Há quem tenha o Benfica como "segunda pele" e sinta "vergonha" de Prestianni (que alega que "todos os jogadores cobrem a boca")

18 fev, 18:41
Benfica-Real Madrid, Prestianni e Vinicius (Angel Martinez/Getty Images)

Acusação de racismo já chegou à UEFA, que vai investigar, e Prestianni até já justificou porque é que tapou a boca. Jogador do Benfica arrisca 10 jogos de suspensão

Gianluca Prestianni chamou ‘mono’, que em castelhano significa macaco, a Vinicius Júnior? O tema tornou-se maior do que um jogo de futebol da melhor competição do mundo.

Dos espanhóis visivelmente defensores do Real Madrid aos norte-americanos que estão a tentar explicar o que se passou num relvado onde a bola é jogada com os pés e não com as mãos - imaginem explicar isso a um fã de Tom Brady -, o caso de alegado racismo ocorrido na noite desta terça-feira no Estádio da Luz está a marcar a atualidade. E não apenas a desportiva, mas a atualidade como um todo.

O The Athletic, que está a cargo da edição de desporto do New York Times, chama-lhe mesmo um “caos”, até porque a explosão de Vinicius dentro de campo está a durar bem mais do que os 10 minutos em que o craque brasileiro se recusou a regressar ao campo.

Kylian Mbappé, que estava perto de Vinicius e Prestianni, veio logo defender o colega de equipa. No final do jogo, e em declarações na zona mista, o astro francês recusou-se a pronunciar o nome de Prestianni, referindo-se ao argentino apenas pelo número. "O número 25 não merece que diga o seu nome. Começou a dizer uma palavra ao Vini e depois tapou a boca com a camisola para lhe chamar 'mono' (macaco) cinco vezes", relatou o 10 do Real Madrid.

"Ele não merece mais jogar a Champions", sublinhou Mbappé, que pediu uma decisão firme da UEFA.

E a decisão da UEFA, a chegar, pode resultar numa pena máxima de 10 jogos de suspensão a Prestianni. Para isso é preciso que se prove a acusação de racismo, o que é à partida difícil, mas o organismo máximo do futebol europeu já está em campo para tentar apurar tudo o que se passou.

A UEFA confirmou que o relatório da partida está a ser analisado. Em paralelo existe uma “investigação por possível violação do regulamento disciplinar”. Em concreto, o organismo está a “investigar alegações de comportamento discriminatório durante o jogo”.

A reação do Benfica - e um processo de contraordenação

A defender o seu jogador desde o início, alegando até que nenhuma das alegadas testemunhas, incluindo Mbappé, pode ter mesmo ouvido o que foi dito, o Benfica garante que vai colaborar com a investigação.

“O Sport Lisboa e Benfica encara com total espírito de colaboração, transparência, abertura e sentido de esclarecimento as diligências hoje anunciadas pela UEFA, na sequência do alegado caso de racismo ocorrido no jogo frente ao Real Madrid”, lê-se no comunicado do emblema da Luz.

Em todo o caso, a situação escalou mesmo ao nível mais alto, com o presidente da FIFA a afirmar que “não existe absolutamente nenhum espaço para o racismo”.

“Não ao racismo! Não a qualquer forma de discriminação”, escreveu Gianni Infantino nas suas redes sociais.

Já em Portugal, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) confirmou que foi instaurado um processo de contraordenação. "Na sequência de notícias difundidas nos órgãos de comunicação social relativas a alegados insultos / atos de racismo (…), a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto instaurou um processo de contraordenação, com vista ao apuramento dos factos", lê-se em comunicado.

As ondas de choque - e o porquê de "tapar a boca"

Uma das reações mais difundidas em todo o mundo é a de Thierry Henry, que preferiu não escolher nenhum dos lados, até porque “não sabemos o que disse o Prestianni, porque ele colocou a camisola sobre a boca, precisamente para não entendermos o que disse”.

O antigo internacional francês admite que isso é, logo à partida, um comportamento “suspeito”, mas sugere que esperemos para perceber melhor, até porque “o Prestianni não vai admitir o que disse”.

“Os árbitros não podem agir, até porque não sabem o que fazer. Vamos ver o quão homem é o Prestianni. Tapas a boca e o nariz, porquê? Estás constipado?”, questionou Henry.

