada uma serve um lado

Antes chegavam com ferimentos provocados por balas de borracha, agora dão entrada no hospital com balas no corpo e fraturas no crânio. Um médico que está ao serviço no meio do caos que está em curso no Irão fala numa “situação de vítimas em massa”, acusando o governo de estar a disparar munições reais contra os milhares de pessoas que se vão juntando nas ruas de todo o país.

No meio de um apagão praticamente total - poucas são as imagens que saem desde que a Internet foi cortada em todo o país - o relato deste médico, que falou ao The New York Times, confirma um cenário que já ultrapassa largamente a revolta que surgiu depois da morte de Mahsa Amini.

Neste momento são já mais de dois mil os mortos confirmados, sendo que o jornal norte-americano cita uma fonte do Ministério da Saúde do Irão que já aponta para os três mil. Essa mesma pessoa não falou em vítimas, mas “terroristas”, alinhando na narrativa do governo, que até começou por admitir que compreendia os protestos com base na crise económica e financeira, mas rapidamente mudou para um tom agressivo, acusando os revoltosos de estarem ao serviço dos Estados Unidos e de Donald Trump.

O jogo é mesmo esse, entre o que se pode e não se pode mostrar, e entre o que cada lado quer que se veja. É que o regime vai permitindo que se passem imagens, mas apenas de ruas vazias e destruídas, com caixas de multibanco partidas ou destroços junto a mesquitas. Nesses vídeos não passam os corredores com milhares de pessoas que todas as noites estão a sair à rua, muito menos vídeos amadores como aquele em que dezenas de corpos estão espalhados à porta de um Instituto de Medicina Legal a sul de Teerão.

Alertamos para o conteúdo sensível das imagens abaixo

Mesmo com o apagão, a imagem de sacos com corpos lá dentro já não sai da mente de quem a viu. São centenas de pessoas nas ruas a andar de saco em saco para verem se encontram algum ente querido, sempre com a natural esperança de não o encontrarem.

Estas mesmas imagens, ainda que apresentadas de forma diferente, também vão parar à televisão estatal, que as utiliza para mostrar como os protestos fazem mal ao país, tentando colocar uma divisória entre a razão do regime e a imoralidade de quem o quer derrubar.

“Estes são os indivíduos que querem arrastar as pessoas normais - que nada têm que ver com estes eventos - e as suas famílias para esta situação”, diz um jornalista numa das reportagens locais que chegaram às agências internacionais.

Seja como for, que apoia o regime teocrático e quem está a lutar como nunca para o ver cair concorda: são imagens de uma brutalidade que ainda não tinha sido vista num país habituado a mão de ferro.

Aproveitando aquilo que entende ser uma veia de pacificador, Donald Trump tentou dar gás aos protestos, incitando os manifestantes a tomar o poder, prometendo mesmo que “a ajuda está a caminho”, numa mensagem enigmática que abre a porta para uma qualquer ação militar dos Estados Unidos no país.

Essa eventual ação serviu de gasolina para o regime sugerir que os manifestantes não estão a fazer mais do que um favor aos Estados Unidos, mas é essa mesma ação que se pode revelar decisiva para que este protesto dê o passo além e seja mais do que apenas isso.

“Este regime está numa vaga de matar”, afirma uma manifestante que falou ao The New York Times, e que tem saído todas as noites para as ruas de Teerão em busca de mudança.

Ela, como os outros milhares, já viu snipers colocados estrategicamente nos telhados da baixa da capital iraniana, onde os protestos são mais veementes. Alguns deles, relatam os locais, já dispararam a matar àqueles que gritam “morte ao ditador”.

“Eu próprio vi um jovem a ser baleado na cabeça”, confessa Saeed, também em declarações ao The New York Times, numa das poucas alturas em que conseguiu aceder à Internet, aproveitando uma ligação ao sistema Starlink, de Elon Musk, que entretanto anunciou que o serviço vai ficar disponível de forma gratuita para todo o país.

Com poucos sinais de que os protestos estejam a abrandar, o Irão e o seu regime enfrentam um momento decisivo, sobretudo com a pressão dos Estados Unidos e da administração Trump, que até já se reuniu com o filho do xá deposto em 1979. O enviado-especial Steve Witkoff esteve à conversa com Reza Pahlavi esta terça-feira, numa ligação direta entre a Casa Branca e um dos maiores rostos da oposição iraniana.

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