“Zombies” e chefes pouco qualificados limitam produtividade nas empresas portuguesas

ECO - Parceiro CNN Portugal , Diogo Ferreira Nunes
15 abr, 17:00
Covid-19 no trabalho (AP)

Produtividade do trabalho em Portugal praticamente estagnou na última década, indica uma análise elaborada pelo Centro de Competências da Administração Pública (PlanApp)

“Produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo. A capacidade de um país para melhorar os seus padrões de vida ao longo do tempo depende praticamente, na totalidade, da sua capacidade em melhorar a produtividade por trabalhador”.

A citação do prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, deu o mote para o Centro de Competências da Administração Pública (PlanApp) analisar a produtividade das empresas em Portugal. Um documento que assinala o impacto das empresas zombie na captação de financiamento para as concorrentes mais produtivas, e que destaca ainda o valor acrescentado das empresas com tarefas mais complexas.

Antes disso, o relatório condena a “dinâmica de quase estagnação” observada entre 2010 e 2019 na produtividade em Portugal, e que veio apenas acelerar a tendência de abrandamento verificada desde 1970. Na segunda década deste século, a taxa de crescimento médio anual da produtividade por trabalhador foi de apenas 0,6%. Ao mesmo de nível de Espanha e Alemanha, mas abaixo de países como a Estónia, a Lituânia e a Letónia.

Em 2019, o ano anterior à pandemia, a produtividade do trabalho em Portugal “correspondia a apenas 49% e 56% do registado em França e na Alemanha“, sinaliza o documento. No entanto, os países bálticos “registaram taxas de crescimento da produtividade substancialmente superiores” e “encontram-se hoje muito próximos da produtividade do trabalho” registada em Portugal.

Em euros, entre 1960 e 2000, a produtividade do trabalho em Portugal cresceu de 7,2 mil euros para 34,6 mil euros, a uma taxa de crescimento média anual de 4%. E nas primeiras quase duas décadas deste século, a produtividade “cresceu de 34,6 mil euros para 40,5 mil euros”, a uma média anual de 0,8%.

Observada a produtividade da empresa mediana, Portugal ocupa a 13.ª posição entre os 16 países em análise. No entanto, este diferencial é menor quando se considera apenas as 10% empresas mais produtivas, lê-se na publicação feita esta semana. Neste capítulo, Portugal ascende ao sétimo lugar.

O documento sinaliza ainda que as empresas pertencentes ao setor de outros serviços registaram, em média, níveis de produtividade do trabalho mais elevados entre 2008 e 2017″, aumentando o seu peso na economia e a serem decisivas para o aumento da produtividade nacional no seu todo.

Quais as causas para o abrandamento?

Depois de apresentar os números, o centro de planeamento PlanApp descreve os problemas que existem ao nível do contexto económico e na vida interna das empresas que justificam o menor aumento da produtividade em Portugal.

No que toca ao contexto económico, chama a atenção para as “barreiras à saída” que “favorecem a sobrevivência de empresas zombies que absorvem recursos”. O documento identifica que em setores não transacionáveis, como os serviços e a construção, uma maior presença de empresas zombies “limita o investimento e o emprego, aumenta o hiato de produtividade entre empresas” e sobe ainda “a exigência de produtividade para empresas recém-criadas”.

O relatório nota, por outro lado, que as empresas que consideram os custos de contexto associados ao mercado de trabalho como sendo relevantes para a sua atividade apresentam, em média, níveis de produtividade do trabalho inferiores.

No capítulo da vida interna das empresas, o estudo salienta que o nível de produtividade aumenta “à medida que as empresas evoluem para desenvolver tarefas mais complexas e a proporção destas face às restantes tarefas vai crescendo”. As empresas caracterizadas como “abstratas”, ou seja, responsáveis pelas tarefas mais complexas, destacam-se, “de forma substancial”, nos aumentos dos níveis de produtividade.

As qualificações dos trabalhadores também contribuem, de forma positiva, para o aumento da produtividade. O mesmo acontece com as habilitações das chefias: “as empresas mais produtivas têm, em média, mais cargos de gestão e gestores mais qualificados do que as restantes empresas”.

Por último, o documento publicado pelo Centro de Competências da Administração Pública destaca que os programas de apoio “facilitaram o financiamento de empresas mais produtivas, permitindo-lhes “ultrapassar momentos de maior dificuldade no acesso ao crédito”.

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