Comentadores do “Princípio da Incerteza” analisam discurso do líder do Chega nas comemorações dos 50 anos da Constituição e dividem-se sobre a melhor forma de o enfrentar
O discurso de André Ventura na sessão solene comemorativa dos 50 anos da Constituição, José Pacheco Pereira lançou um desafio direto a André Ventura para um debate público, com regras claras: duração mínima de uma hora e obrigatoriedade de fundamentar todas as afirmações com documentos, factos ou provas concretas.
Pacheco Pereira acusou Ventura de recorrer a “todas as formas de mentira” - desde a falsidade direta à omissão e à sugestão enganosa -, rejeitando a ideia de que o discurso possa passar sem resposta.
“Eu tenho uma regra que é um insulto não se leva para casa, que é uma regra básica e como gosto do meu país e gosto de Portugal, não gosto, evidentemente, das pessoas que são moles. E o insulto aqui é de todas as pessoas que lutaram contra a ditadura antes do 25 de abril. Na intervenção do André Ventura, ele utilizou todas as formas de mentira”, afirmou.
Um dos pontos centrais da crítica incidiu sobre a comparação feita por Ventura entre o número de presos políticos antes e depois da revolução. Pacheco Pereira contestou essa leitura, apresentando dados que apontam para mais de 12 mil presos políticos entre 1945 e 1974, além de milhares detidos nas colónias. Já no período pós-25 de Abril, destacou que uma parte significativa dos detidos eram agentes da PIDE, classificados como membros de uma organização criminosa, bem como elementos ligados a episódios específicos como o 28 de Setembro, o 11 de Março ou organizações como o MRPP.
"As pessoas pensam que só há uma única forma de mentira, que é a mentira propriamente dita. Não. Há muito tempo, até os jesuítas, penso que isso serve como argumento de autoridade, elencaram três tipos de mentiras. A mentira propriamente dita, a omissão da verdade e a sugestão de falsidade. E naquela intervenção estão as três formas, que são todas elas formas de mentira", acrescentou.
O comentador lançou ainda "um repto ao André Ventura" para um debate documentado .
"Organizemos um debate sobre estas coisas com as seguintes características. Duas eu acho fundamentais. Um debate dura pelo menos uma hora e a segunda é que cada afirmação que cada um de nós faça tem que ser documentada. Tem que ser documentada, porque não adianta estar a vir com coisas. Se eu disser que morreu este por causa daquilo, eu documento. Se eu disser que a violência nas colónias tem estas características, eu documento. E a mesma coisa espero que o André Ventura faça. Claro que havia uma outra regra que valorizava, eu termino já, que valorizava no fundo o debate, que era que não houvesse ataques pessoais, mas eu aceitarei essa regra se o André Ventura aceitar igualmente esta regra".
Já Pedro Duarte mostrou concordância com a análise histórica apresentada, mas divergiu na estratégia política. O comentador defendeu que responder diretamente a Ventura pode ser contraproducente, argumentando que o líder do Chega “vive da polémica, da polarização e do confronto”.
"Estes populistas vivem do confronto, vivem da polarização, vivem da controvérsia. Ora, em particular, André Ventura está aparente um dilema nesta fase. É que pela primeira vez, desde que ele é líder do Chega, nós vamos ter, aparentemente, naquilo que é previsível, um período relativamente longo, de três anos, onde não vamos ter eleições. Ele, nos últimos anos, tem vivido muito disso, das polêmicas das campanhas eleitorais, de ser candidato a tudo e mais alguma coisa, porque isso dá-lhe palco, isso dá-lhe espaço para se poder afirmar, normalmente em contraponto com os outros, em rotura com o sistema, digamos assim. Neste três anos, ele não tem essas campanhas, não tem esses momentos de controvérsia natural, digamos assim, como são os fenómenos eleitorais.
Segundo Duarte, num período sem eleições à vista, é expectável que Ventura intensifique a criação de controvérsias para manter protagonismo mediático. Como alternativa, propõe uma estratégia de “diferenciação pela positiva”, focada nos problemas concretos dos cidadãos.
"E, portanto, ele vai inventar polémicas, cotidianamente, e teve este momento dos 50 anos, era um momento que deveria ser um momento de festa para todo o país, e ele estragou a festa deliberadamente, porque ele quis provocar, de facto, um efeito que, com a melhor das boas-vontades, não tenho dúvida, aqueles deputados constituintes, no fundo, acabaram por ajudar, porque aquela cerimónia, de repente, resumiu-se àquele episódio, à aquelas frases um bocadinho descabidas, se calhar, para quem conhece a história, mas que tiveram um efeito pretendido por André Ventura, porque, de facto, ele foi o grande protagonista daquele dia. E eu acho que isto vai acontecer recorrentemente", alertou.
Alexandra Leitão reconheceu o dilema, mas defendeu a necessidade de resposta. Para a comentadora, o discurso de Ventura assenta em três pilares: “mentira, insulto e ataque ao regime democrático”.
"O discurso do André Ventura, nas comemorações dos 50 anos da Constituição, é um discurso que assenta claramente naquelas, em três pontos, que são, no fundo, a matriz da atuação do Chegue. O primeiro ponto é a mentira. Mentira, mentira, mentira. Toda a política do Chega assenta em dizer mentiras nos discursos, nas redes sociais, nos comícios, no que escrevem, num jornal que publicam tudo".
Leitão considerou que não reagir pode permitir a normalização de discursos falsos, sublinhando que o Chega assume uma posição declaradamente contra o regime saído do 25 de Abril e contra a Constituição de 1976.
"Eu confesso que também tenho muita dificuldade em ver passar insultos, mentiras, discursos de ódio, incitamento à violência, revisionismo, mentira, mentira, mentira, acho que é a palavra-chave, sem que ninguém possa repor a verdade, sentir-se ofendido, como se sentiram muitos dos Constituintes, dos Deputados Constituintes, quer dizer, faz parte também de lutar contra, de não deixar que se sedimente um discurso falso, à cabeça falso".
A socialista mostrou também preocupação com o debate em torno de uma eventual revisão constitucional, alertando para o risco de uma “rutura” com a matriz democrática.
"O Chega nem sequer mente ao que vem. Querem acabar com o regime que saiu do 25 de Abril e que está hoje consagrado na nossa Constituição. Querem outro regime e querem outra Constituição. E, portanto, é nestas três linhas que se insere o discurso e quebrando até um consenso que havia relativamente à Constituição de 76. Claro, teve sete revisões constitucionais, todas elas melhoraram o texto constitucional, é evidente que a revisão constitucional de 82 foi fundamental para por fim há aquele período transitório com o Conselho da Revolução. Isso é tudo verdade. Mas até o CDS, que agora se radicalizou para ser uma espécie de Chega 2, mas até o CDS sempre teve, sempre viveu neste regime, sem pôr em causa a Constituição de 76, apesar de originalmente ter votado contra ela. Agora é que se radicalizou a achar que a receita do Chega lhes vai servir a eles também. E quebram este consenso em torno da Constituição em nome da criação de uma quarta república, que eu duvido muito que se for algo gizado pelo Chega seja uma república democrática. Duvido muito".