O PSD explodiu com o aplauso a Pedro Nuno, Rangel explodiu "o oásis cor-de-rosa" de Costa

12 abr, 14:05

Apesar dos apelos ao diálogo, as feridas na relação entre o Governo e o PS deixaram fraturas ainda mais expostas após o debate do programa de Governo. O PSD usou palavras assim para reagir a Pedro Nuno Santos: "irresponsável", "hipocrisia", "mentira", "falsidade". Paulo Rangel quis provar como o "alarido com o excedente" esconde um "Estado Social em estado de liquidação". Ventura admitiu eleições "dentro de meses"

Pedro Nuno Santos esperou pelo final da sua intervenção para lançar um trunfo: recuperar cinco promessas eleitorais do PS que quer ver aprovadas - foi um teste à abertura do novo Governo. O PSD reagiu com adjetivação agressiva depois de  ouvir estas cinco propostas:

1. reduzir o IVA da eletricidade para a taxa reduzida "para mais de três milhões de portugueses";

2. excluir os rendimentos dos filhos como condição para acesso ao Complemento Solidário para Idosos (CSI);

3. eliminar as portagens das ex-SCUT, incluindo a A28, A24 ou A22;

4. aumentar a despesa dedutível com arrendamento até atingir os 800 euros;

5. alargar o apoio ao alojamento estudantil hoje pago aos bolseiros à classe média.

A bancada socialista aplaudiu de pé. Houve apupos vindos do Chega quando se falou das portagens. “Não percebo qual a surpresa. Estas propostas estavam no nosso programa. Se concordam, têm bom remédio: vão aprovar a iniciativa do PS", disse Pedro Nuno Santos.

O destinatário deste desafio era também Luís Montenegro, que no último dia de discussão do programa de Governo nunca falou. Pedro Nuno Santos lembrou que deixar passar o programa era sinónimo de “responsabilidade”, não de ser “oposição-muleta nem oposição do bota-abaixo”. “Não vamos ajudar o Governo, mas na realidade o governo também não precisa de nós, tem uma maioria de direita para isso”, afirmou o secretário-geral do PS.

(Lusa)

“Hipocrisia”: a explosão do PSD com Pedro Nuno

A resposta social-democrata veio do líder parlamentar Hugo Soares, que acusou o líder do PS de ser “irresponsável” e de levar a cabo uma “hipocrisia política” com a sua intervenção. "Ouvir o secretário-geral do PS anunciar, por exemplo, a abolição das portagens nas ex-SCUTS e ver os membros desse Governo levantarem-se para aplaudir - quando há um mês não foram capazes de o decidir - é, mais do que irresponsável, uma hipocrisia política, é mentira, é uma falsidade", afirmou.

Apesar de insistir na necessidade de diálogo nesta fase final da discussão, o PSD fez questão de abrir ainda mais as feridas na relação com o PS. Pedro Nuno Santos, disse Hugo Soares, foi “capaz de apresentar um elenco de medidas sem dizer quanto custava”.

E argumentou mesmo que é o próprio PS quem tem medo de olhar para um orçamento retificativo. “Será que há algum português que entenda que é o PS que quer exigir ao novo Governo que emende, que corrija, que retifique um orçamento que era precisamente do PS?”, questionou.

(Lusa)

Rangel liquida o “estado de liquidação” de Costa

O encerramento do debate ficou nas mãos de Paulo Rangel, ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, que falou em nome do Governo para fazer um exercício de desconstrução do legado de António Costa e reforçar os apelos à "responsabilidade da oposição".

É que “a ideia do oásis cor-de-rosa é desmentida a cada dia”, observou, enumerando vários casos: "o imperdoável descontrolo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a ocultação da tabela dos preços da ADSE, a total impreparação do edifício da CGD para sediar o novo Governo (...) e o surpreendente prejuízo de mil milhões no Banco de Portugal". "A lista é grande e aumenta a cada dia", observou.

Além desses casos, prosseguiu, o novo Governo depara-se agora com a "degradação dos serviços públicos", "do SNS às escolas, dos tribunais às forças de segurança". "Para não falar da habitação e do desemprego jovem, da precariedade e do êxodo dos jovens". Em suma, "o Estado Social parece agora em estado de liquidação".

"A herança que o anterior Governo nos deixou, apesar do alarido com o excedente, é uma herança pesada", sustentou. Mas Paulo Rangel garantiu que o novo Governo está "cheio de ânimo, energia, garra e determinação" para "resolver os problemas concretos da vida dos portugueses".

