Almirante continua a liderar as sondagens, mas há problemas na navegação até aqui tranquila. Três deles são conhecidos, um outro pode mesmo baralhar todo o esquema
Há um candidato que continua lançado para ser o próximo Presidente da República, mas o xadrez começa a mudar e a surpresa dos últimos dias pode baralhar as contas todas da sucessão a Marcelo Rebelo de Sousa, que continua a ter um nome forte à frente de todos os outros.
Vamos pôr o suspense de lado: Henrique Gouveia e Melo vai ser eleito numa segunda volta contra Luís Marques Mendes. É isso que diz a mais recente sondagem da Aximage para a TVI, CNN Portugal e jornal Nascer do Sol, e é também isso que o professor de Ciência Política José Filipe Pinto antecipa que vai acontecer.
Mas isto é o cenário atual, que não conta com um fator que esta semana foi atirado assim de repente para cima da mesa. Falamos de uma candidatura do atual presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, que está mesmo a ponderar avançar para Belém, o que pode criar uma confusão que complica as contas de quase todos os candidatos com aspirações.
Entre esses, José Filipe Pinto entende que Marques Mendes é o mais prejudicado, mas Gouveia e Melo também pode levar por tabela com a entrada de um autarca que granjeou muita popularidade e que até pode, no entender do professor universitário, vir a disputar a eleição à segunda volta.
“A grande alteração poderá ser Rui Moreira, que passa a ter uma clara hipótese de também passar à segunda volta. Se passar, consegue captar votos à direita, centro e até na esquerda radical”, indica à CNN Portugal o professor catedrático.
Baralha Rui Moreira e baralham os outros todos, nomeadamente João Cotrim de Figueiredo e o putativo candidato do Chega. O primeiro está a ganhar força dentro da Iniciativa Liberal, mas também tem peso fora do partido, enquanto o Chega, agora a segunda força política, ainda não tem um candidato oficial, não se sabendo sequer se vai ter.
José Filipe Pinto não acredita que André Ventura avance para uma candidatura - “perfila-se como candidato a futuro primeiro-ministro” -, mas “qualquer figura apoiada pelo Chega poderá alterar um pouco o equilíbrio”, mesmo que não tenha a mesma “capacidade de mobilização” do presidente do partido.
Gouveia e Melo x3
José Filipe Pinto vê uma queda na popularidade do almirante que ficou conhecido por coordenar o programa de vacinação contra a covid-19. Uma quebra que ainda não se nota nesta sondagem - mesmo que haja uma quebra de dois pontos percentuais em relação à última -, mas que existe.
E para José Filipe Pinto há três elementos que explicam esta aparente tendência: a ligação de Gouveia e Melo à Maçonaria, o necessário aumento da exposição pública e o resultado das últimas eleições legislativas. Na dimensão que lhe for possível, é por aqui que o candidato pode mudar.
Mesmo que o almirante tenha dito que preferia comer vitela a secretos durante um almoço, a colagem da sua figura à Maçonaria já é difícil de desaparecer. José Filipe Pinto nota que, mesmo não sendo membro, Gouveia e Melo “acabou por ficar conotado”, o que o prejudica perante um eleitorado que está a valorizar a “transparência” e não quer continuar a ver a política como um “clube de elitistas”.
Mais dependente de si, e algo que não está, pelo menos para já, a correr tão bem, são os discursos. O professor universitário vê no candidato uma “falta de pensamento político”, mesmo que exista todo um aparelho de assessores e apoios de peso - Rui Rio é o mandatário, por exemplo.
“A verdade é que o discurso não é mobilizador, acaba por passar a imagem de não ser ele o autor do discurso. Quase que está a aprender a ser político”, assinala o professor universitário.
E a também professora universitária Paula do Espírito Santo concorda, vendo um falhanço de Gouveia e Melo em marcar a agenda. Pior do que isso, “quando marca acaba por fazê-lo com pouca substância”, como aconteceu em relação à lei dos estrangeiros.
A professora do Instituto de Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) nota “que o conhecimento e a substância dos comentários acabam por ser mais fortes e persuasivos” nos candidatos que vêm da política, particularmente de Marques Mendes e de Seguro. Mas já lá vamos.
A razão para este aparente menor entusiasmo - que continua sem se refletir totalmente nas sondagens, mesmo com a tal ligeira quebra - pode estar, na ótica de Paula do Espírito Santo, numa intervenção que Gouveia e Melo teve a 10 de junho.
