ONU alerta para “devastação” alimentar global provocada pela invasão da Ucrânia

30 mar, 04:04
Agricultores num campo de trigo no oeste da Ucrânia (AP Photo/Nariman El-Mofty)

Há milhões de pessoas em todo o mundo cuja alimentação pode estar em causa devido à guerra de Putin na Ucrânia, avisou o diretor do Programa Alimentar Mundial. Pode ser o pior cenário de fome global desde a II Guerra Mundial

A invasão russa da Ucrânia terá consequências “devastadoras” no acesso de milhões de pessoas em todo o mundo a alimentos básicos. O cenário de escassez de alimentos - sobretudo cereais, como trigo e cevada, de que russos e ucranianos são os maiores exportadores mundiais - ameaça “devastar” os esforços do Programa Alimentar Mundial (PAM) para alimentar cerca de 125 milhões de pessoas a nível global. O aviso foi deixado esta terça-feira à noite pelo diretor-executivo do programa alimentar da ONU, perante os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"[A guerra] não está apenas a dizimar dinamicamente a Ucrânia e a região, mas terá um impacto global para além de tudo o que vimos desde a Segunda Guerra Mundial", alertou David Beasley.

A primeira razão para esta perturbação global é o facto de inúmeros agricultores ucranianos estarem agora a lutar contra os invasores russos, em vez de se continuarem a concentrar na produção agrícola. "Os agricultores estão na linha da frente", e a Ucrânia, diz Beasley, passou de "cesto do pão do mundo para linhas de pão". “Isto é algo que nunca pensámos ver.”

Segundo Beasley, citado pela Reuters, 50% dos cereais comprados pelo PAM, o ramo de assistência alimentar das Nações Unidas, vêm da Ucrânia, "por isso só se pode assumir a devastação que isto vai ter apenas nas nossas operações".

Para além de muitos agricultores terem pegado em armas, a crise é agravada pela falta de produtos fertilizantes vindos da Bielorrússia e da Rússia. "Se não colocarmos fertilizantes nas culturas, o nosso rendimento diminuirá pelo menos 50%.”

“Tirar a crianças famintas para dar a crianças famintas”

Mesmo antes da invasão russa à Ucrânia, o PAM já se estava a debater com o aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, bem como dos custos de transporte. Por essa razão, explicou Beasley, o PAM já estava a “começar a cortar rações para milhões de crianças” por todo o mundo, em países como Iémen - onde as razões caíram para 50% e agora estão quase no zero -, mas também Níger, Mali e Chade, entre outros. 

A guerra no Leste da Europa agravou todos os problemas que já existiam - subindo ainda mais os preços dos combustíveis, dos transportes e dos alimentos - e acrescentou a ameaça à produção no que era o “celeiro do mundo”. 

“Estamos a olhar para o que poderá ser uma catástrofe em cima de outra catástrofe nos próximos meses", salientou o diretor do PAM.

Se o conflito na Ucrânia não terminar, disse Beasley, "o mundo pagará um preço muito elevado, e a última coisa que queremos fazer, enquanto Programa Mundial Alimentar, é tirar comida a crianças famintas para a dar a crianças famintas".

Rússia culpa Ocidente

Confrontado com este cenário provocado pela guerra de Putin na Ucrânia, o embaixador da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, rejeitou as acusações de que a invasão do Kremlin à Ucrânia tenha causado a "grave turbulência" no mercado global de alimentos. A culpa, disse o representante permanente de Moscovo, é das sanções ocidentais contra a Rússia.

Em resposta, a secretária de Estado-adjunta dos EUA, Wendy Sherman, assegurou ao Conselho de Segurança que as sanções não estão a alimentar a crise alimentar global. E devolveu a acusação do embaixador russo: "A responsabilidade pela guerra na Ucrânia - e pelos efeitos da guerra na segurança alimentar global - recai exclusivamente sobre o Presidente Putin.”

Para além do impacto sobre a ajuda global desenvolvida pelo Programa Alimentar Mundial, a guerra está a fazer disparar os preços dos cereais e a perturbar os fornecimentos em todo o mundo. A Ucrânia decidiu travar algumas das suas principais exportação cerealíferas, o que está a ter impacto em países fortemente dependentes da produção ucraniana, como são os casos da Indonésia, Egito, Iémen ou Líbano. Para além de enfrentarem a escassez de cereais, estes países temem que esse facto provoque agitação social e política.

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