No início da intervenção, Paulo Rangel aproveitou para clarificar a razão pela qual os partidos não foram avisados previamente de que algumas das suas medidas - 60, ao todo - seriam incluídas no programa do Governo. É que “não era suposto, nem era desejável” saberem, uma vez que o programa debatido nestes últimos dois dias “não resulta da negociação”, mas é sim “a base da negociação” com os partidos. 

“Não devendo o programa do Governo ser negociado, ainda assim quis o primeiro-ministro que se desse um sinal claro de que não se excluíam as oposições”, argumentou, lançando a seguinte questão retórica aos deputados: "Alguém tem memória de um Governo de maioria relativa que tenha feito suas propostas vindas de todos os partidos da oposição?".

(Lusa)

Moções chumbadas a clarificar um “jogo de sombras”

O Governo saiu da sala logo após a votações das moções de rejeição. Foram 138 votos contra na iniciativa comunista, 137 na bloquista, devido ao PAN, que se absteve na segunda. O PS absteve-se em ambas, o Chega votou contra.

Se antes da votação Paulo Raimundo já tinha avisado que não se podia “ficar a meio da ponte”, explicando que deixar passar o programa de Governo era ficar “aprisionado” a ele, depois da votação o PCP insistiu nos recados ao PS. “Deixa claro quem se opõe, quem apoia e quem contemporiza com as opções da política de direita”, afirmou a líder parlamentar Paula Santos. E acrescentou: “Por mais que falem com voz grossa, no momento da verdade lá estão a dar a mão a estas opções”.

Também o Bloco de Esquerda, com Mariana Mortágua, viu nesta votação uma clarificação perante “o jogo de sombras que se instala no poder”, lembrando ao PS que a moção de confiança que os socialistas pediram, a ser chumbada, “teria o mesmo efeito” que a iniciativa bloquista.

(Lusa)

Ventura admite eleições "dentro de meses"

André Ventura, presidente do Chega, começou pela crítica à governação socialista: “deixaram o país no maior pântano possível no pós-25 de Abril”. De seguida fez um apelo a Montenegro para um orçamento retificativo.

"Agora assume poder governar com este orçamento. O mesmo orçamento que PSD, Chega e Iniciativa Liberal votaram contra", disse. E lembrou depois como Luís Montenegro classificou o último orçamento do PS: "Um orçamento pipi e betinho, um orçamento de impostos máximos e serviços mínimos".

(Lusa)

André Ventura admite eleições "daqui a uns meses": "Passámos de 1 deputado para 12, de 12 para 50, daqui a uns meses somos 117". E depois corrigiu para: "Ou daqui a uns anos". Mas os "meses" ficaram ditos.
 

Diálogo e Euromihões

Tal como na quinta-feira, o debate foi marcado por muitas críticas à falta de diálogo do Governo, bem como a várias medidas concretas, sobretudo no campo da habitação.

Foi por aí que avançou Inês de Sousa Real, defendendo que o combate à pobreza “tem de ser efetivamente um compromisso”, lamentando a falta de propostas para os sem-abrigo.

Já a líder parlamentar do Livre, Isabel Mendes Lopes, acusou o Governo de não ter informado os partidos sobre as medidas da oposição que iria incluir no programa de Governo."Não basta dizer que se quer dialogar com a oposição. É preciso falar. Colocar medidas de outros partidos nos programas de governo não é dialogar”, defendeu.

Do Bloco de Esquerda, o líder parlamentar Fabian Figueiredo voltou a centrar a crítica na descida do IRS para as grandes empresas. "O programa do Governo é a chave do Euromilhões para as grandes empresas que sempre viveram na dependência do Estado", comparou.

À direita, a Iniciativa Liberal renovou as críticas de falta de “ambição” do Governo para avançar com mudanças profundas. Mariana Leitão, líder parlamentar, insistiu que “o problema do país não são os ricos” mas antes a “perseguição ao lucro” perpetuada pela esquerda. "O problema do país não está nos lucros das empresas, está nos prejuízos."

O líder da bancada parlamentar do CDS-PP, Paulo Núncio, aproveitou a palavra no púlpito da Assembleia da República para enaltecer o regresso do partido ao Parlamento e a "coragem e determinação" que o Governo de Montenegro tem vindo a mostrar.

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