Entre Seguro e Ventura, há ministros de Cavaco e Passos que tiveram uma decisão "fácil": "É a escolha do bom senso"

20 jan, 07:00
António José Seguro e André Ventura (Lusa)

Também o antigo número 2 de Ventura no Chega, e que foi um apoiante de Cotrim de Figueiredo nas presidenciais, se pronunciou sobre a segunda volta. Não votará em nenhum, nem Ventura, nem Seguro. "Por conhecer demasiado bem o André e porque são os dois socialistas, o André está a tornar-se num socialista"

Os antigos ministros de governos PSD Eduardo Catroga, José Silva Peneda ou Fernando Negrão já têm a certeza que vão votar em António José Seguro, o candidato apoiado pelo PS que vai disputar a segunda volta contra André Ventura na segunda volta das eleições presidenciais, a 8 de fevereiro. À CNN Portugal, referem que a decisão foi simples de tomar, mas não penalizam Luís Montenegro por ter escolhido um caminho diferente. “Percebo a sua posição tática, tem leis importantes que precisam dos apoios do Chega ou do PS para passar”, refere Peneda, responsável pela pasta do Trabalho e Segurança Social durante dois governos de Aníbal Cavaco Silva. 

O antigo governante, que pertenceu à Comissão de Honra da candidatura de Luís Marques Mendes - que também preferiu não apoiar nenhum candidato -, salienta que a opção foi “fácil” de tomar. “É a escolha do bom senso e do equilíbrio contra o radicalismo”, refere, apontando que “entende” a vontade do primeiro-ministro de não indicar qualquer apoio durante a segunda volta. Porém, destaca, “a nível de alguém que fez parte do governo de Francisco Sá Carneiro (foi secretário de Estado da Administração Regional e Local), e que pertence à raíz do PSD, é impossível não apoiar alguém que defende o Estado de Direito contra o radicalismo”. 

No mesmo sentido, Eduardo Catroga, ministro das Finanças do último governo de Cavaco Silva, refere que o país “precisa de estabilidade e de um Presidente da República que seja um senador”. Entre Ventura e Seguro, Catroga aponta que o último é o único nome capaz de “gerar consensos” e com um passado de “gestão e de funções políticas elevadas”. “Penso que o modelo de governabilidade deve estar no grande centrão e Seguro é o candidato desse espaço, tendo também mais senioridade” do que o líder do Chega.  

Ainda assim, vê com naturalidade a posição assumida pelo chefe do Executivo da AD. “O PSD é concorrente dos dois partidos que apoiam os candidatos à segunda volta, pelo que é normal que não se sinta representado”. “Acredito que, nesta altura, os líderes partidários devam abster-se e deixar os seus militantes votarem nas pessoas, e não nos partidos, que preferem”. 

Há quem acredite que Montenegro pode mudar de opinião

Discurso de vitória de Seguro na sua sede de campanha nas Caldas da Rainha

Já Fernando Negrão, ministro da Segurança Social no governo de Pedro Santana Lopes e depois ministro da Justiça no segundo governo de Pedro Passos Coelho - que durou apenas dias antes de a Geringonça se formar -, acredita que o primeiro-ministro pode vir a mudar a sua posição nas próximas três semanas, ainda antes de os portugueses serem novamente chamados às urnas. “A posição de Montenegro é de cautela, muita cautela. Porquê? Porque a estratégia para as presidenciais foi derrotada com a derrota de Luís Marques Mendes. Ainda estamos todos a quente, demasiado próximos do fim da primeira volta das presidenciais, e a decisão [de apoiar] pode mudar mais à frente. Veremos. Mas é preciso acautelar a governabilidade, a governabilidade exige uma atitude como a que tomou o primeiro-ministro”, esclarece.

Na primeira volta Negrão foi apoiante e mandatário distrital (em Setúbal) do almirante Henrique Gouveia e Melo. Agora, o também antigo deputado social-democrata, antigo líder da bancada parlamentar do PSD e antigo vice-presidente da Assembleia da Republica, declara, em entrevista à CNN Portugal, o apoio a António José Seguro na segunda volta das presidenciais. 

