"Isto nunca é completamente evitável" mas havia uma solução que podia ter mitigado os efeitos da tempestade. Só há um problema: é muito mais cara

3 fev, 09:00
Estragos da Depressão Kristin em Leiria (PAULO CUNHA/LUSA)

A depressão Kristin voltou a expor vulnerabilidades de infraestruturas elétricas e de telecomunicações em Portugal. Uma semana depois do temporal que atingiu grande parte do país, ainda há milhares de pessoas sem luz, Internet ou telefone. Especialistas dizem que, apesar da “inevitabilidade” dos efeitos do fenómeno, teria sido possível “mitigar os efeitos a montante”

Com grande parte das linhas de alta e média tensão destruídas em zonas de Leiria, Coimbra e Santarém, Portugal tem a opção de enveredar por uma solução diferente. Uma solução que a ministra do Ambiente e da Energia já abordou, lembrando também que se trata de uma via "muito mais cara".

Maria Graça Carvalho referia-se assim, esta segunda-feira, à necessidade de adaptar as infraestruturas energéticas aos cada vez mais frequentes e violentos fenómenos meteorológicos que têm afetado o território português. A ministra considera, por exemplo, que é necessário aproveitar a renovação da rede elétrica e apostar em linhas subterrâneas, seguindo os exemplos de outros países europeus.

"Numa altura em que o nosso país está a trabalhar para expandir e modernizar a sua rede elétrica, temos de equacionar a possibilidade de fazer algumas das linhas enterradas. Só temos 20%, porque as tempestades eram muito raras em Portugal. Isto comparado, por exemplo, com Espanha e Itália, que já têm 45%", disse a ministra. 

Mas Maria da Graça Carvalho reconhece também que esse processo tem custos e que "estas linhas são muito mais caras", é "um processo muito mais complexo e é sempre necessário fazer o balanço porque ou é pago pelo consumidor ou pelo contribuinte" e avisa que é necessário o recurso a fundos europeus. "Portugal está atento ao pacote europeu das redes, o Grid Package, e que é, neste momento, um ponto importante de discussão a nível do Conselho Europeu e do Parlamento Europeu. E gostaríamos de ver claramente o investimento nesta resiliência das redes, tendo muito em atenção os países periféricos, como é o caso de Portugal, e países que são praticamente uma ilha", sublinhou. 

Especialistas ouvidos pela CNN Portugal concordam com a ministra Maria da Graça Carvalho: enterrar redes elétricas e de telecomunicação é um processo mais resiliente, mas "muito mais caro" e é preciso pesar os prós e os contras. Duarte Caldeira, investigador na área da Proteção Civil, diz não “ter dúvidas” de que, se se tivessem “verificado algumas circunstâncias a montante”, muitos dos efeitos ao nível da energia e das telecomunicações provocados pela depressão Kristin podiam ter sido “mitigados”.

mDezenas de infraestruturas eletricas ficaram danificadas ou mesmo destruídas com a violência da depressão Kristin. (PAULO CUNHA/LUSA)

O apagão da eletricidade e das comunicações

Jorge Liça, vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, especialista em estruturas energéticas, explica que, "quando se faz o projeto das linhas elétricas, são seguidos critérios de projeto que estão comumente aceites - até nas boas práticas internacionais - em função do tipo de território em que estamos". "Em Portugal, os critérios são estabelecidos tendo em conta determinadas velocidades de vento. O que se tem assistido é a ventos muito superiores. (...) Se este tipo de fenómenos se tornar mais repetitivo, tem de se rever esses critérios. Claro que os custos de construção são mais caros e vai encarecer o produto final", diz.

Indo ao encontro das declarações da ministra, esta segunda-feira, o especialista acrescenta que opção de enterrar a rede elétrica já é aplicada numa grande extensão do território urbano nacional. Mas, nas zonas rurais, a opção ainda não é prioritária. "Depende da dimensão do cumprimento das linhas. É uma solução muito mais cara. A solução de ter linhas aéreas é uma solução de compromisso que cumpra a segurança e não seja excessivamente caro", explica. 

