O impacto dos protestos vai muito para lá dos imigrantes que foram alvo de ataques racistas
Belfast está lentamente a retomar a normalidade depois de uma semana de violência.
Quem esteja hoje na cidade e não tenha visto as notícias nos últimos dias podia pensar que nada se passou. Mas só é preciso estar atento para ver a destruição deixada pelos protestos e o cheiro a queimado das casas e carros incendiados que, como o medo dos imigrantes que lentamente voltam aos locais de trabalho e à sua vida, ainda se sente aqui.
Começou tudo com o vídeo de um ataque à faca que aconteceu no início da semana, levado a cabo por um imigrante sudanês que estava a viver na Irlanda do Norte com estatuto de refugiado. O vídeo, que mostra o homem a mutilar e a ferir gravemente um outro homem que ficou em estado crítico, espalhou-se como fogo pela internet.
Horas depois do vídeo ser publicado, estavam também publicadas moradas onde, supostamente, viviam e trabalhavam imigrantes, e manifestações pacíficas rapidamente se transformaram em ataques contra qualquer imigrante e qualquer pessoa que não fosse branca.
Muitas famílias tiveram de abandonar as suas casas com medo de serem atacadas e foram transferidas para hotéis.
“Temos medo de sair para ir à mercearia”, diz-me um rapaz que se mudou para a Irlanda do Norte há apenas dois meses e que escolheu ficar. Está a traduzir a conversa de inglês para árabe no telemóvel, e pediu para não ser identificado com medo de retaliação. “A casa de um conhecido meu foi atacada”, lê-se no ecrã. “É muito assustador”.
Momentos antes, uma imigrante de jilbab a passear a filha pequena admitiu que está aterrorizada.
Mas o impacto dos protestos vai muito para lá dos imigrantes que foram alvo de ataques racistas.
Muitas lojas continuam fechadas, ou fecham mais cedo do que o habitual. O treinador de um ginásio na rua onde os protestos aconteceram disse-me que mais de 100 pessoas cancelaram as suas subscrições em apenas dois dias por causa dos protestos.
“Não somos só nós que estamos a ser afetados”, explica-me o dono de um restaurante no norte da cidade que esteve fechado nos últimos dias. Mudou-se para a Irlanda do Norte há 21 anos e diz que nunca viu nada assim. “Está a afetar a comunidade inteira”.
Nesta parte da cidade, onde muita da violência aconteceu, vê-se bandeiras britânicas por todo o lado - as pessoas aqui são protestantes e identificam-se como britânicas.
Em Belfast, a discriminação faz parte do dia a dia. Muitos têm bem presente na memória a violência dos Troubles - os confrontos entre católicos e protestantes, entre aqueles que queriam a reunificação da Irlanda e aqueles que queriam que a Irlanda do Norte continuasse dentro do Reino Unido. É uma parte da história da Irlanda que deixou cicatrizes profundas que ainda se sentem na comunidade.
E os protestos estão a reabri-las.
Muitos residentes católicos nacionalistas culpam os protestantes unionistas pela violência e pela hostilidade contra imigrantes. “Está tudo a acontecer na parte protestante da cidade”, diz-me uma pessoa católica. “É onde a renda é mais barata, e por isso há mais imigrantes a viver lá. O que nos fizeram a nós, fazem agora aos imigrantes”.
Um outro homem católico, a referir-se aos jovens envolvidos nos protestos, diz que “eles têm mais medo dos paramilitares do que da lei”. Mas houve protestos em partes católicas da cidade e, segundo a polícia, nada indica que tenham sido organizados por paramilitares unionistas.
E muitas pessoas na parte protestante da cidade acham que que é preciso controlar a imigração ilegal no país e quem tenta entrar no Reino Unido “pela porta de trás”, mas dizem que esta é a forma errada de protestar contra a falta de
controlo nas fronteiras e apontam o dedo aos mais jovens, incitados por contas online e publicações racistas que lhes aparecem nos feeds.
“Isto são só pessoas novas que só querem confusão”, explica um homem que ainda se lembra bem do sangue derramado nas ruas irlandesas na altura dos Troubles. “Têm sangue quente, não sabem o que estão a fazer”.
Mas também há quem ache que isto está de novo a unir protestantes e católicos. “É pena haver danos colaterais, mas pela primeira vez estamos todos unidos contra esta ameaça”, diz um residente. Referia-se aos imigrantes.
