O jogador argentino do Benfica nega ter proferido insultos racistas contra Vinicius. Vinicius diz que foi alvo desses insultos racistas. Eis como a justiça desportiva averigua nestes casos
Para o juiz do Tribunal de Futebol da FIFA Gonçalo Almeida, é pouco provável que Gianluca Prestianni venha a ser punido pelos alegados insultos racistas proferidos contra Vinicius Jr. durante o jogo desta terça-feira entre Benfica e Real Madrid, a contar para o playoff da Liga dos Campeões.
“Com o devido respeito e salvo melhor opinião, do ponto de vista documental não há prova e a prova testemunhal será um tanto ou quanto fraca - não será suficientemente forte para a condenação por insulto A,B ou C”, explica o também especialista em Direito do Desporto, em declarações à CNN Portugal.
No caso da prova testemunhal, Gonçalo Almeida refere-se a Kylian Mbappé, que garante ter ouvido os insultos proferidos pelo jogador argentino. Sobre isso, Mbappé disse assim: "O número 25 não merece que diga o seu nome. Começou a dizer uma palavra ao Vini e depois tapou a boca com a camisola para lhe chamar 'mono' (macaco) cinco vezes. Não merece mais jogar a Champions", disse o número 10 do Real Madrid, em declarações na zona mista. "Eu ouvi cinco vezes, 100%. Há jogadores do Benfica que ouviram também. Temos de ser exemplos, são coisas que não podemos aceitar. Temos de dizer que não se pode falar assim. Tenho amigos portugueses e nunca me aconteceu isto. O Benfica é o melhor clube de Portugal e isto não pode acontecer, é grave."
Sobre o desenrolar do processo, Gonçalo Almeida refere que os jogadores que estavam perto de Vinicius e Prestianni, como Eduardo Camavinga e Mbappé, podem ser chamados a testemunhar e “dar conta daquilo que ouviram”. “O Mbappé terá sido um caso desses e poderá até ter uma influência considerável no desfecho deste inquérito”, diz o especialista - mas sublinha que a prova testemunhal é “um tanto ou quanto fraca”.
Após a conclusão do inquérito, o mesmo será enviado para Comité de Controlo Ético e Disciplinar da UEFA para ser tomada uma decisão. “Estamos perante um procedimento em que está tudo em aberto, resta investigar, averiguar o que se passou e, mediante a prova que seja feita, e se o julgador estiver minimamente satisfeito em relação às provas jurídicas para proceder com a acusação, assim o fará. Se entender que não estão reunidas provas suficientes, irá requerer o arquivamento dos autos.”
Gonçalo Almeida classifica a situação como "lamentável" e está “convicto” de que Prestianni, “ao tapar a boca com a própria camisola, dirigindo-se claramente ao Vinicius, não estaria propriamente a elogiá-lo”. “Se esses insultos do Prestianni são de facto de natureza racista, é altamente lamentável e temos de condená-los veementemente. Se não terão sucedido, então é igualmente lamentável e condenável que alguém faça uso desse expediente para retirar alguma vantagem. Só o próprio Prestianni é que na verdade saberá se, de facto, insultou ou não o Vinicius como alegadamente terá feito”, explica o juiz do Tribunal de Futebol da UEFA.
"Em pleno século XXI, em que pretendemos uma sociedade moderna, justa e correta, só a dúvida de que este tipo de insultos ainda possa ter lugar já é profundamente lamentável e prejudicial à própria indústria do futebol. Esta visibilidade é profundamente negativa para a própria indústria”, conclui Gonçalo Almeida.
Prestianni nega: "Nunca fui racista com ninguém"
O jogador argentino do Benfica usou as redes sociais para se defender das acusações. Primeiro, numa story publicada no Instagram: “Em momento algum proferi insultos racistas contra o jogador Vinicius Júnior, que infelizmente interpretou mal o que pensava ter ouvido. Nunca fui racista com ninguém e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid"-
Já durante a madrugada, hora portuguesa, recorreu ao X, num tom mais duro. “Se dizem tanto que eu SUPOSTAMENTE fiz um comentário racista ao Vinicius Junior, porque ninguém reagiu? Acusar alguém de algo grave não é correto, ainda mais quando não é verdade.”
Si tanto dicen que SUPUESTAMENTE yo dije un comentario racista a vinicius junior por que no reaccionó ninguno ? Acusar de algo grave no está bien y menos cuando no es verdad. https://t.co/tx4c9Cu6Xj
— gianluca (@gianlucaa_11) February 18, 2026
Prestianni alega ainda que cobrir a boca enquanto se fala é algo comum. “E todos apontam-me o dedo porque eu cubro a boca com a camisola, quando sabem que todos os jogadores de futebol cobrem a boca para falar. Não inventem mais.”
Y todos apuntándome con el dedo por qué me tapo con la remera cuando saben que todos los jugadores de fútbol se cubren la boca para hablar. No quieran inventar más. https://t.co/tx4c9Cu6Xj
— gianluca (@gianlucaa_11) February 18, 2026
Vinicius Jr. também se pronunciou sobre o tema após o final do jogo, criticando o protocolo do racismo, “de que nada serviu”, e o árbitro da partida, o francês François Letexier, por lhe ter dado um cartão amarelo "por comemorar um golo" - Vinicius diz que não entendeu "o porquê disso".
“Racistas são, acima de tudo, cobardes. Precisam de colocar a camisola na boca para demonstrar como são fracos. Mas eles têm ao lado proteção de outros que, teoricamente, têm a obrigação de punir. Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e da minha família", escreveu o astro do Real Madrid.