Duarte Caldeira sublinhou, no início da conversa com a CNN Portugal, que “a energia é a rede de todas as redes”. “A energia potencia a distribuição de água, as telecomunicações, os transportes… É natural que a queda de infraestruturas de energia provoque, além da perda de energia, outros danos adjacentes. E as quedas de postes de eletricidade, as avarias em subestações são intervenções complexas, que exigem algum tempo para a reposição da normalidade”, salienta.

Jorge Liça não podia estar mais de acordo e acrescenta: "Falamos também de disponibilidade de recursos humanos e materiais. Os técnicos que vão fazer estas reparações têm de ter as competências necessárias. Não pode ser um qualquer. Estes recursos humanos não são infinitos". Além disso, frisa, numa altura de crise como a que se está a atravessar, há sempre falta de equipamentos auxiliares, como gruas e outras máquinas, que "são necessárias em quantidades muito elevadas". Depois há também a exigência de uma grande quantidade de peças para reparar todas as avarias registadas. 

Luís Correia, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e especialista em telecomunicações, sublinha também o impacto da falta de energia na distribuição de telecomunicação: “As antenas de telecomunicações, mesmo que não tenham sido danificadas, têm energia para aguentarem seis a oito horas sem ligação à rede. Quando acabam, as baterias têm de ser carregadas. Se a energia não voltar, entretanto, é inevitável a perda de comunicações”.

O especialista garante que “a maioria das ligações entre as torres e as centrais de telecomunicações, hoje em dia, são feitas por ligação em fibra ótica enterrada” e isso elimina riscos de efeitos provocados pelos “fogos ou por árvores caídas”. “Mas isto que está a acontecer nunca é completamente evitável. A natureza tem uma força muito grande e não é possível reduzir a zero os efeitos de um fenómeno como este sobre as infraestruturas”, diz.

“Para falarmos ao telemóvel precisamos de torres e antenas”, acrescenta Luis Correia. “Se essas infraestruturas caírem ou ficarem danificadas, não há alternativa. Para falarmos ao telemóvel, não há maneira de substituir as antenas de telecomunicações”, sublinha.

"Geradores não são um luxo"

Muita chuva e ventos que atingiram velocidades de mais de 170 quilómetros derrubaram postes de alta e muito alta tensão. Muitos outros ficaram danificados. Perto de 800 quilómetros de linhas de alta tensão ficaram inoperacionais, deixando quase um milhão de pessoas sem eletricidade. Postes e antenas de telecomunicações foram também derrubados. Mais de 300 mil clientes dos principais fornecedores de serviços de comunicações ficaram incontactáveis. A região centro foi a mais afetada, sobretudo os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém, Castelo Branco e Setúbal. Os efeitos da depressão Kristin eram “inevitáveis”, dizem os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, mas podiam ter sido “mitigados” se o investimento na preparação e o “robustecimento” das infraestruturas tivesse sido feito.  

“Isto nunca é completamente evitável. A natureza tem uma força muito grande e não é possível prever os efeitos de fenómenos desta natureza”, constata Luís Correia. 

Os efeitos da falta de energia e de comunicações no socorro às vítimas e na restauração da normalidade são, também eles, inevitáveis”. “Quando estes fenómenos acontecem, exercem uma enorme pressão sobre o socorro, sobre os bombeiros, sobre a Proteção Civil, que estão também sem comunicações”, diz Duarte Caldeira.

O especialista em Proteção Civil lamenta que ainda haja infraestruturas críticas sem acesso a geradores. “Percebemos, sempre que acontecem estas situações, que há infraestruturas críticas que não estão dotadas de geradores. Quando falo de infraestruturas críticas, falo de hospitais, esquadras de polícia, INEM, centros de comunicações… Os geradores são um equipamento absolutamente indispensável. Não são luxos. São investimentos fundamentais para as instituições continuarem a funcionar”, sublinha.

