Com "duas casas" e "com a casa às costas", a vida de um professor deslocado: "É trabalhar para viver"

4 nov, 07:00
Professores

Andam com a casa às costas. Alguns, dezenas de anos. São colocados a dar aulas a centenas de quilómetros de casa, deixando para trás toda uma vida. Deixam filhos pequenos para ensinar os filhos dos outros e, confessam, contam o salário ao cêntimo. As dificuldades que centenas de professores atravessam todos os anos são agora agravadas com a dificuldade em encontrar casa a um preço que possam pagar

Susana estava habituada à pacatez da serra quando, aos 49 anos, se viu obrigada a deixar a família e ir dar aulas a adultos na Baixa da Banheira, no ensino noturno. Ainda se lembra do primeiro dia como se fosse hoje. Estacionou o carro à porta da escola, um estabelecimento TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária), e ainda anestesiada pela mudança e pelas despedidas, olhou para o prédio ao lado e viu pintado na parede o rosto de um homem a sorrir e com os olhos inundados de esperança. Respirou fundo, virou o telemóvel para si, sorriu e registou o momento. Começava uma nova vida.

Perto de Belmonte, ficaram marido e duas filhas. Nos meses seguintes ainda tentaram levar a vida assim, à distância. Mas o tempo entre setembro e o Natal foi suficiente para a família perceber que não resultava. “Ao fim de três meses, estávamos todos muito, muito tristes e decidimos mudar a família inteira”, conta.

Susana recorda à CNN Portugal o momento em que chegou à nova escola, na Baixa da Banheira, há dois anos. (Arquivo Pessoal)

O marido de Susana arranjou trabalho na margem Sul do Tejo e a filha mais nova foi colocada numa escola na Moita. A filha mais velha entrou na Universidade do Minho e estuda em Braga. Meses depois, o marido, engenheiro, arranjou um trabalho melhor e foi para Sines. A família está agora dividida por três residências durante a semana: o marido paga quarto em Sines, Susana e a filha mais nova vivem num apartamento T2 pelo qual pagam cerca de 600 euros por mês (“é metade do meu salário líquido!”, frisa) e a filha mais velha vive num quarto em Braga. E ainda mantêm as despesas da habitação que já tinham adquirido perto de Belmonte e que ainda estão a pagar ao banco. “Estamos a tentar manter. Costumamos dizer que aqui vivemos numa casota e que uma vez por mês vamos a casa. Gastamos 200 euros para ir a casa. É o nosso luxo”, confessa.

As contas são feitas ao cêntimo, porque “as casas são caríssimas”. A família ainda ponderou comprar casa na Moita, numa tentativa de a prestação ser mais baixa do que a renda. Mas depressa foram confrontados com o facto de estarem a entrar na casa dos 50 e de os “créditos já não serem tão confortáveis”.

Susana não tem dúvidas, por isso, em eleger as dificuldades económicas como os maiores problemas que enfrenta por ser professora deslocada. “No início, pensava que eram a parte profissional: ‘o que estou a fazer nesta escola, depois do percurso que fiz antes?’. Depois de alguns meses, senti-me uma menina mimada e que estava a fazer uma birra… essa parte difícil da profissão, ultrapassei-a com alguma facilidade. Mas a parte financeira não.”

“Tenho esperança de quando efetivar receber mais 100 euros e isso já ajudar a equilibrar as despesas”, remata.

“Eu quero mesmo ser professora”

A vida de Susana Seixas, 50 anos, 25 de serviço, professora de português e com especialização em ensino especial, resume-se em poucos parágrafos, mas tem muitas nuances de sacrifícios pessoais, financeiros e familiares que podem ser tomados por exemplo. O coração de Susana divide-se agora por quatro pontos do país – Belmonte que deixou para trás, Braga onde estuda a filha mais velha, Sines onde está o marido que só vê ao fim-de-semana e Baixa da Banheira onde dá aulas. Sacrifícios que Susana faz porque não quer deixar a profissão: “Eu quero mesmo ser professora”.

Quando o colégio com contrato de associação onde dava aulas fechou as valências em que Susana trabalhava, viu-se sem trabalho e decidiu que não queria continuar assim, nem queria trabalhar em mais nada que não implicasse ensinar. “Eu nem pensava que ia ficar desempregada… pensava que ia deixar de ser professora. Há duas coisas muito importantes para mim, a minha família e a minha profissão”, recorda.

