São a prova, dizem as próprias, de que os jovens querem ser professores e até estão dispostos aos "sacrifícios" que a profissão impõe. Mas, confessam à CNN Portugal, não sabem "até que ponto" e vivem "um dia de cada vez". Nas listas de colocados, há 2651 professores que estão a dar aulas pela primeira vez. Nem todos são tão jovens como Helena e Rita e não chegam para colmatar o número de professores que deixaram a profissão por motivos de reforma
Helena Pires tem 23 anos, sempre quis ser professora e sempre viu nos professores que apanhou ao longo do percurso académico verdadeiras “referências” e autênticos “modelos”.
“Eu queria ser professora. De Matemática, de Português, de Educação Física… não sabia bem de quê, mas sabia que queria ser professora. Os meus pais separaram-se muito cedo e eu acabava por passar muito tempo na escola. Os meus modelos e as minhas referências são sobretudo os meus professores”, conta Helena à CNN Portugal.
Terminou no ano letivo passado, na Universidade do Porto, o mestrado em ensino que lhe deu a profissionalização. E concorreu este ano pela primeira vez. “Concorri ao país todo, já sabia que a Norte não dava… as colocações funcionam por graduações e acabei de me profissionalizar.”
“No meu mestrado éramos 20 e qualquer coisa. No meu grupo de amigos, eu fui a única que concorri para o país todo. Os outros concorreram só para perto de casa. Claro que não ficaram colocados”, acrescenta.
O grupo de recrutamento para o qual foi contratada (520 – Biologia e Geologia) é um dos que tem maior carência de docentes, mas o fator região continua a fazer efeito e é a Sul que há mais falta de professores. Helena ficou colocada em Loures. Vem de Viana do Castelo, onde ficaram “os pais, os animais, os amigos e sobretudo os avós, que já têm 80 e tal anos”. “Foram eles que praticamente me criaram”, sublinha.
Todas as sextas-feiras, desde o início de setembro, apanha um autocarro até Lisboa, onde apanha um comboio que a leva de volta até Viana. Regressa no domingo à noite, sem “um bocadinho do coração”. No total, são sete horas de uma viagem “física e emocionalmente desgastante”. Um “sacrifício” que Helena encara como necessário. A motivá-la tem a possibilidade de, acumulando tempo de serviço, poder aproximar-se de casa.
“Estou a 400 quilómetros de casa, não tenho amigos, não tenho família, não tenho nada em Loures. Demoro sete horas a chegar a casa. Na sexta-feira, a minha mãe foi buscar-me ao comboio e eu disse-lhe ‘duas semanas já estão’… é mesmo viver um dia de cada vez”, resume.
Vincular "numa escola qualquer"
A Helena doem as mudanças e, confessa, que não se vê a mudar de poiso a cada ano letivo. “Tento não pensar muito nisso. Mas acho que não vou ser capaz de aguentar isso muito tempo. Já ter ido para o Porto, fazer lá amigos e depois regressar a Viana… tenho a sensação de que deixei lá um bocado de mim.” Por isso, “para o ano, vou tentar vincular numa escola qualquer, para depois, através da mobilidade, tentar aproximar-me de casa”.
“Eu quero dar aulas. Idealmente fá-lo-ia perto de casa. Saía das aulas e ia ter com a minha família. Agora saio das aulas e vou para um quarto sozinha. Não tenho aqui ninguém. Mas sei que vai ser por pouco tempo, espero que seja por pouco tempo”, diz.
E arranjar esse quarto não foi pera doce. Helena conta que viu “muita coisa”. “Condições que ainda hoje acho impensáveis, quartos onde os senhorios achavam que podiam entrar quando queriam, a valores absurdos. Quinhentos e tal euros, 450 euros sem despesas, e tudo sem contrato e sem recibo”, relata.
“Mas ainda há senhorios decentes e eu encontrei uma dessas. Também é professora. Estou numa casa toda remodelada, com quatro quartos. Mas para termos quatro quartos, não temos sala, não temos zonas de convívio. A cozinha é pequenina, dá para irmos conversando. Está uma colega de Matemática, que é de Famalicão, um colega de Educação Especial, que também é do Norte, e outra colega que não é professora. Portanto, é mesmo sair da escola e enfiar-me no meu quarto”, conta. “Já estou numa situação que não é fácil. É um desafio. Se puder estar numa casa onde me dou bem com as pessoas…”
Seis turmas com 27 alunos cada
Entre viagens e o valor da renda, grande parte do salário de Helena fica pelo caminho. “A maior parte dos jovens começam a trabalhar e ficam em casa dos pais. Se o objetivo for enriquecer, não é esta a profissão”, lamenta.
Helena já tem as aulas da semana preparadas, “não ao milímetro”, porque sabe que “cada turma é uma turma, cada aluno é um aluno e tem de haver espaço para adaptaçã”, mas já preparou a primeira semana e vai ver “como corre”.
“Espero ser bem recebida pelos alunos. Eles vão olhar para mim e perceber que não sou muito mais velha do que eles. Quando estagiei, tinha um pouco de receio que não me respeitassem, mas confesso que agora já não tenho tanto esse receio. Não vou querer que os alunos tenham medo de mim, mas quero construir uma situação saudável, em que eles me respeitem”, antecipa.
