Um dia depois dos insultos racistas de Prestianni, fala-se mais de Vinícius Júnior, vítima dos insultos, que do jogador do Benfica, que tapou a boca para esconder o ataque e não ser punido. Atirar a pedra e esconder a mão é pecado, já dizia o Novo Testamento. Mas pior ainda é encobrir um racista e pôr o foco, ou mesmo a culpa, na vítima
Não é preciso ser Nina Simone, James Baldwin ou o recentemente falecido Jesse Jackson, todos eles figuras-chave da luta pelos direitos civis da população negra (ou seja, da luta antirracista) nos EUA, para perceber o que Vinícius Júnior deve ter sentido quando ouviu não uma, mas cinco vezes, a palavra “mono”, macaco em espanhol. Kylian Mbappé estava lá e ouviu tudo, por mais que o Benfica publique vídeos a demonstrar o indemonstrável.
Como se pode demonstrar que alguém não ouviu o que ouviu? A questão não é aquilo que, muito mais do que provavelmente, foi dito, mas sim o encobrimento. Não teria sido melhor questionar o presumível racista e analisar com frieza e bom senso um episódio vergonhoso, que mancha a honra do Benfica e pode ter consequências graves para o futuro da equipa na competição mais importante do mundo do futebol (a nível de clubes)?
Teria sido o mais sensato e decente. Mas o encobrimento começa com a camisola do Benfica à volta da boca de Gianluca Prestianni, e continua quando o treinador dos encarnados, José Mourinho, tenta ser “equilibrado” num caso que, tudo indica, é refratário a equilíbrios. Não se pode ser equidistante entre racistas e vítimas de racismo. Mourinho tinha a obrigação de ser prudente, mas fugiu às únicas questões que importavam.
A resposta de Mourinho foi um falso problema, uma forma de fugir à realidade. Não tinha nada a ver com ser “vermelho” (benfiquista) ou “branco” (neste caso, madridista, por mais irónico que pareça tendo em conta a cor da pele de Vinícius, que está na origem dos insultos). Tinha a ver com ser ou não ser racista.
Durante os dez minutos de paragem do jogo, o setubalense foi ao banco falar com Vinícius, a quem aconselhou festejar o golaço “como Di Stéfano, Pelé ou Eusébio”, em vez de fazer o que fez. Conselhos vindos de alguém que, enquanto treinador do Real Madrid, enfiou o dedo no olho de Tito Vilanova, na altura treinador do Barcelona. De alguém que passou a vida a provocar, a mandar bocas, a denegrir (curioso verbo) e pôr em causa árbitros e jogadores quando as coisas não correm bem.
O que Vini Jr. fez foi bem mais leve: simplesmente, dançou. Depois segurou o nome dele escrito nas costas da camisola, um gesto dirigido à bancada mas perfeitamente inócuo e banal no futebol (é assim por exemplo que Asensio, ex-jogador do Real Madrid, festeja os golos, mas há muitos mais jogadores com celebrações idênticas ou bem mais provocatórias).
É uma provocação o gesto do tenista Carlos Alcaraz quando leva a mão ao ouvido? Claro que não. O camisola 7 do Real Madrid não fez nada que merecesse o cartão amarelo que o árbitro, o francês François Letexier, acabou por lhe mostrar. E foi precisamente nesse momento, no momento do amarelo, quando apareceu Gianluca Prestianni e começou a insultar Vini Jr.
O árbitro não ouviu os insultos, mas uma das chaves deste episódio lamentável é a boca tapada com a camisola — sinal inequívoco de um encobrimento que Vinícius, depois, nas redes sociais, qualificou acertadamente como covardia. Quem nada teme, quem sabe o que diz, nada esconde; e Prestianni sabe perfeitamente que hoje é possível ler os lábios e ser castigado por dizer o que disse. Mais uma ironia: o único jogador punido foi o que recebeu os insultos, e o verdadeiro provocador não recebeu qualquer castigo.