”O meu pensamento relativamente a esta segunda volta é o de que nós temos dois candidatos com características absolutamente distintas. Temos o candidato do Chega, que é o candidato que nós conhecemos com políticas radicais de direita e um populista - populista não só no discurso, mas também populista na ação. E temos, depois, um segundo candidato, que é Seguro, que é um candidato em quem confiamos ser um verdadeiro democrata e que é homem que é um amante da liberdade, um homem solidário com aqueles que verdadeiramente precisam”, diferencia Negrão. E, diferenciados os candidatos, apenas Seguro tem para si "características fundamentais para um Presidente da República”. “E é por isso que o meu voto é para António José Seguro”, reforça. 

Ainda assim, entre antigos ministros sociais-democratas há quem ainda ache “prematuro” avançar com um apoio a um dos dois candidatos. “Tudo tem o seu tempo”, responde, por exemplo Miguel Relvas, antigo responsável dos Assuntos Parlamentares no executivo de Passos Coelho. “Ainda não sei”, garante, por sua vez, Luís Mira Amaral, antigo ministro de três governos de Cavaco Silva, que foi apoiante de Marques Mendes nestas eleições. 

Risco de "fraturar ainda mais" o PSD

André Ventura discursa após confirmação de que passa à segunda volta

Mira Amaral, que acreditou até ao fim que Marques Mendes teria um melhor resultado do que Gouveia e Melo, enquadra a decisão de Montenegro em não endossar apoios com uma estratégia de evitar “um grande problema”. “Procurou não fraturar ainda mais o partido, que se dividiu completamente nestas eleições, especialmente entre Cotrim, Ventura e Gouveia e Melo”.

Ainda assim, alerta, a segunda volta não será “um passeio no parque” para Seguro, já que, no entender do antigo ministro da Indústria e da Energia, “a margem de apoios à esquerda já acabou e vale apenas mais 4%” e, “na ala mais à direita do PSD, percebo que haja alguns mais inconformistas que possam votar André Ventura”. 

Daí, aponta, “o apelo em massa aos moderados” que pautou o discurso de vitória de António José Seguro no ensaio ao voto útil. “Convido todos os democratas, progressistas e humanistas a juntarem-se a nós para derrotarmos o extremismo e quem semeia ódio”, sublinhou o candidato apoiado pelo PS nas Caldas da Rainha enquanto Ventura ainda cantava “vitória” e tentava colar Seguro à herança de José Sócrates e António Costa, responsabilizando-os pelo caos na imigração. “Seguro vai permitir que portas continuem abertas. Estas eleições também são sobre isso: imigrantes que vêm e as minorias que cá estão comigo vão ter de cumprir a lei”, disse o líder do Chega. 

Certo é que, entre líderes partidários, só à esquerda existiu um apoio nítido a Seguro, vindo de Jorge Pinto, que disse que "será por ele que Seguro será Presidente", e de Catarina Martins, que viu no antigo líder socialista a “resposta adequada à radicalização da direita”. À direita, Mendes e Cotrim não definiram qualquer apoio e Gouveia e Melo considerou ser ainda extemporâneo tomar uma decisão.

Para Fernando Negrão, mandatário da candidatura de Gouveia e Melo, é preciso esperar pelo “momento mais adequado” até o país perceber o que fará o almirante com os mais de 695 mil votos em si depositados. “Ele [Gouveia e Melo] não tem uma estrutura partidária que o apoie e que dê, enfim, a ancoragem necessária para tomar uma decisão com essa rapidez. Mas o que o almirante fez, ao dizer que falaria mais tarde, no momento que achasse mais adequado, parece-me que é da maior sensatez”, elogia Negrão.

Também contactado pela CNN Portugal, um apoiante de Cotrim, Paulo Sande, antigo diretor do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal e ex-consultor de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República, garante que votará “em Seguro”, não por ser “um mal menor”, mas por ser “um bem menor”. Apesar de tudo, a candidatura de Seguro é a que se “aproxima mais da de Cotrim, que é quem eu queria ver Presidente”. Já Ventura, para Paulo Sande, que em 2019 se apresentou como candidato independente pelo partido Aliança às eleições europeias, “corporiza outros interesses”, que não são os que o apoiante de Cotrim de Figueiredo “defende”. 