Helena vai ter seis turmas, com 27 alunos em média cada uma. Ficou ainda responsável pelo Clube de Ciências e pelo projeto de Educação para a Saúde. O volume de trabalho não a assusta. “Acredito que a escola pública é o verdadeiro elevador social. Por isso, não quero ter alunos que não queiram estar ali. O meu objetivo é conquistá-los, fazê-los querer estar ali e aprender”, reforça.
"Vou estar um bocadinho nervosa"
Rita Gardete tem 24 anos e o ensino a correr-lhe nas veias. A mãe é professora de Matemática e Ciências. Sempre quis seguir-lhe os passos e sempre encontrou quem a tentasse demover. “Sempre quis ser professora. Desde que me lembro. Foi uma ideia que fui deixando um pouco de lado, porque todos me diziam ‘não vás’. A minha mãe é professora do 3.º ciclo e nunca me incentivou. Mas foi mais forte e cá estou eu”, conta à CNN Portugal.
A luta dos professores ao longo dos últimos anos serviu de incentivo. Rita viu na classe uma união que a mãe nunca tinha visto e viu o “Estado finalmente perceber que não tinha professores e começar a melhorar as condições da profissão”. Mas a verdadeira responsável por amanhã, pela primeira vez, estar sozinha diante de uma turma de quase 30 alunos do quinto ano também se chama Rita. “Foi a minha professora do 1.º ciclo. Sempre quis ser como ela. Tínhamos umas aulas um bocadinho diferentes, fazíamos teatros, dançávamos… Eu sempre quis, aliás, ser professora do 1.º ciclo, mas, num dos estágios, acabei por mudar de ideias e ir para o 2.º ciclo”, revela.
Ao contrário de Helena, Rita foi seletiva nas escolas que escolheu, quando se candidatou na primeira reserva de recrutamento. “Honestamente, acreditei que ia conseguir ficar perto de casa. O mais longe que pus foi Alcobaça. Não me imagino a ir para o Norte ou para o Algarve. Não sei se conseguiria… e tento não pensar muito à frente, se me vai acontecer no próximo ano ou não”, confessa.
Ao contrário de Helena, Rita vê a mãe todos os dias no trabalho e todos os dias regressa à casa de família. “Se não ficasse colocada perto de casa, não sei se ia. Acho que ficava por cá, mesmo que fosse a fazer outra coisa”, assume.
Na primeira reserva de recrutamento, Rita ficou colocada em Lisboa, na Escola Básica Marquesa de Alorna. Nas ofertas de escola, durante o período de experiência, resolveu concorrer para mais perto de casa. Vive na Aroeira e ficou colocada na Costa da Caparica, onde a mãe já dava aulas.
"Não quero ser só a professora de Matemática"
Rita sente-se preparada para enfrentar o primeiro dia de aulas, mas não deixa de sentir o “friozinho na barriga”. “O que mais me assusta é: ‘será que vou criar uma relação de empatia com os alunos?’. Gostava de sentir que eles me receberam bem… Não quero ser só a professora de Matemática. Quero ser uma pessoa em que eles vejam confiança para que, se precisarem de alguma coisa, me respeitem ao ponto de recorrerem a mim”, deseja.
E o facto de ser muito jovem é um fator que contribui para o nervosismo: “Se calhar eles têm primos ou irmãos da minha idade, podem pensar que, às tantas, não precisam de me respeitar. Mas com a postura certa, acho que vou conseguir ter o respeito deles.”
Já preparou as duas primeiras semanas de aulas e, mesmo sabendo que pode ser tudo alterado, isso dá-lhe uma certa confiança. Sabe que tem de responder ao ritmo de cada turma e mesmo de cada aluno. Tem várias crianças com necessidades educativas especiais nas turmas em que vai lecionar. “Sei que vou ter um menino no 5.º com quem vou ter de trabalhar conteúdos do 3.º, porque sei que ele não vai além disso. O conteúdo, para ele, vai ter de ser todo adaptado”, exemplifica.
E é neste ponto que Rita deixa críticas à formação que recebem na faculdade. “É cada vez mais recorrente aparecerem meninos com necessidades educativas especiais e, apesar de termos algumas cadeiras sobre isso, devíamos ser melhor preparados.”
Também a indisciplina é pouco abordada, considera Rita, na formação de professores. “Os professores que estão há mais tempo na profissão assustam um pouco os novos. Dizem que os miúdos estão piores ao longo dos anos e que, às vezes, os pais até são piores do que os filhos. No agrupamento onde vou estar, sei que vou ser apoiada pelos colegas. Mas os cursos de ensino pecam em não tratar isso com os futuros professores. Se nas escolas se tem verificado cada vez mais indisciplina, nas faculdades que formam professores deviam abordar estratégias para lidar com esses alunos”, critica.
Helena e Rita são duas dos 2651 docentes que aparecem nas listas de colocados até agora com zero dias de serviço, ou seja, que vão dar aulas pela primeira vez. Nem todos são tão jovens como elas.
De acordo com as contas do professor Davide Martins, da plataforma @prof.on.pt, que esteve a analisar as listas de colocados, a média de idades destes novos professores ronda os 33,8 anos. Há grupos disciplinares onde a média de idades dos professores que entram no ensino pela primeira vez ronda os 50 anos, o que parece retirar a esperança de mudar o paradigma do corpo docente envelhecido em Portugal.
As histórias de Helena e Rita mostram que há jovens que querem ser professores, assim lhes sejam dadas as condições de trabalho e de formação. Mas o universo dos 2651 novos professores é insuficiente para colmatar os cerca de 4 mil que no ano passado deixaram a profissão por motivos de reforma.