Um Presidente que seja ouvido

12 dez 2025, 06:30

A instabilidade e polarização política são um facto. Ouve-se pouco e, como consequência, planeia-se pouco e faz-se ainda menos. Já os portugueses vão ficando para trás: com um crescimento a mingar, o crescimento dos salários a travar e tantas reformas e obras públicas por concretizar. Os serviços públicos falham, os problemas não se resolvem e falta um desígnio para o país.

Os políticos não podem assobiar para o lado. Já basta que a extrema-direita tenha conseguido eleger 60 deputados. Temos de revalorizar o muito que se fez desde o 25 de abril, reiterar as oportunidades de que o país dispõe e falar direto às pessoas, sem o “politiquês” do costume. Temos de ouvir as zangas e cuidar das feridas da sociedade para que elas não se aprofundem e infetem.

Essa é, na verdade, uma responsabilidade não só dos eleitos, mas de todos os cidadãos. Todos fazem falta para regenerar a democracia e essa reconciliação com o passado e com o futuro do nosso país faz-se em todas as conversas, das maiores às mais pequenas. Como qualquer terapêutica, ela exige disciplina e rigor. É, por isso, surpreendente que o candidato militar a estas eleições presidenciais seja o primeiro a ceder à tentação do discurso anti-sistema, afirmando uma independência sebastiânica e redentora.

A Gouveia e Melo faltará, porventura, a noção plena das competências da função a que se candidata. Procura apresentar-se como um excelso “fazedor”, raro e solitário, desde a campanha de vacinas até ao papel que a Marinha desempenhou a apoiar o combate aos incêndios de 2017. Mas esse não é o papel de Presidente no nosso sistema político, desempenhando antes a famosa “magistratura de influência” para despertar, concertar, negociar e comprometer os agentes políticos e sociais. É, aliás, de registar a conveniente ocultação da história dessas duas missões do papel importantíssimo de diversas entidades, sejam elas municípios, Estado central, bombeiros, IPSS e até os seus próprios camaradas militares.

Reconhecer que trabalhou em equipa pode ser, para um velho narcisista, dividir o protagonismo. Para alguém que queira ser Presidente da República, é, sobretudo, valorizar as pessoas e as instituições que possam fazer do Palácio de Belém um pouco menos solitário e bastante mais consequente. Tanto Soares como Sampaio demonstraram bem o poder da Presidência como construtor de alianças, ora discreto ora assumido. Tal como Cavaco e Marcelo revelaram, um por silêncio sepulcral, o outro pela falta dele, o quão rápido um Presidente pode perder a sua relevância.

Não basta ser-se chefe de Estado para se ser líder. Pode-se ser apenas e só “chefe”, a ralhar muito, mas corrigir pouco. Se não bastasse o insólito caso da ida à Madeira para humilhar publicamente militares que queriam melhores condições para servir o país, Henrique Gouveia e Melo tem-nos premiado, desde as suas ligações à Maçonaria ao apoio de José Sócrates, com vários temas que, quando questionado, o tiram do sério.

Essa aceção desenfreada da autoridade até pode funcionar nos quartéis, mas em democracia é uma verdadeira caixa de Pandora. Porque a democracia exige que sejamos questionados e o país cresce quando o somos e quando aprendemos com isso. Fica a pergunta: com quem, sobre o quê e com que consequência se irritaria um Presidente Gouveia e Melo?

Em síntese, precisamos de um Presidente não só que oiça, mas, sobretudo, que seja ouvido. Isso exige experiência política, humildade e capacidade de negociação. Exige mais do que a pureza dos clamores ideológicos, muito mais até do que ser o astrólogo político mais ouvido do domingo à noite. É preciso a credibilidade e o saber fazer de um percurso de vida dedicado a construir pontes de ambos os lados das “barricadas”. É preciso o desprendimento de quem não se deslumbra com os corredores do poder e de quem aguentou manter-se longe da política quando a vida assim ditou.

Digo isto com o “à vontade” de quem esteve frontalmente contra a “abstenção violenta” de Seguro, o acordo que fez para reduzir o IRC, entre outras matérias. Seguro não se candidata a líder do PS. Não procuro que ele corporize através de Belém um reforçado líder da oposição. Nem quero que a sua candidatura seja uma qualquer experiência catártica de validação dos valores e ideais da Esquerda.

Procuro, sim, um Presidente que seja capaz de fazer pontes e firmar compromissos para defender os nossos direitos, o Estado Social e, sobretudo, esta democracia cada vez mais polarizada e incapaz de responder aos cidadãos. Procuro um Presidente sabedor da política, mas próximo da vida do cidadão comum, e plenamente livre de vaidades ou interesses. Alguém que fure a bolha em que está cada um. É em António José Seguro que podemos encontrar esse Presidente. Assim o saibamos eleger.

Miguel Costa Matos 
Secretário geral da JS e apoiante de Antonio José Seguro 

Opinião

Mais Opinião