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Do linguado de Eanes ao Pêra Manca de Cavaco. Como foi o primeiro dia de cada Presidente da República eleito em democracia

9 mar, 12:00
Tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida", diz a canção de Sérgio Godinho: tomar posse enquanto Presidente da República é também um primeiro dia que implica um antes e depois de assumir funções enquanto mais alto magistrado da nação. Mas como foi o primeiro dia de cada Presidente da República eleito em democracia?

O que irá fazer António José Seguro nos momentos após a tomada de posse? Vai comer um linguado, ou vai a uma mesquita para acabar o dia a ouvir fado? Um dia especial que já foi vivido por quatro figuras nos últimos 50 anos, cuja história procuramos contar aqui.

O linguado de Ramalho Eanes

Depois de “tomar um café com leite”, António Ramalho Eanes saiu de casa, no número 2 da Rua D. José de Bragança, para tomar posse enquanto primeiro Presidente da República eleito por sufrágio universal e direto em democracia, como dá conta uma reportagem do “Diário de Notícias” a 14 de julho de 1976.

Isto já depois de uma eleição que teve uma vitória forte e quase sem adversários. Otelo Saraiva de Carvalho e José Pinheiro de Azevedo ainda sonharam, mas o general foi mesmo eleito.

Já empossado, Ramalho Eanes proclamava que era necessário “acabar com o sectarismo, a intolerância, o ódio” e que era preciso acabar “com os atentados, as perseguições [e] a agressividade nas relações entre as pessoas e os grupos” e acrescentava ainda que o país tinha à sua frente dificuldades que seria “preciso vencer para assegurar a consolidação da Democracia e abrir caminho para uma sociedade socialista”.

Eanes proferia essas palavras enquanto apoiantes, segundo o Diário de Notícias, estavam às portas do Palácio de São Bento a cantar o hino nacional seguido d’A Internacional: “Eanes à varanda!”, exigiam depois os populares ao recém-empossado Presidente. Eanes cumpriu e acenou à população.

No seu primeiro ato oficial enquanto mais alto magistrado de Portugal recebeu as credenciais do monsenhor Angelo Felici, Núncio Apostólico em Portugal, no Palácio de Belém. Seguiu-se um almoço no restaurante “Peixe”, onde foi servido um linguado grelhado, antes de se dirigir ao Palácio da Ajuda para receber o Corpo Diplomático acreditado em Portugal, ao qual “ofereceu um Porto de Honra”, como relata a reportagem do semanário Expresso feita à data.

Soares a "conhecer os cantos à casa"

A campanha de 1986 foi árdua para Mário Soares. Num frente a frente "fratricida" ouviu Francisco Salgado Zenha a negá-lo como irmão e foi até alvo de uma "paulada" no incidente da Marinha Grande. Mesmo assim saiu vitorioso da segunda volta contra Diogo Freitas do Amaral, com 51,8% dos votos. Sucedeu a Ramalho Eanes como chefe de Estado e tomou posse a 9 de março de 1986.

Como primeiro ato oficial, homenageou a língua e a cultura portuguesa ao colocar uma coroa de flores na estátua de Camões, no Chiado, cerimónia que foi cumprida por todos os chefes de Estado desde então, tendo apenas mudado de local para o Mosteiro dos Jerónimos.

No seu primeiro dia completo enquanto Presidente, Mário Soares decidiu conhecer aquela que seria a sua residência oficial, o Palácio de Belém, apesar de, ao contrário do seu antecessor, ter continuado a viver na sua casa em Alvalade. Foi uma visita demorada de “duas horas” para “conhecer os cantos à casa”, escreveu o Diário de Notícias. Foi depois até São Pedro do Estoril almoçar com o filho João Soares antes da sua primeira audiência oficial, com o ministro dos Assuntos Económicos de Moçambique, Jacinto Veloso.

Teve como último ato enquanto chefe de Estado a assinatura de uma Convenção entre Portugal e a Bulgária. Ao todo promulgou 6.122 diplomas, vetou 37 vezes, utilizou o mecanismo da fiscalização preventiva da constitucionalidade 40 vezes e devolveu 35 diplomas ao Governo.

Sampaio e a coluna de Marcelo

Na manhã de 9 de março de 1996 Jorge Sampaio saiu pela última vez como cidadão da sua casa num rés-do-chão da Rua Padre António Vieira para tomar posse enquanto Presidente da República. 