Há uns meses, vi um dérbi Atlético Madrid-Real Madrid. O jogo também esteve parado porque os adeptos mais fanáticos da equipa da casa insultaram e atiraram objetos contra o antigo guarda-redes do clube, o belga Thibaut Courtois. Na conferência de imprensa posterior, em vez de condenar o comportamento violento do Frente Atlético, o treinador colchonero, Diego Simeone, acusou Courtois de ser um provocador.
É um erro fatal. Isto é como a velha história da saia ou da minissaia. O problema não é a roupa, não é de quem “provoca”. O problema é de quem ataca alguém, ou viola alguém, e depois se defende dizendo que houve uma provocação. A provocação, real ou sentida, pode ser um problema em ocasiões, mas raramente é a base do problema. E o problema que ocupa este texto é o racismo. O racismo de Prestianni e o encobrimento do Benfica.
O protocolo antirracista da UEFA é cada vez mais elaborado, mas ainda é pouco claro e mal aplicado. Jogos deste nível são eventos internacionais com milhões de espetadores (e de euros em jogo para milhares de negócios). É, logicamente, complicado interromper uma partida a meio, e estaríamos a falar de outra coisa agora se o Benfica tivesse perdido o jogo como castigo pela suspensão do mesmo, algo que está previsto no regulamento da UEFA.
A atitude de parte do público nas bancadas, que a partir do incidente começou a assobiar cada vez que Vini Jr. tocava na bola, também é incompreensível, por mais que seja um jogador rival. Muito pior que assobiar é insultar a gritos e sem descanso, e mais lamentável ainda é lançar objetos — mas viu-se isso tudo e muito mais.
Não é a primeira vez que acontece algo parecido nem será a última, mas esta é outra das questões que merecem uma reflexão. O Benfica arrisca o encerramento do estádio pelos objetos lançados. Uma garrafa de água explodiu no ombro de Vinícius quando ia marcar um canto, perto do final da partida. Prestianni, que tinha sido um dos heróis na vitória por 4-2 dos encarnados contra o Real há menos de um mês, e estava a ser um dos jogadores mais perigosos também nesta eliminatória, arrisca uma suspensão de dez jogos.
Mbappé pede mais: sugere que o argentino do Benfica não volte a jogar na Liga de Campeões. Mbappé não é tão escuro quanto o número 7 do Real, mas é muito menos claro do que Prestianni e cresceu em Bondy, um subúrbio de Paris que podia ter protagonizado ‘O Ódio’, o famoso filme de Mathieu Kassovitz que, em 1995, retratou a história de três amigos num bairro pobre de imigrantes.
O ódio de que fala Kassovitz é o ódio que sofrem os imigrantes, muitos deles negros e/ou magrebinos como Mbappé (filho de um camaronês e uma franco-argelina). O ódio racial não pode ser desculpado nem encoberto. O ódio das bancadas também não pode ser relativizado, como se fosse normal. Muito menos nos tempos que correm, em que certos discursos racistas e xenófobos se estão a normalizar.
A UEFA tem campanhas contra o racismo há anos. O Real Madrid, como tantos outros clubes, teve fanáticos racistas e violentos nas bancadas durante anos, mas essa etapa acabou — ou, pelo menos, os racistas e violentos são menos tolerados e têm menos visibilidade. O clube adotou medidas eficazes para acabar com este flagelo.
O Benfica tem agora a oportunidade de ser firme contra os intolerantes. Firme com quem atenta contra a dignidade de um rival. Em vez de publicar vídeos à pressa para defender Prestianni, deve fazer uma reflexão profunda e liderar uma mudança no futebol nacional. Isto se quiser continuar a ser o mais importante e acarinhado clube português pelo mundo fora. Palavra de adepto do Sporting Clube de Portugal e do Real Madrid Club de Fútbol desde pequenino.