“A Reserva Estratégica da Proteção Civil foi criada há cerca de quatro anos. Desde então essa reserva logística nacional não teve evolução. E não é só a questão dos geradores, mas também de outros bens fundamentais em tempos de crise, que temos de ter em reserva armazenados, para depois distribuir pelas respostas de emergência”, acrescenta.

Também Luís Correia defende que, perante a inevitabilidade dos efeitos como a depressão Kristin esta semana ou a Leslie, em 2018, é imprescindível, também no que diz respeito às comunicações, “pensar em mecanismos mais rápidos e eficazes, que permitam que a resposta das equipas de socorro seja mais célere e eficiente”.  

Duarte Caldeira defende que o cumprimento da legislação na construção das edificações poderia "mitigar" os efeitos das catástrofes. (PAULO NOVAIS/LUSA)

Maria da Graça Carvalho considerou, esta segunda-feira, que é preciso apostar também no armezenamento da energia: "Estamos a trabalhar no Plano Nacional de Armazenamento, tanto de hidroelétrico como de baterias, sobretudo aproveitando também o potencial hidroelétrico das muitas barragens que temos". "Precisamos de dar maior resiliência às nossas infraestruturas críticas, o que já estamos a fazer, e de dar autonomia aos nossos consumidores, sobretudo os que se encontram em zonas mais remotas, através de soluções como o mini fotovoltaico, que já anunciei publicamente no Parlamento, e que será financiado, de parte, pelo Fundo Ambiental, mas estamos a negociar com a Comissão Europeia, ainda financiado com o PRR, que ainda temos até agosto", acrescentou.

Telefones por satélite

Sistemas de telecomunicações por satélite, como o Starlink, são soluções viáveis de backup em termos de comunicações, não para a população em geral, mas para as entidades responsáveis pelo socorro e pela reposição da normalidade. “Os telefones via satélite são diferentes dos que temos no bolso, maiores, muito mais caros. Não é viável os cidadãos comuns terem esses telefones”, começa por explicar, acrescentando que esses aparelhos “não precisam de torres ou postes de telecomunicações”, mas, mesmo que fosse possível usar os telemóveis comuns, estaríamos sempre dependentes da energia elétrica para os carregar.

“Tanto quanto eu sei, as forças de segurança e de emergência em Portugal não têm acesso a este tipo de telefones. Mas também não vale de nada ter dois ou três ou telefones destes. Seria importante todas as infraestruturas críticas terem acesso a um conjunto de telefones via satélite, que estivessem armazenados e, em caso de catástrofe, pudessem ser distribuídos pelas infraestruturas críticas”, acrescenta.

O impacto da falta de comunicações no socorro é “relativamente elevado”, diz ainda o especialista, “porque, para socorrer as populações e restabelecer a normalidade, limpeza de estradas, verificação das linhas férreas… as comunicações são fundamentais”.  

“Antes de pensarmos em cada um de nós cidadãos, há que pensar restabelecer as comunicações para estas pessoas das infraestruturas críticas”, remata.

"Legislar com base no 'achismo'"

Muita chuva e ventos que atingiram velocidades de mais de 170 quilómetros derrubaram postes de alta e muito alta tensão. Muitos outros ficaram danificados. Perto de 800 quilómetros de linhas de alta tensão ficaram inoperacionais, deixando quase um milhão de pessoas sem eletricidade. Postes e antenas de telecomunicações foram também derrubados. Mais de 300 mil clientes dos principais fornecedores de serviços de comunicações ficaram incontactáveis. A região centro foi a mais afetada, sobretudo os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém, Castelo Branco e Setúbal. Os efeitos da depressão Kristin eram “inevitáveis”, dizem dois especialistas ouvidos pela CNN Portugal, mas podiam ter sido “mitigados” se o investimento na preparação e o “robustecimento” das infraestruturas tivesse sido feito.  