Fundador do Chega (e apoiante de Cotrim) não votará em Ventura. "Porque ele se está a tornar num socialista"

Nuno Afonso foi, com Ventura, fundador do Chega e militante n.º 2, um braço-direito do líder por largos anos. É um dos seus amigos, ou foi, mais antigos. Cresceram juntos nos subúrbios de Lisboa, embora vindos de classes sociais diferentes. Aliás, Ventura interessa-se primeiro por política, na juventude, através de Nuno Afonso, e do pai, Artur Afonso, antigo vice-presidente da Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins (de onde Ventura é, aliás, natural) e homem do PSD local. 

Afonso sai do Chega, em rotura com Ventura, em 2022, altura em que o partido lhe retira a “confiança política” como vereador em Sintra por este ter “desrespeitado”, no cargo, as orientações do partido. Acabaria por se desfilar em 2023, não sem antes ter criticado com fulgor Ventura e o Chega, que descreveu como “não democrático”, “autocrático” e “totalitário”. Em 2026, nas presidenciais, Nuno Afonso apareceu como apoiante de João Cotrim de Figueiredo. 

Na segunda volta, tendo de escolher entre Ventura ou Seguro, Nuno Afonso, em entrevista à CNN Portugal, começa por explicar porque não votará, “de certeza”, no primeiro. “Eu conheço demasiado bem o André [Ventura] e o interior do Chega e, portanto, tenho uma visão diferente da maior parte dos eleitores do partido. Quando nós começámos o Chega, nós éramos um partido conservador-liberal; liberal no sentido económico. Neste momento o André é pela nacionalziação de empresas, por exemplo, é a favor de taxar empresas que tenham mais lucros. Ele é cada vez mais, ou está a tornar-se, num socialista. Não me revejo nesse tipo de política. Portanto, não votarei em Ventura”, assegura. 

No entanto, e para falar de António José Seguro, “um tipo que poderei dizer empático, mas não carismático”, Nuno Afonso vai lembrar as delações de Cotrim no domingo eleitoral, quando assume a derrota: “Vou dizer o que Cotrim disse: os portugueses estão confrontados com duas escolhas que serão péssimas. O António José Seguro parece-me boa pessoa. Mas a verdade é que é um socialista também. Portugal não precisava de um presidente socialista, que é uma amarra ideológica”, defende. E, assim, o antigo número 2 do Chega e de André Ventura, “entre escolhas que são péssimas”, optará por “votar nulo”. E acrescenta: “Entre dois tipos são socialistas, não consigo sequer optar agora por um mal menor”.

Para Nuno Afonso, o partido que fundou com Ventura "já não é um partido conservador-liberal"

No entanto, um candidato, Ventura ou Seguro, será Presidente da República. Se vencer o que é mais favorito nas sondagens anteriores, António José Seguro, o que é que Nuno Afonso espera dele Presidente? “Seguro iria, se calhar, ser entrave às medidas que Portugal precisa de tomar, nomeadamente quanto à imigração. Ele terá, como já disse, essas amarras ideológicas [socialistas] e não fará o que Portugal neste momento precisa.” 

Mas e se Ventura surpreender e vencer à segunda volta? Aí, Nuno Afonso fala do interior. Do interior do partido e da cabeça de Ventura, que conhece como poucos. “Quanto ao André, e há pouca gente que acredita em mim, mas eu conheço-o bem, o que eu vejo é que nada iria mudar no Chega, nada o impede legalmente de ser Presidente da República e presidente do partido. Só há questões de ética, e isso ao André não interessa nada, mas questões legais, impedimentos legais, não existem”, começa por referir Nuno Afonso. 

Onde quer chegar é ao ponto de dizer que Ventura não pretende ser Presidente; pretende, sim, governar. Como? “Portanto, ele continuaria a mandar no partido até conseguir chegar ao poder absoluto, total. O que ele pretende é Governar, ser Presidente da República, eleger um Governo do Chega e governar ele - sendo convidado para presidir ao Conselho de Ministros. É ele que manda do Chega e tem o poder total. Ela fará o que quiser”, garante. 

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