O primeiro ato oficial de Sampaio foi condecorar com a Ordem da Liberdade o Presidente cessante, Mário Soares, ato que, à data, gerou alguma contestação. Marcelo Rebelo de Sousa, que viria a tomar posse enquanto Presidente da República 20 anos depois, escreveu numa coluna de opinião no Diário de Notícias que o ato demonstrava “qualquer coisa de monárquico neste regime”.

Sobre Sampaio, Marcelo escrevia também que tinha como um dos desafios ultrapassar a personalidade tímida, por se seguir a Soares, que tinha mais proximidade com o povo: “Ia às patuscadas e fazia até coisas um pouco surrealistas que, enfim, os políticos não podem permitir (aparecer em fato de banho).” Coisa que Marcelo permitiu, enquanto mais alto magistrado da nação, diversas vezes.

Ofereceu depois um almoço no Palácio de Queluz aos chefes de Estado e recebeu logo depois o príncipe das Astúrias, o príncipe herdeiro de Marrocos e o duque de Kent.

À semelhança de Soares, homenageou Camões com uma coroa de flores, mas decidiu fazê-lo no túmulo do poeta, no Mosteiro dos Jerónimos.

A primeira audiência oficial foi com José Eduardo dos Santos, presidente de Angola, onde reafirmou o apoio ao país africano nos processos de paz. De seguida, um almoço informal com os presidentes de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, com o chefe de governo moçambicano e com o embaixador do Brasil para discutir a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A ementa: cozido à portuguesa.

Cavaco Silva regado a Pêra Manca

Cavaco Silva teve o seu primeiro dia enquanto Presidente da República mais aliviado pelo facto de não ter quaisquer diplomas para ratificar. Todos os documentos até à véspera da tomada de posse, que ocorreu a 9 de março de 2006, foram promulgados por Jorge Sampaio. 

Tudo isto depois de aproveitar a divisão à esquerda, com Manuel Alegre e Mário Soares a avançarem os dois para uma candidatura, o que dividiu os votos do PS de tal forma - o partido até apoiou Mário Soares, mas Manuel Alegre ficou mesmo em segundo - que o candidato apoiado pelo PSD nem precisou de segunda volta.

Saiu da sua morada na Travessa do Possolo, jurou “cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa” e tomou posse. Repetiu o gesto do seu antecessor e condecorou com o Grande Colar da Liberdade Jorge Sampaio.

À semelhança de Soares e Sampaio, homenageou a cultura portuguesa ao colocar uma coroa de flores no túmulo de Camões. Feita a homenagem, marcou presença no banquete oficial de tomada de posse, regado a Pêra Manca, no Palácio de Queluz.

Os atos vespertinos do dia de tomada de posse foram duas audiências: uma com o então primeiro-ministro de Angola, Fernando Piedade dos Santos, e outra com o Presidente da República cabo-verdiano, Pedro Pires.

Marcelo na mesquita

Marcelo desceu a pé a Calçada da Estrela até à Assembleia da República para tomar posse. No dia em que se tornou Presidente da República de todos os portugueses, foi mais além nas homenagens a Portugal: homenageou com uma coroa de flores não só a cultura portuguesa, no túmulo de Camões, mas homenageou também os Descobrimentos com outro arranjo floral no túmulo de Vasco da Gama.

Chegou lá depois de uma vitória tranquila, até porque a esquerda decidiu não apoiar ninguém, nem mesmo Maria de Belém, histórica do PS, que acabou por ficar atrás de Marisa Matias, com António Sampaio da Nóvoa a alcançar o segundo lugar.

Já Presidente, Marcelo subiu a rampa para Belém sozinho, sem companheira nem filhos e seguiu-se uma cerimónia na Mesquita Central de Lisboa para destacar a necessidade de entendimento entre religiões e culturas que juntou, entre outros, o presidente da comunidade islâmica Abdool Vakil e o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

Apesar de ter criticado Jorge Sampaio por o fazer, Marcelo cumpriu a tradição de condecorar com o Grande Colar da Liberdade o Presidente cessante Cavaco Silva.

O dia terminou com presença marcada na primeira fila, juntamente com o então presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, para um concerto que juntou a fadista Mariza, que cantou A Portuguesa, José Cid e Anselmo Ralph.

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