À mesma hora que Marcelo Rebelo de Sousa discursava em Lagos, o homem que lhe quer suceder participava num encontro em Lisboa com antigos combatentes. Mas esse evento acabou com insultos de traição ao almirante, que se colocou ao lado de figuras como o sheik David Munir. Questionado sobre a escolha por marcar presença num sítio e não no outro, Gouveia e Melo limitou-se a dizer que há muito que segue esta cerimónia.
“Não deixou que fosse o tempo da comemoração e acabou por utilizar esse mesmo período, de duas a três horas, para fazer campanha”, sublinha Paula do Espírito Santo, que fala em “pequenos nadas que acabam por ir pesando na forma como se vai projetando o que se espera do Presidente da República”.
É que o 10 de Junho é um dia “suprapartidário, sociopolítico”, pelo que o aparecimento de alguém que não tem, atualmente, qualquer cargo de responsabilidade no Estado pode parecer estranho.
Antes disso, outro pequeno “ruído” do candidato presidencial: depois de meses a fio em ruído branco, onde pouco mais fez que afirmar-se entre o socialismo e a social-democracia, Gouveia e Melo escolheu confirmar a sua candidatura a quatro dias das eleições legislativas. Isto depois de ter passado semanas a dizer que era aquele o sufrágio mais importante.
“Entrou com uma expectativa enorme, porque geria os silêncios. Depois anunciou a candidatura mesmo antes de terminar a campanha, quando uns meses antes dizia que não queria interferir. Quando entrou, entrou em grande, com muitos apoios, mas não conseguiu manter a expectativa”, remata Paula do Espírito Santo.
No fundo, como diz José Filipe Pinto, Gouveia e Melo pode estar a perder a “auréola” que ganhou durante o plano de vacinação. É que as pessoas vão lembrar-se que o plano “não foi traçado por ele”.
“Implementou-o, mas não o desenhou. Deu-lhe um toque de autoritarismo, numa postura que o penaliza”, acrescenta o professor universitário, que vê uma necessidade de alterar o discurso e a imagem. Primeiro para transformar o “ar de autoritário”, depois para “explicar que tem pensamento político”.
Seguro a aparecer
Se Gouveia e Melo tem capacidade de liderança, isso pode-se ter tornado num handicap, já que a sociedade apresenta vários temas fraturantes, como a questão de Loures, a imigração ou a nacionalidade.
Paula do Espírito Santo vê em Marques Mendes e em Seguro o que falta ao almirante: “Convicção nos argumentos que têm alguma emoção e paixão política.” As pessoas não ficam indiferentes a isso, assinala, referindo que se procura sempre num Presidente da República alguém que consegue “gerar entusiasmo” e não ande apenas a reboque.
E se Marques Mendes parece estabilizar a sua candidatura, mantendo-se sempre pelos mesmos valores nas intenções de voto, Seguro está a começar a descolar, mesmo que pareça ter dificuldades de afirmação onde ideologicamente joga em casa.
Pois, o PS continua a não ter candidato presidencial e no Largo do Rato começam a aparecer fantasmas de anos passados. Como aconteceu com Mário Soares e Manuel Alegre, ou mais tarde com António Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, os socialistas podem voltar a ter duas candidaturas, mesmo que só uma seja oficial, correndo sérios riscos de voltar a não eleger um Presidente da República - a última vez que o conseguiram foi com Jorge Sampaio em 2001.
José Filipe Pinto nota que Seguro goza de uma boa opinião pública, mesmo que no PS tenham tentado “desvalorizar” a sua candidatura, procurando lançar nomes que nunca se confirmaram - aconteceu com António Vitorino, com Augusto Santos Silva e está a acontecer com Sampaio da Nóvoa.
“O eleitorado não esquece a forma como Seguro foi apeado do poder no seu partido. Por isso mesmo há uma simpatia no ar, que ultrapassa o próprio PS”, acrescenta o professor universitário.
É que Seguro foi um crítico de José Sócrates, acabou por perder para António Costa e nunca foi bem visto no partido desde então. Para José Luís Carneiro há então a dúvida: apoia o melhor candidato da sua área, mas corre o risco de chatear gente no seu partido, ou apresenta um candidato que ainda ninguém sabe quem é e pode perder até para o próprio Seguro?
É um candidato que vai “ganhando notoriedade e reconhecimento público”, enquanto também caminha num espaço político em que não tem concorrente, refere Paula do Espírito Santo, que vê como benéfica a “descolagem” feita em relação ao PS dos últimos 20 anos ou a qualquer uma das suas correntes.
É o tal dilema de Carneiro. “A liderança [do PS] não pode correr o risco de apoiar Seguro e depois aparecer outra candidatura que vai ter oposição interna”, aponta a professora universitária, que acredita que o apoio ao antigo secretário-geral socialista acabará por avançar se mais ninguém aparecer.
