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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Presidenciais: não é você, são eles

7 jan, 09:00

A campanha presidencial nasceu velha, perante a indiferença da Pátria. Há quem discuta direitos de propriedade sobre Sá Carneiro, há apelos mais ou menos desesperados ao voto útil. Há luta na lama, e vai aumentar. O desinteresse não é por culpa sua, mas de alguns deles. Contudo, esta é uma eleição importante e eleva-se quando vai a temas importantes

Perante a indiferença quase geral da Pátria, arrancou a campanha para as eleições presidenciais. Se não se tinha dado conta, saiba que o problema não é seu. É mesmo da campanha. Oficialmente começou agora, mas nasceu velha. O facto de a pré-campanha se arrastar há meses contribui para uma considerável indiferença. Já ouvimos todos os argumentos, conhecemos todos os truques, percebemos todas as ideias e, sobretudo, a sua ausência. O problema não é você, são eles.

Os debates esmiuçaram os recantos mais recônditos do pensamento dos candidatos (em havendo pensamento). Sabemos a sua posição sobre as funções do Presidente, dos deputados e do Governo. Sobre as questões que lhes dizem respeito e sobre aquelas em que não riscam coisa alguma – o sempre excêntrico André Ventura até promete que será ele a mandar no Governo. Conhecemos o seu passado. Se alguma coisa ficou por esclarecer, foi porque os candidatos optaram pela opacidade. O que, em si mesmo, não deixa de ser esclarecedor.

A qualidade média dos candidatos para o mais alto cargo do Estado não ajuda a entusiasmar os eleitores. E o desinteresse seria ainda maior sem a sondagem diária da TVI/CNN, que a cada dia reflete as ondulações do eleitorado, o que a seu tempo permitirá identificar tendências. Infelizmente, ao mesmo tempo que dizem o clássico “as sondagens valem o que valem”, os candidatos do pelotão da frente pouco têm feito para além de reagir às sondagens. 

É o nervosismo provocado pelas sondagens que leva Luís Marques Mendes e António José Seguro a lançar apelos lancinantes ao voto útil (no caso de Mendes), e à desqualificação dos candidatos mais à esquerda, pressionando para a sua desistência (no caso de Seguro). São as sondagens que levam Marques Mendes a trocar a sua alegada independência pelo apoio em peso do Governo, expondo-se ainda mais à acusação de, “com todo o respeito, [ser] uma marioneta de Luís Montenegro” (cito uma tirada do debate de ontem). Nesta operação de socorro a Mendes, até Cavaco veio ontem a jogo, na qualidade de guardião de São Sá Carneiro, apontando heresias a Cotrim Figueiredo, a Ventura e a Gouveia e Melo. Confesso que a discussão de quem tem direitos sobre a memória de Sá Carneiro não estava no meu bingo destas eleições. Nem o importante debate sobre quem gostaria mais de ter Passos Coelho ao seu lado. Mas Mendes, Cotrim, Ventura e Gouveia e Melo meteram-se por aí…

Só o nervosismo das sondagens pode explicar que no debate de ontem Gouveia e Melo, em resposta a uma pergunta sobre imigração, tenha atirado contra Seguro uma crítica feita há mais de dez anos por Mário Soares. Também acusou Seguro de estar rodeado de “costistas”. O socialista podia ter respondido que o almirante está rodeado de “tralha socrática” e de muito refugo do PSD, mas Seguro optou por “elevar o debate”.

As sondagens terão também levado Gouveia e Melo a voltar a lançar acusações não provadas sobre Marques Mendes. O “outsider” aprendeu depressa as regras da luta na lama. Mendes, ao contrário de Seguro, meteu-se na bulha. Talvez essa diferença explique a rota recente de ambos nas sondagens…

Coisas que importam

Haver coisas mais importantes a acontecer no mundo também explicará o desinteresse por esta campanha triste. Mas é precisamente por haver coisas de grande monta a acontecer no mundo que a política nacional importa. E as eleições presidenciais importam. 

Quem ocupará a chefia do Estado não é um pormenor nem é irrelevante. Os candidatos fazem pouco por si próprios, mas a realidade dá-lhes a hipótese de fazerem melhor. Uns aproveitam, outros não. Por exemplo: é bom registar como reagiram aos acontecimentos do fim de semana, com o golpe de Donald Trump na Venezuela.

Interessa-me pouco o que disseram sobre o assunto no debate de ontem à noite, já com a mensagem calibrada por focus groups e afinada por cálculos de toda a espécie. O que importa é a reação nas primeiras horas, quando era preciso posicionar-se entre o império da lei ou o aspirante a imperador-fora-da-lei do “hemisfério Ocidental” (expressão que só por si é uma anedota, e que só poderia ser elevada a alto conceito por gente como Donald Trump e os seus minions).

É essa reação, no dia de sábado – com as chamas ainda a arder em Caracas, Maduro em trânsito para os EUA, e Trump a assistir a tudo como um reality show – que nos diz bastante sobre as pessoas que se dispõem a jurar cumprir e fazer cumprir a Constituição.

Ensaio sobre a cegueira

Quase todos os candidatos condenaram o regime de Maduro, uma ditadura opressiva, violenta e cleptómana. Mas isso é tão óbvio como reconhecer que a Terra é redonda. Porém, tal como ainda existem terraplanistas, há quem poupe nas palavras para julgar Maduro – é o caso de António Filipe, o único candidato a quem não ouvi essa evidência. Nem ontem à noite foi capaz de reconhecer quem era Maduro. 

