O ministro da Educação enviou, na segunda-feira, um email aos professores, a desejar um bom arranque de ano letivo e a prometer uma maior valorização da profissão docente. Os professores respondem agora com promessas de colaboração e com reivindicações antigas
Os professores respondem, esta quarta-feira, ao email que o ministro lhes enviou no início desta semana, com promessas de colaboração e com reivindicações antigas. Numa missiva a que a CNN Portugal teve acesso e enviada para o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) esta quarta-feira, o movimento cívico de docentes Missão Escola Pública (MEP) reconhece que “há este ano nas escolas em que lecionamos um clima de menor tristeza”, mas sublinham que se trata de “um pico que não chega a ser alegria porque há ainda muitas farpas espetadas no coração da Escola Pública”.
Os professores dizem que a recuperação do tempo de serviço dos docentes é um passo em frente, que “sucessivos governos se recusaram a devolver”, mas um passo insuficiente. “Queremos que saiba que o seu gesto veio dar algum alento e esperança a uma classe maltratada e socialmente menorizada; somos-lhe reconhecidos por isso, mas queremos que saiba também que, por si só, esse gesto não é suficiente para acalmar a febre de justiça que assola as nossas escolas e não permite que a serenidade se instale e a confiança em si esteja completamente conquistada”, pode ler-se no email enviado pelo MEP ao ministério.
Reivindicações antigas
Os docentes alertam para a falta de professores e para a diminuição dos conhecimentos dos alunos. O problema da falta de professores, dizem, poderá ser amenizado com a resolução de reivindicações antigas, como “um justo salário compatível com o nível de responsabilidade e papel que desempenham na formação das novas gerações”, uma progressão na carreira “fluida, sem ‘garrotes’ de nenhuma espécie”, uma redução na carga burocrática do trabalho docente, alterações ao Estatuto do Aluno, para reduzir a indisciplina, bem como uma alteração do Regime de Autonomia, Administração e Gestão Escolar, “passando para um modelo de gestão colegial, cujo eleição é determinada pelos seus pares e reduzindo o atual poder dos diretores”.
“A recuperação do tempo de serviço foi apenas a primeira das medidas que julgámos necessárias para reaver da sociedade o reconhecimento merecido. A partir daqui, sabemos que há um enorme caminho a percorrer, numa Luta que sendo dos professores é sobretudo a da defesa dos interesses dos nossos alunos, semente das futuras gerações”, resume o movimento.
“É porque queremos acreditar em si. A mais nenhum falámos assim. Não junte a tudo o que somos mais uma deceção. Porque os rios, quando muito comprimidos, arrastam tudo à passagem, já dizia Brecht, numa tradução muito livre. Nós acrescentamos: nunca se esqueça de que os professores conhecem o caminho que os leva da Escola às ruas da Revolta. (…) Gostaríamos de lembrá-lo ainda que nós somos parte da solução para os problemas que decidiu assumir como seus, (…) vista a pele de um verdadeiro professor: seja corajoso, seja audaz, seja guerreiro, (…) e não caia no dislate de uma anterior ministra. Depois deste caminho iniciado… Não Perca os Professores!”, acrescenta.
“Profissão desgastada” e “classe envelhecida e maltratada”
Também outro movimento de docentes, o SOS Escola Pública, resolveu escrever ao ministro a agradecer o email, sublinhando que “há muito que tutela nenhuma o fazia - se é que algum dia o fez, não nos lembramos e até acreditamos que não”. O movimento fala, contudo, de “uma profissão desgastada por uma classe envelhecida e maltratada – ‘velhos’ que ainda não se aposentaram após anos de insultos, para logo em seguida lhes ser oferecido um ‘tempo de reflexão’ para regressar à sala de aula, onde tantas vezes têm sido desrespeitados ou então ‘velhos’ a quem se pede que se mantenham na escola para colmatar a falta de professores, quando não tiveram direito à recuperação de um digno dia do seu trabalho quando viram o seu tempo de serviço congelado”.
“A mudança faz parte da vida dos professores, pois faz: os que mudam do Porto para o Algarve; os que mudarão para escolas TEIP ou com características específicas, enquanto veem a comunicação social manchar o seu bom-nome com declarações da responsabilidade do governo, tais como ‘Governo aumenta para 450 euros o valor máximo do subsídio para professores deslocados’, entre outros”, pode ler-se na missiva enviada à CNN Portugal.
O SOS Escola Pública diz querer “fazer parte da solução e não do problema”. “Se outrora, muitos nos viraram as costas, não quereríamos agora ver alguém que diz preocupar-se realmente connosco fingir que o faz”, dizem, finalizando que “tentar enganar esta classe profissional é um erro crasso e as consequências poderão ser devastadoras para qualquer uma das partes”.
“Os seus alunos contam consigo. Eu conto consigo”
O ministro da Educação, Ciência e Inovação escreveu aos professores em vésperas do regresso às aulas para desejar um “excelente ano letivo” com a promessa de valorização da carreira docente. “As aulas estão quase a começar. Os seus alunos contam consigo. Eu conto consigo. E peço-lhe que conte também com a minha equipa para, através da ação do nosso Ministério, contribuirmos para uma educação de qualidade para todos”, escreveu.
Na carta, que começou a ser enviada ao final da tarde de segunda-feira para todos os professores, o ministro da Educação sublinha a desvalorização da profissão “ao longo das últimas décadas”, mas promete uma revisão do Estatuto da Carreira Docente.
Na carta, Fernando Alexandre reconhece ainda os desafios associados ao início do ano letivo e pede motivação aos milhares de docentes que, a partir de quinta-feira, começam a regressar às aulas.
As aulas começam entre os dias 12 e 16 de setembro num novo ano letivo que o ministro da Educação já admitiu que vai arrancar com “milhares de alunos sem aulas”.
O Governo aprovou, para este ano, um conjunto de medidas para tentar responder à falta de professores nas escolas, que passam pela possibilidade de contratar professores aposentados com uma remuneração extra ou de bolseiros de doutoramento.
Além do plano “+ Aulas + Sucesso”, o Governo vai criar um apoio a professores deslocados colocados em escolas para onde é difícil contratar docentes e vai realizar, ainda durante o 1.º período, um novo concurso de vinculação extraordinária para as escolas mais carenciadas.