De resto, e sem elucidar o público do que disse afinal, o jogador do Benfica quis apenas defender-se de uma acusação factual, a de que tapou a boca. Para o argentino, se toda a gente o faz, então não há problema.

Até agora, a melhor defesa de Prestianni é não haver qualquer esclarecimento cabal do que foi dito. A outra, e quem tem sido mais utilizada, surgiu através de vozes como a de José Mourinho.

Já depois do jogador, também o agente veio defender Prestianni (que por sua vez tinha defendido “a sua equipa” da “falta de respeito do jogador visitante contra o seu público”): “Depois vem tudo o que significa uma figura mundial como Vinicius. Há milhões de imagens em que os jogadores cobrem a boca com camisolas ou mesmo com a própria mão para que não se possam ler os seus lábios”, justificou Gastón Fernández, tal como o próprio cliente tinha feito nas redes sociais. 

“Daí a ser um ato de racismo, acho que pode haver muitas maneiras de tirar vantagem. Acredito e confio no Gianluca porque ele tem o conhecimento e o profissionalismo para se comportar como um jogador de futebol de elite. Sejamos justos e deixemos o espetáculo de lado. Só Prestianni e Vinicius saberão o que foi dito”, finalizou o agente.

O treinador do Benfica até começou por admitir que é difícil dizer quem tem razão, mas quis frisar que Vinicius Júnior tem antecedentes.

“Uma coisa é o que o Vinicius diz e outra é o que o Prestianni diz, são coisas completamente diferentes. O que eu disse ao Vinicius, de um modo independente, sem estar a defender a minha dama, é que quando se faz um golo daqueles, sai-se em ombros. Não se vai mexer com o estádio, com o coração de um estádio, que é o estádio adversário. Como dizem em Espanha, quem marca um golo daqueles corta o rabo, a orelha e sai em ombros. Não acaba com o jogo. E ele acabou com o jogo”, referiu o treinador português na conferência de imprensa, ele que esteve a falar com o jogador brasileiro quando este se recusava voltar a jogo.

“Falei com o Vinicius e ele disse-me uma coisa, o Prestianni disse-me outra. Podia dizer que só acredito no Prestianni, mas neste mundo do futebol tento sempre ser equilibrado e não quero dizer que o Vinicius é um mentiroso e o Prestianni é um miúdo incrível. O Arbeloa optou por ter uma perspetiva diferente, assim como o Mbappé. Passa-se sempre a mesma coisa com o mesmo jogador em vários estádios, há alguma coisa que não está bem”, acrescentou, criticando a postura parcial dos adversários.

Já Rio Ferdinand decidiu ser mais agressivo que Henry. O antigo internacional inglês reagiu em dois momentos diferentes, o mais duro para apelidar Prestianni “pequeno rato”, defendendo que os festejos de Vinicius após o golo não justificam atitudes racistas.

Mais tarde, o mesmo Ferdinand foi ao X partilhar um vídeo que mostra adeptos do Benfica em pleno Estádio da Luz a imitarem gestos de macacos.

Também Lewis Hamilton, conhecido ativista pela igualdade, defendeu Vinicius, numa história publicada no Instagram em que garantiu que "estamos contigo".

Mais surpreendente terão sido as reações de dois ex-Benfica. Álvaro Carreras, que deixou a Luz há pouco tempo, apressou-se a juntar-se a Vinicius, partilhando uma imagem com o colega de equipa e com a legenda "estamos juntos, irmão". Apesar da relação com os encarnados, acaba por ser normal, já que joga agora no Real Madrid.

Totalmente surpreendente será, então, a entrada de Luisão em tudo isto. Histórico capitão das águias, o brasileiro foi a primeira voz do universo Benfica a tomar o lado de Vinicius, utilizando mesmo a palavra "vergonha" para descrever o que sentiu. "Esta camisola é muito grande. Amo o Benfica, é a minha segunda pele, mas tem de se ser digno para vestir o manto sagrado. E este texto [de Prestianni] piora [tudo] porque é mentira. O futebol ganha-se na raça, na luta. Foi um ato racista e estou envergonhado. Sei do que falo. Não estou a julgar. (…) Apesar de, pela experiência, saber a verdade", atirou, sendo rapidamente inundado de críticas de adeptos benfiquistas.

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