João Cotrim de Figueiredo tem feito uma campanha, a vários títulos, notável. Goste-se ou não do candidato, concorde-se ou não com ele, seja qual for o resultado das eleições no próximo dia 18 de janeiro, Cotrim, de alguma forma, já fez história.
Claro que, no caminho realizado até aqui, contou com a ajuda preciosa de um adversário: Marques Mendes. O desgaste provocado no candidato da AD - para o qual Cotrim contribuiu -, pela ideia de que Marques Mendes é um facilitador de negócios e que se move na obscuridade entre a política e os negócios, parece estar a ser determinante, a fazer fé nas sondagens, para desviar muito do eleitorado natural de Mendes para o voto em Cotrim. Isto, para já não falar dos ódios viscerais que muitos laranjinhas têm a Mendes, quer do tempo em que foi líder do partido, quer dos anos que passou como comentador, durante os quais, para conquistar a capa de independente, teve de “bater” em muita gente que não lhe perdoa.
Mas nada disto retira mérito à campanha que João Cotrim de Figueiredo está a fazer. Partindo de uma base eleitoral de pouco mais de 5% - o resultado da IL nas últimas legislativas -, o candidato liberal conseguiu montar uma estratégia de campanha inteligente e moderna, mas também - e isto não é nada irrelevante - em muitos momentos foi o único que puxou para este debate presidencial temas como o crescimento económico, a demografia, a sustentabilidade da Segurança Social ou o futuro do trabalho. Tudo matérias fundamentais para o futuro do país.
A personalidade e a imagem do candidato, que numa eleição unipessoal são críticas, aliadas a uma estratégia de comunicação muito assente nas redes sociais, de irreverência e disrupção, foram paulatinamente colocando a candidatura de Cotrim de Figueiredo no patamar dos que podem passar à segunda volta, contrariando todas as expectativas, até mesmo as dos seus apoiantes, como explicou há uns dias José Miguel Júdice, na CNN Portugal. O voto útil dos democratas à direita passou a ter uma terceira via aberta, e isso é mérito de Cotrim de Figueiredo.
Mas, nesta estratégia de campanha, Cotrim - que eu considero um democrata - não resistiu a adoptar a estratégia dos populistas, como André Ventura. Aproveitando o clima instalado de “tiro ao jornalismo” e aos media nas redes sociais, Cotrim de Figueiredo decidiu que era boa ideia acicatar os eleitores contra jornalistas, comentadores, canais de televisão e empresas de sondagens. A tática não tem nada de moderna e nem sequer é original: sempre que não é convidado para algum debate, sempre que há uma sondagem menos positiva ou sempre que é criticado, João Cotrim de Figueiredo vem a correr para as redes sociais vitimizar-se. É a velha estratégia de Ventura de tentar transformar os jornalistas em atores políticos.
Isto vindo de alguém que até já foi diretor-geral de uma grande empresa de media - a Media Capital - e que, melhor do que ninguém, devia saber respeitar critérios editoriais, mesmo quando não concorda com eles, parece-me particularmente relevante. Se João Cotrim de Figueiredo for eleito Presidente da República, como atuará quando as notícias não lhe agradarem? Ou quando ler ou ouvir um comentário que lhe desagrade? Vai fazer um vídeo para as redes sociais a responder aos jornalistas e comentadores?
Em democracia, ninguém está acima da crítica. Muito menos os jornalistas e as empresas de comunicação social. Mas quando um político escolhe fazer dos media o seu adversário político, não está a dar um grande contributo ao regime. E o mundo, infelizmente, está cheio de exemplos desses. João Cotrim de Figueiredo - que, repito, considero um democrata - não precisava de ir por este caminho. Para isso já cá temos André Ventura, que, como está bem posicionado nas sondagens, curiosamente, deixou de ter razão de queixa dos media nesta campanha. Coincidências.