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Um centro-direita órfão de líder e uma segunda volta que pode trocar as voltas a Montenegro

20 jan, 08:00

O fraco resultado alcançado por Marques Mendes é a prova de que o eleitorado da AD está cada vez mais pulverizado. Nesta eleição, dispersou-se por cinco candidaturas: além do próprio, André Ventura, Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo e António José Seguro. Tendo em conta que a estratégia da campanha de Marques Mendes foi a de uma colagem total e absoluta ao Governo, com o primeiro-ministro a empenhar-se pessoalmente na campanha, fica claro que Luís Montenegro é, também, um dos grandes derrotados da noite.

Perante isto, numa segunda volta, o líder do PSD tinha uma de duas opções, nenhuma delas isenta de riscos e de consequências. Decidir manifestar apoio a um dos candidatos iria, certamente, desagradar a uma parte do eleitorado. Mas decidir não decidir - e, sobretudo, lavar as mãos desta eleição - pode ter um impacto ainda maior no futuro do PSD e é bem revelador do tipo de líder que Luís Montenegro é. 

Fingindo ser “a Suíça”, Montenegro deu, ainda assim, uma pista ao seu eleitorado: a segunda volta será disputada entre a esquerda e a direita do PSD. Podia, sem indicar o sentido de voto, ter dito que esta segunda volta é entre a moderação e o extremismo, entre a democracia as forças anti-democráticas ou entre a Constituição e quem a quer destruir. Mas Luís Montenegro não o quis dizer, e isso tem apenas uma explicação: cálculo político e alguma falta de coragem à mistura. 

Com esta posição, Montenegro prossegue, assim, uma estratégia de normalização de André Ventura, a mesma que tem seguido à frente do Governo do país. Não por convicção, não porque acredita que não devem existir linhas vermelhas, mas porque acha que é a melhor forma de esvaziar eleitoralmente o Chega e de se manter no poder. Ora, estas eleições presidenciais mostraram exatamente o contrário. Que enquanto o PSD não tiver um líder que assuma a liderança do espaço do centro-direita , o eleitorado andará ao Deus dará, e Ventura assumir-se-á cada vez mais como esse líder. 

Vale a pena olhar com atenção para os resultados desta primeira volta, pegar na calculadora e fazer contas à segunda volta. António José Seguro - com quase 1 milhão e 800 mil votos - conseguiu quase mais 400 mil votos que o PS nas últimas legislativas. Alguns vieram do PCP, do Livre e do Bloco, mas muitos vieram da AD. Até porque, no essencial, André Ventura conseguiu apenas reter o eleitorado do Chega nas últimas legislativas, tendo, mesmo assim, perdido quase 100 mil votos. 

Isto significa que, na segunda volta, há pelo menos 2,5 milhões de votos em discussão, dos quais 2,2 milhões são eleitores potenciais do centro-direita. E esse eleitorado que anda desorientado, à procura de alguém que o represente, ouviu o líder do PSD dizer que era indiferente votar Seguro ou votar Ventura.

Estou convencido de que António José Seguro vencerá a segunda volta, mas engana-se quem pensa que vão ser favas contadas. Entre os eleitores anti-sistema que votaram em Gouveia e Melo e os jovens que votaram em Cotrim de Figueiredo, André Ventura tem um eleitorado potencial muito significativo para conquistar. Não deixa, aliás, de ser irónico que o Almirante, que durante a campanha dizia representar o espaço socialista, precise agora de tempo para pensar a quem declara apoio. Ou que Cotrim, que não sabia onde estava com a cabeça quando admitiu votar em André Ventura numa segunda volta, agora não seja claro. 

No fundo, Montenegro, Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo parecem estar a responder positivamente ao apelo de André Ventura no final da campanha para que as forças políticas do centro-direita não fossem um entrave à sua eleição. E não estão a ser, de facto. Mas se, para o Almirante e para Cotrim, isso não tem qualquer espécie de consequência no futuro, para o PSD de Montenegro a fatura pode vir a ser pesada. 

A maior fatia de eleitorado do país fará uma escolha nesta segunda volta. Mesmo que António José Seguro vença, Ventura reforçará a sua votação e usará esse “poder” para se assumir - como já o começou a fazer - como líder da direita. A tentação para fazer cair o Governo será grande. E quando Luís Montenegro precisar dos votos que agora deixou abandonados, pode já ser tarde demais. A não ser que comece a Governar. Mas isso fica para o próximo artigo. 

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