Primavera Sound Porto. O Festival que parece uma reunião de família

CNN , Tim Lister
17 jun 2025, 15:00
Charlie
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O festival correu bem. Com uma organização discreta, mas eficaz, apresentou um sistema de venda de bilhetes eficiente, muitos lugares para comer e beber e muito espaço para relaxar na relva

Texto e fotos por Tim Lister (CNN, CNN.com)

O festival Primavera chegou ao Porto no passado fim de semana e, em alguns aspetos, foi diferente dos anos anteriores. Mas também pareceu uma espécie de [grande] reunião de família.

Diferente? Para começar, o estado do tempo - nem uma gota de chuva em nenhum dos três dias. Depois, o alinhamento: menos nomes de reconhecimento imediato do que nos anos anteriores e com mais bandas de nicho que era preciso pesquisar no Spotify. Talvez por isso o evento não tenha esgotado - havia mais artistas que não eram familiares. Mas também houve alguns que atraíram grandes multidões.

E depois os fãs, mais anglo-europeus-portugueses do que em anos anteriores, ao que parece - muitos deles vestidos com t-shirts e adereços de Charlie XCX. E talvez, em média, um pouco mais jovens do que nos anos anteriores.

Charlie foi a cabeça de cartaz da primeira noite, a única altura em que o palco principal esteve cheio. Foi uma atuação simples - sem dançarinos, sem backing vocals, sem vídeos, apenas Charlie a abanar repetidamente o rabo ao público e a exigir mais participação.

O álbum de sucesso do ano passado, Brat, foi recordado - cantando sucessos como “365”, “Club Classics” e “I Might Say Something Stupid”. Foi uma demonstração de techno - e a sua capacidade de cativar o público ficou bem patente.

João tinha vindo de Lisboa principalmente para ver Charlie e não ficou desiludido. “A energia dela é incrível”, sublinhou, adiantando que “adorou a forma como o público se sentiu unido. Podia ter ficado mais uma hora". Nessa altura já passava da uma da manhã, mas ainda era suficientemente cedo para uma criança de oito anos, do Porto, chamada Carolina, (os pais pareciam mais cansados do que ela) garantir que sabia todas as letras de Charlie e, aparentemente, não estava a exagerar.

Várias bandas tinham bandeiras palestinianas ou apelavam a uma “Palestina livre” durante as atuações, entre as quais Fontaines D.C. e Los Campesinos, uma banda pós-punk de Cardiff, no País de Gales, que fez um concerto consistente, liderado pela energia fanática de Gareth David.

Fontaines D.C.

Michael Kiwanuka fez talvez a atuação mais sublime do festival, acompanhado por um violinista, um violoncelista, um pianista e três cantores de apoio sensacionais. O seu R&B enraizado - terminando com o seu maior êxito, "Cold Little Heart" - encantou uma audiência que ia desde os adolescentes (maioritariamente mulheres) até a fãs mais velhos. Antes da sua atuação, um jovem casal que tinha vindo de Glasgow tentava falar em espanhol com um casal português de meia-idade, todos eles a rir quando a tradução não funcionava. Isto resumiu o ambiente do Primavera deste ano. Sempre foi um evento muito descontraído; este ano ainda mais...

... Exceto Denzel Curry, o rapper da Flórida, que fez um verdadeiro mosh no final da segunda noite. Adriano e José, estudantes de Coimbra, adoraram a atuação cheia de energia. “Tem uma presença espetacular”, disse Adriano. “Nalgumas atuações podemos ver as pessoas a olhar para os telemóveis, mas ele é tão intenso que não nos conseguimos distrair nem por um segundo.”

Outros destaques foram os Fontaines D.C. (DC significa Dublin City), a banda irlandesa de punk/indie-rock/nu-metal que apresentou uma hora de músicas pulsantes, incluindo “Romance”, “Jackie Down the Line” e “Starburster”. Dá para perceber porque é que citam os Deftones e os Alice in Chains como influências. Angie, uma jovem de 22 anos do Michigan que estava na sua primeira viagem a Portugal e a adorar cada momento, tinha planeado durante todo o ano ver os Fontaines na Europa. “Não fiquei desiludida”, disse com uma voz rouca depois de cantar a maior parte das canções. “É um cenário tão perfeito para a música e fiz tantos amigos - vou começar a poupar para voltar no próximo ano assim que aterrar em Detroit.”

Não era a única a esperar ansiosamente pela atuação dos Deftones na noite seguinte - talvez a playlist [“Be Quiet and Drive”, “My Own Summer” e outras] que teve mais pessoas a cantar as letras. Félix, um estudante de Estugarda, é um viciado confesso em Deftones e estava a vê-los pela quinta vez (pensava ele - disse que já tinha bebido umas quantas Super Bock...) “São uma daquelas bandas que são uma espécie de banda sonora para a nossa vida; todas as músicas têm associações.”

Mas talvez a atuação mais atlética e empenhada tenha sido a de Angélica Garcia, que vive na Califórnia, mas é de origem salvadorenha. Uma corrida pelo pop latino de alta potência que lembrou o duo colombiano Bomba Estéreo. No espaço de 45 minutos, conquistou muitos novos fãs e vale a pena assistir ao vivo.

Angélica Garcia

Magdalena Bay, foram outro dos destaques. Um conjunto polido de pop cativante que também teve um toque mais duro quando menos se esperava; e Beach House, com o seu dream pop sereno e anónimo (sem holofotes) que fez com que alguns dos seus fãs derramassem lágrimas de emoção. Uma delas foi Birgitta, uma jovem de 20 anos da Suécia. “Eles levam-me simplesmente para outro lugar”, disse. “Podemos esquecer tudo o que está errado e mau no mundo e fugir para um lugar de pura emoção.”

Magdalena Bay

O Primavera corre muito bem. Para além da estranha estrutura que caiu durante a atuação de Denzel Curry, que nunca perdeu a calma graças a uma organização discreta, mas eficaz, o festival apresentou um sistema de venda de bilhetes muito eficiente, muitos lugares para comer e beber e muito espaço para relaxar na relva enquanto se ouve as Anavitória ou o talento em ascensão de Nova Iorque, Been Stellar (cujo vocalista Sam Slocum disse que ficou impressionado por tocar no Porto).

O Primavera no Porto é mais íntimo (se é que isso é possível num festival) e mais local do que o seu irmão mais velho e muito maior, o Primavera Barcelona. E é isso que muitos dos seus fãs adoram. Um fã dos Países Baixos, Bartel, disse-o da melhor forma enquanto esperava pelo Magdalena Bay. “Isto parece estranho”, afirmou, "mas parece uma grande família. Este é o meu quarto ano e já sei as datas para o próximo ano. Há imensas atuações que quero ver, mas é a mistura de pessoas aqui que é tão fixe."

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Música

Mais Música