“Isto nunca é completamente evitável. A natureza tem uma força muito grande e não é possível prever os efeitos de fenómenos desta natureza”, constata Luís Correia, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e especialista em telecomunicações.

A mesma conclusão é tirada por Duarte Caldeira, investigador em Proteção Civil: Estes eventos servem para constatar algumas vulnerabilidades. Danos em “infraestruturas como postos de eletricidade, habitações, infraestruturas públicas e até painéis publicitários ou aquela roda gigante que tombou na Figueira da Foz mostram as fragilidades das suas construções”. “Isto é tudo indiciador de negligência do ponto de vista da segurança aquando da sua instalação”, acrescenta o especialista.

Duarte Caldeira defende que o país pouco aprendeu com tragédias como os incêndios de 2017 ou outros temporais como o de 2018, que deixou grande parte da região Oeste, também agora fustigada pela Kristin, sem energia elétrica e sem comunicações por vários longos dias.

“Esses eventos dão origem a determinados relatórios. Mas de que servem esses relatórios para identificar lições se elas não forem aprendidas? Esses relatórios têm de ter consequências ao nível técnico, ao nível da decisão política. Mas o problema é que, resolvido o problema económico destes eventos, resolvendo os problemas das vítimas, que têm de facto de ser as prioridades, estes eventos e os respetivos relatórios desaparecem do radar dos decisores”, reclama.

O especialista considera ainda que “os decisores parece que têm muito pudor em chamar o conhecimento técnico e científico para a tomada de decisões políticas”. “Enquanto se legislar na base do ‘achismo’, não é possível mitigar estas situações a montante, aquando da instalação e da construção das infraestruturas”, considera.

Especialistas defendem que a sensibilização das populações e a proximidade com as entidades de emergência são fundamentais para a gestão dos riscos. 

"Educação" das populações

Duarte Caldeira e Luís Correia consideram que outro ponto crucial para mitigar os efeitos de grandes catástrofes, ainda antes de elas acontecerem, é a “educação das populações”. Desde logo no que diz respeito às comunicações: o professor do Instituto Superior Técnico diz que a prevenção também pode ser feita em casa de cada um de nós. “Por exemplo, termos em casa powerbanks sempre carregadas, para podermos carregar os nossos telemóveis e não ficarmos incontactáveis. Depois, algo que é difícil, porque, nestes casos, as pessoas querem saber se os seus familiares estão bem, mas é preciso libertar as redes de telecomunicações para que as infraestruturas de emergência possam comunicar entre si”, exemplifica.

O especialista em telecomunicações diz ainda que “precisamos de ter um sistema de SIRESP robusto”. “Mas o SIRESP não é um milagre. Quando temos fenómenos da natureza com esta violência, é quase inevitável que haja falhas”, conclui.

“A formação dos cidadãos para o risco - e estamos a falar desde as crianças do ensino básico ao universitário, aos locais de trabalho, às residências -, é fundamental”, concorda Duarte Caldeira.

“Se conhecermos os riscos e tivermos formação para os mitigarmos, somos mais capazes de contribuir para a nossa segurança e para a segurança dos outros”, acrescenta.

Duarte Caldeira aconselha os cidadãos a “levarem a sério” os avisos e confiarem na Proteção Civil. Garante que os desenvolvimentos tecnológicos e científicos permitem, hoje, ter graus de fiabilidade nas previsões “muito precisos”. Mas a credibilidade dos alertas, avisa, depende muito “da proximidade destas entidades com as populações”. “É muito importante o trabalho local, o trabalho dos municípios, das proteções civis municipais. É um trabalho de consciencialização das autoridades, é um trabalho de consciencialização de todos nós. Todos nós podemos fazer o nosso papel de preparação para o risco”, defende.

O especialista considera que “temos um conceito de Proteção Civil muito centrado na resposta, quando o conceito de Proteção Civil baseado na prevenção”: “Muitas vezes a resposta é o fim da linha. É porque, a montante, muita coisa falhou”.

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