As mulheres valentes da Primeira Guerra Mundial (opinião)

CNN , Belinda Davis (artigo originalmente publicado em julho de 2014)
28 jul, 10:00

Há 108 anos, no dia 28 de julho de 1914, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia, dando início à Primeira Guerra Mundial

Há cerca de 108 anos, uma mulher em Pittsburgh ou em St. Denis, em França, ou em Petrogrado, na Rússia, pode ter acordado de madrugada, enquanto os filhos dormiam, para se preparar para o primeiro turno numa fábrica de munições próxima. O marido, a combater na Primeira Guerra Mundial, deixou-a sozinha a testar os limites da sua própria capacidade física e a ter de fornecer comida, abrigo e aquecimento à sua família, às vezes enfrentando grande perigo físico no trabalho. Talvez, por exemplo, quando se pendurava suspensa para carregar os poderosos explosivos nos cartuchos que outras mulheres tinham produzido.

Quando o dia de trabalho acabava, ela ia procurar comida para comprar, muitas vezes esperando horas na fila pelos escassos bens essenciais, procurando combustível difícil de encontrar para alimentar a fornalha e preparar o jantar. Lavava as crianças, levava-as para a cama, limpava a casa e escrevia uma carta ao marido, tentando não passar para a página a preocupação que a assolava. Tudo antes de dormir algumas horas. Depois, levantava-se e fazia tudo de novo.

Há 108 anos, quando as nações e os impérios se começaram a mobilizar para enviar 65 milhões de homens para a guerra, milhões de mulheres no mundo inteiro avançaram para preencher as lacunas criadas na sociedade civil. Da Grã-Bretanha à Bósnia e a Bagdade, passando pelos Estados Unidos, Europa, Índia e África, as mulheres tornar-se-iam solitárias chefes de família, em números sem precedentes.

Serviam diretamente nos campos de batalha como enfermeiras, condutoras de ambulância e cozinheiras. No entanto, também tiveram de manter em funcionamento as frentes domésticas dos seus países, assumindo empregos “masculinos” desde fundir ferro, conduzir elétricos, arar campos - além de trabalharem para administrar novos organismos públicos e privados de apoio à guerra.

A guerra mudou a vida das mulheres e mudou as próprias mulheres. Quando os homens voltaram da guerra, tentaram inevitavelmente reafirmar o seu domínio na família e na sociedade. Mas o facto de estarem numa condição frágil e as circunstâncias em casa desafiaram essas tentativas.

Mais uma vez, as mulheres tiveram de navegar por um terreno complicado estabelecido pelos homens. No entanto, as mulheres mostraram ao mundo e a si mesmas a sua competência na “guerra total”. Na verdade, a guerra criou um legado duradouro para as mulheres, marcado por novos direitos políticos em muitos países - e marcado também por uma ansiedade generalizada e duradoura sobre o crescente poder feminino.

Em 1914, as mulheres não eram novas no mercado de trabalho remunerado. Os empregos industriais individuais eram muitas vezes considerados especificamente para mulheres ou para homens. Indústrias inteiras, como a têxtil, eram “indústrias femininas”, enquanto os homens dominavam as siderurgias e as fábricas de máquinas. Enquanto as mulheres mais ricas continuavam a evitar o trabalho remunerado, no virar do século, as mulheres da classe média-baixa começaram a passar, lentamente, para cargos como empregadas de balcão e secretárias, continuando sempre a ser centrais no trabalho agrícola.

Mas a declaração de guerra, as mudanças económicas e a pressão oficial empurraram gradualmente as mulheres para a produção de guerra e para empregos “masculinos” (mesmo que, em França, as autoridades se contradissessem e confundissem as mulheres ao encorajá-las a ficar em casa e a ter mais bebés). Se nas vésperas da guerra, apenas 170.000 mulheres na Grã-Bretanha trabalhavam nas siderurgias, em 1918, esse número tinha subido para quase 600.000.

Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, as mulheres enfrentaram a escassez de alimentos e de alojamento, durante a guerra.

Ao assumirem empregos fora de casa, muitas dependiam de cuidados infantis irregulares ou eram obrigadas a deixar as crianças sem vigilância. Enquanto que, como noutros países combatentes, as mulheres norte-americanas geralmente se esforçavam para “fazer o seu papel” no esforço de guerra e aceitavam atribuições oficiais de trabalho relacionado com a guerra, desde o trabalho fabril até à distribuição de alimentos, algumas recusavam ter de “se registar” nas autoridades.

Os cartazes de propaganda britânicos declarando a dependência dos soldados das operárias de munições deram às mulheres a sensação de que o seu contributo e o seu trabalho eram importantes e reconhecidos.

No entanto, mesmo apesar de as operárias de munições enfrentarem um trabalho pesado e condições adversas - juntamente com perigos como aconteceu na explosão da Barnbow National Factory em 1916, perto de Leeds, em Inglaterra, que matou 35 pessoas – havia quem as condenasse pelos salários relativamente altos que ganhavam. Foi um reflexo das tensões entre classes geradas pela economia de guerra reestruturada e pelo papel das mulheres na mesma.