Nada de novo, já tinha sido assim com Putin. António Filipe, acompanhado pelo seu partido, não reconhece um ditador mesmo que lhe entre pela casa adentro – contando que seja um ditador “de esquerda”... 

A beleza de tirar as palas

Adiante. Só um candidato não apontou o dedo à “violação grosseira do direito internacional” por parte dos Estados Unidos, ao invadirem um Estado soberano para raptar o respetivo presidente. Pus entre aspas a expressão usada por João Cotrim Figueiredo, numa primeira declaração certeira. Cotrim, para além de apontar o ponto essencial deste caso – o precedente, que estabelece uma ordem mundial sem regras a não ser a lei do mais forte (facto evidenciado também por Catarina Martins, Jorge Pinto e António Filipe) –, demonstrou que é possível ir além das palas ideológicas. 

A IL nunca reconheceu a legitimidade de Maduro, e sempre se colocou do lado da oposição democrática ao regime venezuelano. Mas Cotrim não deixou de condenar o que é condenável: o ato ilegal ordenado por Trump. Não é uma fatalidade ver a esquerda a bater em Trump e a direita aplaudi-lo. 

A gaguez do centrão

Os candidatos do centrão demoraram a perceber a importância da clareza. Quando já era evidente o que se tinha passado, António José Seguro balbuciou meio pensamento sobre o direito internacional, mas apoiou-se na sua bengala de sempre: estava “preocupado”. Muito se preocupa Seguro…

Marques Mendes conseguiu ficar ainda mais longe de uma resposta que cumprisse os mínimos. Sendo o candidato oficial do Governo, repetiu a cartilha do Governo: Maduro era um bad hombre, ditador isto, democracia aquilo. Só após insistência dos jornalistas, Mendes soltou as palavras “violação do direito internacional”. Foi a saca-rolhas, mas ainda assim conseguiu dizer mais do que Paulo Rangel ou Luís Montenegro. 

Mendes ainda acrescentou que ficou “um pouco decepcionado” com Donald Trump. Um pouco. Decepcionado. A sua candura é comovente, mas a argúcia deixa a desejar.

O peixe dentro de água

Se algum candidato presidencial sair beneficiado com as “intenções benignas” de Trump (cito a declaração lamentável de Rangel)

será Gouveia e Melo. Quando a guerra é o estado da arte, e pode cair sobre qualquer um (parece que a seguir Trump quer tomar a Gronelândia, e oxalá não se lembre de meter também os Açores no bolso), um militar pode dar jeito. Por coincidência, há um almirante na reserva e antigo chefe do Estado Maior da Armada na corrida a Belém. No sábado, quando o impensável aconteceu, Henrique Gouveia e Melo teve apenas de lembrar que uma das razões originais da sua decisão de se candidatar foi o perigo representado pelo regresso de Trump à Casa Branca. Vamos a ver… e é mesmo verdade. Neste caso, o passado de Gouveia e Melo fala por si, de maneira clara e sem tibiezas, e fala sem necessidade de malabarismos à Rangel. Com o mundo fora dos eixos, a leitura geopolítica do almirante e a sua capacidade de trabalhar em estado de crise podem tornar-se competências decisivas.

One-trick pony

Segundo o Dicionário Cambridge, a expressão inglesa “one-trick pony” (que se pode traduzir livremente como “pónei de um truque só”) significa “alguém ou algo que só serve para um propósito específico ou só sabe fazer uma coisa”. Ocorreu-me essa expressão ao ouvir a reação de André Ventura no sábado. Resumindo: “ditadores” têm de ir “para a cadeia” e o direito internacional é "conversa de chacha”. Nota-se que Ventura aprendeu com Trump a repetir até à exaustão as mesmas frases de efeito, qualquer que seja o contexto. Nesta sua temporada política, tudo é “conversa de chacha”. E é cadeia para toda a gente, incluindo os ditadores maus (porque para o líder do Chega há ditaduras benignas)

Vinda de Ventura, esta aversão a ditadores surpreende. Ele, que tanto gosta do Sr. Orban (que, por sua vez, é compincha de Putin, outro ditador da melhor extracção). O próprio Ventura comporta-se no Chega como o ditador de serviço. Põe e dispõe do partido, faz e desfaz regras internas, persegue, tenta silenciar e/ou expulsa quem lhe faz frente ou uma pontinha de sombra. Mas, enfim, se a agremiação é dele, e está feliz com o ditador que tem, fica tudo no melhor dos mundos.

Mais grave é Ventura apresentar como programa político a exaltação da ditadura – é estranho que quem quer os ditadores “na cadeia” tenha tanto amor por Salazar ao ponto de suspirar pelo regresso, não de um, mas de três. Sem sugerir um Trump que o “extraia”.

Mais dez dias disto

Contando com esta quarta-feira, faltam dez dias de campanha. Provavelmente serão dias de questiúnculas, manobras sujas, mentiras e meias-verdades. Para alguns, será um campeonato de arremesso de acusações. Para outros, uma tentativa (veremos se inglória) de falar do que importa para o país. Convém não desesperar e tentar ver para além da poeira e ouvir por cima do ruído. Porque a escolha do próximo Presidente da República importa. Quer se escolha o melhor candidato ou o menos mau.

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