Por isso, não hesitou em fazer-se à estrada, com a casa às costas e ir dar aulas para longe. A esperança sempre foi ser “professora deslocada” durante três anos e vincular. Inicialmente, aproximar-se de Belmonte. Agora, com Ana, a filha mais nova, já enraizada na Moita, já não tem tantas certezas. Sente que a decisão que tomou há dois anos, mudou o rumo da vida da família.

Porque faltam tantos professores e Lisboa, Setúbal e Faro?

Susana é mais um exemplo de quem coloca a vida em pausa ou a muda radicalmente em nome da profissão. Tal como Hélder ou Daniel, que também ouvimos para esta reportagem. Três professores que se vêm a braços com todas as despesas inerentes a “duas casas” e que este ano, mais do que nunca, sentem essa dificuldade na pele… e na conta bancária. Os preços do imobiliário vieram trazer ainda mais problemas.

Daniel Nunes acabou de chegar à profissão. Tem 33 anos e três de serviço. Não sabe o que é dar aulas perto de casa. É de Montemor-o-Velho. O primeiro ano, esteve nos Açores, depois em Lisboa e este ano em Setúbal.

“O ano passado fiz o sacrifício de ficar em Lisboa, para juntar tempo de serviço e o dinheiro com que saí de lá era menos do que quando cheguei. Este ano, coloquei Lisboa como últimos sítios onde poderia estar. É impossível estar em determinadas regiões, como Grande Lisboa e Algarve, porque sabemos, logo à partida, que é difícil arranjar casa e o que há é incomportável pagar”, explica.

Mesmo assim, Daniel está a perceber porque é que Setúbal é também um dos distritos com maior dificuldade de colocação de docentes. Não há ofertas de habitação e as que existem são caras. “Só consegui um quarto.  E vou ter de sair antes do final do ano letivo terminar. Três meses antes, tenho de sair e procurar alojamento para terminar o ano letivo, porque a casa vai ser alugada para férias e turismo. Quando entrei, já foi com essa premissa”, diz.

Daniel Nunes, 33 anos, foi colocado em Setúbal, onde alugou um quarto do qual tem de sair antes do ano letivo acabar. (Arquivo pessoal Daniel Nunes)

João Pereira, da Fenprof (Federação Nacional dos Professores), corrobora a visão do colega. É em Lisboa, Setúbal e Faro que todas as semanas há mais horários disponíveis nas ofertas de escola. É nestes distritos que é mais difícil a colocação de professores. E não tem dúvidas que o custo de vida é a principal razão. “Os professores vão envelhecendo e estão cada vez menos disponíveis para saírem da sua área de residência nestas condições. Um professor contratado recebe sempre pelo escalão mais baixo e nem sempre tem horário completo. Temos docentes que fazem oito ou nove horas. Nem chegam a receber o salário mínimo e pagam 300 ou 400 euros por quarto, em condições muito más. É incomportável”, argumenta o dirigente sindical.

Ainda assim, o problema já começa a ser transversal. Há, numa altura em que o ano letivo já leva dois meses, perto de 40 mil alunos que ainda não têm professor a pelo menos uma disciplina. Os números variam todas as semanas, mas o último balanço feito pela Fenprof esta quinta-feira apontavam para 387 horários por preencher. A maioria nas regiões já referidas, mas não só: “Muitos dos professores sem colocação estão de Coimbra para cima e as vagas mais a Sul.”

“O meu salário esvai-se”

Tal como Daniel, Hélder Brás, 40 anos de vida e 12 de serviço, também rema contra a maré e está num dos distritos que muitos rejeitam. Reconhece que só é possível porque vive na casa que um tio, emigrado no estrangeiro, tem no Algarve. Paga apenas um “valor simbólico”. É professor do 1º ciclo numa escola do município de Lagoa e sabe que, se tivesse de pagar uma renda como as que se praticam no mercado, seria impossível o sacrifício que está a fazer para almejar um dia não ter de percorrer meio país para dar aulas a outras crianças, ficando sem ver os próprios filhos durante semanas.

