O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Múltiplas investigações, nacionais e internacionais, têm revelado de forma consistente um aumento recente da pressão escolar percecionada pelos/as estudantes. Há uma relação próxima entre maior pressão académica e piores indicadores de bem-estar e saúde mental, como a ansiedade, os sintomas depressivos, as perturbações do sono e a autolesão. Embora a pressão escolar não seja o único fator a explicar este aumento de problemas de saúde mental, contribui para o seu agravamento.
Por pressão escolar entenda-se um processo em que o/a estudante interpreta as exigências académicas, sociais e comportamentais como excessivas e ameaçadoras, ultrapassando frequentemente as suas capacidades e os recursos disponíveis para lidar com essas exigências. Embora haja sempre algum nível de pressão associado às avaliações, a pressão escolar é mais abrangente e tem como fatores principais de promoção de pressão o ambiente escolar, o ambiente familiar e as próprias características individuais do/a estudante.
A organização do sistema escolar potencia vários aspetos que aumentam a carga emocional sobre os/as estudantes. Alguns exemplos: o muito comum excesso de trabalhos; o foco nas notas; os rankings escolares e os quadros de mérito das escolas; as exigências desajustadas face às características dos/as estudantes; a uniformização dos métodos de ensino e aprendizagem; a falta de clareza nos critérios de avaliação; turmas muito grandes; ou ainda a escassez de apoios especializados.
As famílias contribuem para a pressão através de, por exemplo: expectativas académicas elevadas; comparações com irmãos, primos, colegas ou filhos de amigos; elogiar apenas classificações altas; problemas relacionais, financeiros, de saúde ou outras responsabilidades em casa; a falta de tempo, de espaço tranquilo, de orientação ou compreensão por parte dos elementos da família nuclear.
Por fim, no que se refere ao/à próprio/a indivíduo, surgem como potenciadores da pressão: a autocrítica constante e a necessidade de perfeccionismo; culpa por ter resultados abaixo do que acha que é esperado; medo de falhar e de dececionar os outros; tendência para a procrastinação; dificuldades na gestão do tempo; falta de competência de tomada de decisão; incapacidade de lidar com as dificuldades pessoais; comparação constante com os outros; e, em muitos casos, pouco descanso e autocuidado.
Existem formas de ajudar a lidar com a pressão e diminuir a sintomatologia mental e física, melhorando o bem-estar geral, a sensação de autoeficácia, e contribuindo para uma sociedade mais justa, inclusiva e produtiva. Não se pretende, com estas sugestões, eliminar totalmente a pressão, já que sem essa exigência também não se obtêm resultados. Pretende-se que seja uma pressão adaptativa, mais moderada, temporária, clara e baseada em apoio e não desadaptativa, potenciadora de problemas e insucesso.
Mais difíceis de implementar pelas famílias e pelos/as estudantes são as medidas passíveis de melhorar o contexto escolar, embora possam ser reivindicadas pelas associações de pais e de estudantes. No ambiente escolar seria importante: criar calendários comuns a todas as disciplinas com testes, trabalhos e prazos, limitando a concentração de momentos avaliativos e dando mais espaço e tempo para outros trabalhos; tornar mais claros e objetivos os critérios de avaliação; diversificar os métodos de ensino e a própria avaliação; aumentar os recursos direcionados ao apoio a estudantes com dificuldades ou com sinais de sobrecarga – nomeadamente o apoio psicológico; melhorar a comunicação entre docentes e estudantes; potenciar o desenvolvimento de competências pessoais, como sejam a regulação emocional, a tomada de decisão e a gestão do tempo, entre outras.
Um dos principais fatores de pressão escolar é a família e é aquele que merece mais atenção. São os adultos, nomeadamente os pais e cuidadores, importantes agentes na mitigação desta pressão escolar, através da influência na escola, da alteração de comportamentos e atitudes pessoais potenciadores de conflito e stress nos filhos e educandos e, também, pela promoção de um desenvolvimento físico e mental mais seguro e ajustado dos/as jovens.
Em primeiro lugar é importante avaliar adequadamente as capacidades e as competências dos/as filhos/as, compreendendo melhor os seus pontos fortes e fracos, para assim ajustar exigências e expetativas.
Existem jovens que são melhores em tarefas mais manuais, outros/as em tarefas que exijam mais concentração, outros/as ainda são mais atléticos/as. Há quem prefira a matemática ou quem prefira as línguas, há quem aprende melhor ouvindo, há quem aprende melhor fazendo, outros/as ainda aprendem escrevendo, entre muitas outras diferenças. Algum grau de adaptação dos/as estudantes é natural e exigível, mas esse movimento de ajustamento deve ser repartido de forma equilibrada entre os/as estudantes e o sistema educativo.
Os pais e educadores devem: valorizar o esforço, o progresso, e a persistência, não apenas notas, rankings ou acesso a determinado curso; definir expectativas altas, mas realistas e ajustadas aos/às filhos/as, considerando as dificuldades, os interesses e o ritmo de desenvolvimento; definir objetivos realistas, concretos, exigentes e passíveis de melhorar, mas ajustados ao que cada estudante consegue realizar; e deixar de os/as comparar com irmãos, primos, colegas ou filhos de amigos.
Podem ainda: acompanhar mais o percurso escolar, ajudando como podem e quando podem, validando os esforços e apoiando nas dificuldades; promover uma quantidade de atividades extracurriculares adequada e não excessiva; reforçar positivamente os sucessos (que podem ser apenas melhorar uma nota anterior, conseguir passar a uma disciplina difícil, ou concluir uma tarefa complexa) e evitar centrar a atenção na preguiça ou no fracasso.
Convém estar atento aos problemas com o sono, às alterações de humor, à tendência para isolamento, à irritabilidade, às queixas físicas e a eventuais autolesões, procurando sempre que necessário apoio especializado, sem receios nem preconceitos. Não sabemos tudo, não conseguimos fazer tudo, e podemos pedir ajuda.
Por fim, e no que diz respeito aos/às estudantes, estes devem ser incentivados a planear as avaliações e os momentos de estudo, definindo prioridades e objetivos concretos, logo desde o início do ano letivo. É importante ajudá-los a ultrapassar a procrastinação e a tendência para a sobrecarga de tarefas. Os/as estudantes devem estudar ao longo do ano, prestando atenção nas aulas e tirando apontamentos, reduzindo assim a carga emocional associada aos momentos de avaliação. É também importante dotar os/as jovens de técnicas de autorregulação perante a ansiedade, levando-os/as ainda a melhorar a higiene de sono, os hábitos alimentares, o equilíbrio com a atividade física e lazer, e uma melhor gestão do tempo passado em ecrãs e redes sociais.
No geral, podemos resumir, elencando como melhores estratégias para lidar com a pressão escolar:
- promover um melhor ambiente escolar, mais ajustado às características dos/as estudantes, menos uniformizado e mais humanizado;
- promover uma maior proximidade dos pais a filhos/as, com menos crítica e exigência e mais escuta e compreensão;
- aprofundar o conhecimento das capacidades, competências e interesses dos/as filhos/as e ajudá-los a procurar os percursos mais adequados para essas características;
- dar tempo aos/às jovens para conhecerem melhor o seu mundo e disponibilizar informação relevante e útil;
- reduzir a dependência dos/as jovens face às redes sociais e outras aplicações que promovem o prazer imediata;
- dotar os/as jovens de mais e melhores ferramentas que promovam a sua autonomia e capacidade de resolução de problemas e, simultaneamente, reforcem a sua autoestima e confiança promovendo assim maior motivação para a escola e para o futuro pessoal e profissional.