As autoridades britânicas ofereciam pequenos “apoios de separação”, subsídios às famílias dos soldados com base na perda de rendimento e, em troca, assumiam o direito de controlar as esposas dos soldados, para garantir que não andavam a beber ou a dormir com outros homens.

Uma mulher que, depois do seu turno na fábrica, fosse dançar ou beber um copo rápido num bar, enfrentava acusações públicas de ser uma “vadia exibicionista” ou uma “rapariga amadora” – vulgo prostituta - mesmo que os colegas de fábrica e os soldados de licença pudessem fazer-lhe propostas e assediá-la.

Algumas mulheres sentiram uma nova “liberdade” durante a guerra. Outras viram a mudança de “padrões morais” como o resultado de as mulheres terem visto os seus maridos “a ser engolidos naquela onda de morte cada vez maior...”

Na Europa continental, onde a guerra foi realmente travada, as condições eram ainda mais complicadas. Muitas mulheres assumiram o “trabalho dos homens” para apoiar o esforço de guerra e garantir a sobrevivência das famílias, mas também se viram sujeitas a políticas governamentais ainda mais controladoras que chegaram com a “guerra total”. As mulheres que viviam em territórios capturados sofreram mais miséria, tendo de prestar alojamento e serviço a soldados estrangeiros que eram muitas vezes abusivos.

Em Itália, as mulheres das cidades foram recrutadas para o trabalho agrícola. No entanto, as mulheres agricultoras sentiram-se pouco aliviadas com esta variada força de trabalho destinada a substituir os homens e os animais de tração. Nas cidades europeias, as mulheres passavam muitas vezes horas numa fila para comprar batatas estragadas. Juntamente com crianças descalças, tentavam procurar comida e combustível em jardins públicos, uma prática que se acabaria por tornar um trabalho a tempo inteiro.

Na Alemanha, uma política de 1916 reservava os escassos bens alimentares apenas para mulheres que trabalhassem em fábricas de munições, pois as autoridades anunciaram que “toda a população civil restante, incluindo as mulheres, seria militarizada através deste plano.” No extraordinariamente frio inverno de 1916-17, quando as escolas fecharam por falta de aquecimento, a política deixou poucos adultos disponíveis para cuidar das crianças.

No final das hostilidades, a guerra tinha transformado a vida das mulheres.

Em muitos países em guerra, reconhecer as contribuições das mulheres tornou-se fundamental para evitar desafios ao próprio poder dos políticos nas condições tumultuosas do pós-guerra, especialmente em toda a Europa. As mulheres conquistaram o direito de voto durante ou pouco depois de hostilidades, nos Estados Unidos, no Canadá e na Grã-Bretanha, na República Alemã e nas novas repúblicas soviéticas, e nos novos países da Áustria, Hungria e Checoslováquia.

Os direitos económicos eram outra história.

A desmobilização dos soldados e os grupos que alegavam representá-los pressionaram as autoridades e os donos das fábricas a “arranjarem espaço” para os homens que regressavam, despedindo todas as mulheres, embora estas, muitas vezes, continuassem a ser as únicas fontes de rendimento das famílias. Esta foi uma manifestação das guerras culturais poderosas e contenciosas sobre a conveniência e até a possibilidade de regressar a algum passado tranquilo - um que, como hoje, era em parte imaginado.

Seguiram-se batalhas nas sociedades europeias e norte-americana sobre como reconhecer o trabalho das mulheres durante a guerra.

As mulheres recém-empobrecidas devem receber apoio do governo com base nas suas contribuições de guerra ou apenas como dependentes de soldados feridos ou mortos? Ou talvez nada, de todo?

Na Grã-Bretanha, as autoridades evitaram os argumentos dos grupos de mulheres e preferiram acatar as reivindicações da necessidade de colocar os homens de volta ao seu papel “apropriado” de poder económico, mantendo a noção de tempo de guerra de haver benefícios apenas decorrentes do marido.

Na Alemanha e na Rússia, pelo contrário, as mulheres passaram a ter, em princípio, um estatuto igual, embora a prática nem sempre seguisse o princípio. As atitudes divididas sobre o valor do trabalho feminino que resultaram nessas discussões continuam nos dias de hoje.

A enxurrada de cerca de 50 milhões de homens de regresso a casa, no final da guerra em 1918 e 1919, também trouxe novas tensões à vida familiar. Os soldados que regressavam imaginavam o lar como um refúgio de normalidade após o pesadelo da guerra. No entanto, os danos físicos e psicológicos dos homens muitas vezes impediam que voltassem a ser quem eram antes da guerra, e a agitação social e económica desses anos também não ajudou.

O que era “normal” tinha mudado, obviamente, para as mulheres deixadas para trás. Com os seus novos papéis e autonomia, eram frequentemente apontadas como culpadas por este mundo do avesso. Tais conflitos de género perduraram ao longo do Séc. XX e continuam, bem como muitos outros legados da Primeira Guerra Mundial.

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