“Quando soube que fiquei colocado, quando me disseram que tinha ficado no Algarve, pensei ‘olha, o que é que eu posso fazer?’. Concorri na terceira prioridade. Estou aqui na expectativa de completar um ciclo de três anos para depois efetivar pela norma travão e aproximar da minha área de residência”, confessa.

“É trabalhar para viver. Sustentar um lar na Guarda e a minha hospedagem aqui em Portimão, o meu salário esvai-se. Estou a dar 350 euros mensais ao meu tio. A maioria dos meus colegas paga isso por um quarto. A gente nem faz as contas para não sofrer muito com a realidade”, acrescenta.

Ao valor da casa na Guarda de onde é natural e da renda simbólica que paga ao tio, Hélder acrescenta as ajudas ao sustento dos dois filhos de quem está separado por quase 600 quilómetros e mais de cinco horas e meia de viagem. E não quer ficar mais do que 15 dias sem os ver. Por isso procura religiosamente ir de Portimão à Guarda a cada duas semanas. Vão valendo as boleias e as despesas partilhadas.

Hélder Brás faz quinzenalmente quase 600 quilómetros para ver os filhos. (Arquivo pessoal Hélder Brás)

“No horário de verão, temos o avião que faz escala em Cascais e depois em Viseu. E depois alguém me vai lá buscar e leva-me até à Guarda. A viagem custa 135 a 140 euros. Quando chegamos à altura do inverno, alteram o horário, alegando que têm menos procura. Fico dependente das boleias. Se não conseguir dividir a viagem com ninguém, cada viagem fica a 220 euros. Pelas nacionais, poupo as portagens, mas demoro mais de seis horas a chegar a casa e é menos um serão que passo sem eles”, lamenta.

Ainda assim, Hélder faz contas a outras faturas: “A mais pesada é estar longe da família. Não poder acompanhar o meu filho que está no 4º ano ou a mais pequena que está no pré-escolar. Venho para longe acompanhar crianças da mesma idade dos meus e deixo os meus em casa. Não há videochamada que suprima isto.”

Acabar com a “casa às costas”

O ministro da Educação, João Costa, esteve esta quarta-feira no Parlamento, a discutir o Orçamento do Estado para a Educação. Do lado de fora, professores em protesto reclamavam, entre outras medidas, a alteração do modelo de recrutamento e recolocação. Depois do debate parlamentar, em entrevista à RTP3, o ministro mostrava-se solidário com os docentes e reconheceu que a profissão "tem sido muito marcada por um 'casa às costas'", com regiões de colocação de professores com grandes distâncias entre si. E prometeu melhorias: "Vamos apresentar uma proposta de redimensionamento e reorganização destes mapas" de forma a "permitir uma melhor gestão de recursos humanos nas escolas".

O Governo estará a preparar a criação de residências para professores deslocados. De acordo com o “Jornal de Notícias”, já há camas asseguradas nas zonas com mais falta de professores.

João Pereira, da Fenprof, lembra que é preciso muito mais do que isso. E sobretudo muito mais do que que vontade. E defende medidas concretas como “ajudas de custos, horários completos, professores contratados a receberem consoante o ano de serviço”. E concretiza: “se em vez de um horário de 15 horas, for oferecido um horário completo de 22, ainda que as outras sete sejam de componente não letiva, a oferta já se torna mais apetecível e não haverá tantos horários sem professor colocado”.

“Se o Governo usasse 1% do orçamento disponível para a Educação para estas medidas seria o suficiente para resolver os problemas da colocação de professores”, assegura o dirigente sindical.

Daniel, professor de História do 5º ao 9º ano, agradecia. Para ele o ensino é “quase uma militância”. “Vejo o ensino como um dos vetores principais de uma sociedade. A escola pública é o principal instrumento de combate à desigualdade. Tenho esta utopia de que a coisa se altere, mas sei que vão continuar os salários baixos, a precariedade…”, atira.

A militância, misturada com esperança, é comum a Susana e a Hélder, que ganhou gosto pelo ensino à medida que foi crescendo, mas “já pensei desistir e fazer outra coisa qualquer” e lembra os colegas “que andam há 30 anos a trabalhar para estar longe de casa”.

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