Catarina Martins vs. André Ventura foi "ódio total"

29 nov, 00:02

Catarina Martins e André Ventura tinham um debate marcado. O que se passou a seguir foi definitivamente um frente a frente mas não propriamente um debate no sentido clássico - foi outra coisa qualquer (ao ponto de haver quem não soubesse encontrar uma palavra para especificar que coisa foi mesmo)

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Catarina Martins clarificou no fim do debate - se é que havia necessidade de o clarificar - que não foi um debate. E Catarina Martins começou ela própria por adjetivar o que tinha acabado de se passar: foi "um festival". “As notícias falsas estão a fazer com que os debates se transformem neste festival em que se fala pouco nos poderes presidenciais”, afirmou a candidata presidencial no fim do frente a frente das presidenciais mais feroz até agora. Minutos depois, o comentador da CNN Portugal António Costa tentou adjetivar o que se tinha passado mas não encontrou o adjetivo adequado: “Não sei se foi um festival ou o que foi”, disse. Outro comentador da CNN, Rui Calafate, optou por adjetivar as emoções - e encontrou duas palavras fortes: "Ódio total". Foi "ódio total".

Durante o frente a frente, Catarina Martins e André Ventura encontraram os seus próprios outros adjetivos: "tola", "má atriz", "racista", tonto”, "tonta", "absurdo" e afins. Outros adjetivos, estes de análise ao que se passou: o frente a frente foi ruidoso, confrontativo, duro, imprevisível, tenso e derivados afins. E abriu com a imigração em situação ilegal: Ventura pede mudanças de lei para acabar com "a imigração ilegal", algo que diz que foi potenciado por leis apoiadas pelo Bloco de Esquerda; Catarina Martins contrapôs que, se é "ilegal", se é imigração "ilegal", se é portanto "ilegal" então é porque já é contra a lei. E acrescentou: “O doutor Ventura diz imigrantes ilegais quando tem dois deputados na sua bancada que foram imigrantes ilegais”. Ventura: “Isso é falso. É falso. Está a dizer mentiras”. Sobre isso, sobre se é falso ou não: ver este fact check AQUI.

A antiga líder do Bloco de Esquerda invocou ainda a vitória portuguesa no Mundial de sub-17. "Ontem, por exemplo, nós celebrámos todos, julgo eu, a grande vitória dos sub-17. Aquele golo que nos deu a vitória foi de Anísio Cabral, que é filho de guineenses e nasceu em Portugal. Pela lei do dr. Ventura, ele nunca podia ser português. O dr. Ventura odeia Portugal."

Ventura socorreu-se entretanto de uma imagem de uma operação policial na Amadora: numa captura de ecrã imprimida numa folha A4, apareciam supostamente várias pessoas sem documentos e a residir em Portugal em situação ilegal. “Esta gente que está na imagem é ilegal e devia ir para sua casa. Foi você que permitiu que isto se tornasse no país de bandalheira que se tornou. Estes todos que estão cá ilegais é por vossa culpa. Culpa do PS, do Bloco de Esquerda e do PCP. Vocês têm a criminalidade nas vossas mãos.” Nota: das pessoas presentes na imagem exibida por André Ventura, a PSP deteve duas por estarem em situação ilegal no país, as demais não.

A tensão atingiu níveis pessoais quando Ventura atacou a vida profissional de Catarina Martins - que foi atriz antes de se dedicar à política. "Faça lá de atriz mais um bocado", disse Ventura. "Eu sei que gosta disso", acrescentou. Resposta: “André Ventura já tentou por duas vezes insultar-me por causa da minha profissão e por eu ter uma vida profissional antes de ser eleita. Quero dizer duas coisas: a primeira é que tenho muito orgulho de ter uma vida profissional antes de ser eleita e, em segundo, ninguém me menoriza por eu trabalhar com cultura ou arte antes de ser eleita. Estou convencida de que a cultura em Portugal e a arte em Portugal são das coisas mais importantes. Quem ama Portugal tem de amar cultura e arte, porque é isso que faz o conhecimento”.

Entretanto, Ventura virou o tema para a política internacional. "A adversária que eu tenho aqui à minha frente esteve contra a atribuição do Prémio Nobel da Paz e do prémio Sakharov da União Europeia à Maria Corina Machado, que é a grande opositora do regime de Nicolás Maduro na Venezuela. Sabe quem esteve contra isso? A Catarina Martins. Mais uma vez digo que é uma ótima atriz que consegue fingir e esconder. Diga-me lá que é mentira. Mesmo sendo mulher e defensora dos direitos humanos, a Catarina Martins esteve contra.”

Catarina Martins replicou: “Eu defendi que o prémio de direitos humanos da União Europeia fosse atribuído aos jornalistas que estão a cobrir o genocídio em Gaza, aos jornalistas que morreram. Achei que esse era o prémio que deveria ter sido dado.” Quanto à Venezuela: “Eu nunca estive num partido que estivesse a apoiar Maduro, como esteve o dr. Ventura. André Ventura fez parte do PSD, que sempre fez negócios com a Venezuela e sempre gostou muito do seu petróleo”. Ventura reagiu: “O quê? Você esteve de braços dados com o ‘PODEMOS’”.

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