Num debate entre candidatos em polos opostos, Cotrim Figueiredo colou António Filipe ao legado da Geringonça ao mesmo tempo que o ex-deputado comunista denunciou o "apoio quase entusiástico" do antigo líder dos liberais às alterações na legislação laboral que o Governo pretende introduzir
Num debate presidencial entre candidatos com visões totalmente antagónicas, António Filipe chegou a ficar surpreendido quando ouviu da boca do seu oponente, João Cotrim Figueiredo, que “surpreendentemente vamos estar de acordo em algumas ideias aqui”. Naquilo que foi um raro instante de convergência num frente-a-frente marcado por opiniões profundamente distintas sobre economia, o Euro, ou relações laborais, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal afirmou concordar com o antigo deputado comunista no sentido de ser necessário “mais emprego e mais salários”.
E, enquanto ouviu António Filipe a elogiar a sua “grande evolução”, Cotrim disparou contra a ideia do PCP de que “os salários aumentam-se, aumentando”. “Por decreto? Então como se faz? Havendo alternativas de emprego aí é que o seu poder negocial sobe”. “Essa ideia de que os empregadores olham para os empregados como um custo, é uma ideia do século XVIII”.
O tema laboral dominou boa parte do confronto. António Filipe insistiu numa resposta para o aumento dos salários ancorado na "valorização da contratação coletiva", recordou que o Código do Trabalho de 2003 já sofreu “24 alterações em sentido desfavorável aos trabalhadores” e sublinhou que “dois milhões e meio de trabalhadores não levam mil euros para casa”.
Partindo para as críticas ao anteprojeto da reforma laboral que o Governo tem em curso, António Filipe apontou que Cotrim “já manifestou o seu apoio quase entusiástico” no sentido da “precarização eterna, o ataque às mães trabalhadoras e de permitir que, após um despedimento coletivo, a empresa recorra ao outsourcing”.
Os liberais deste país, continuou António Filipe, “o que no fundo estão a fazer é vender ideias bafientas do Século XIX como fossem modernidades”. “Ideias bafientas do século XIX vindas de António Filipe… isso é claramente ofensivo”, respondeu o candidato liberal.
Num debate em que Cotrim Figueiredo não deixou cair o ataque ao PCP no plano constitucional, o candidato referiu que o seu oponente “pertence a um partido que ponderou fazer um referendo à saída do Euro - um incumprimento específico da Constituição. Vai jurar uma Constituição em que não acredita, a menos que me diga que o PCP, de repente, já defende a permanência na UE ou na NATO. Isso seria a parangona do dia.”
Já António Filipe respondeu garantindo que as posições de Cotrim se baseiam em pressupostos errados. “O João Cotrim Figueiredo diz que eu defendo a saída da NATO e da UE - devia ter visto os meus anteriores debates para perceber que não defendo nada disso”, afirmou. Sobre o referendo, esclareceu: “O PCP queria fazer um referendo para sair do Euro? Sabe que esse referendo não é possível. O que defendi foi que a ratificação dos tratados relativos à UE deve ser submetida a referendo.”
O candidato comunista devolveu ainda a crítica sobre o percurso político dos últimos anos: “Creio que o João Cotrim Figueiredo apoiou mais governos do que eu. O que eu apoiei foi o afastamento da troika.”
Cotrim Figueiredo, no entanto, reforçou a ideia de que o desempenho político de António Filipe durante os anos da Geringonça não lhe permite reclamar agora autoridade para corrigir problemas que, afirma, se agravaram no período em que a esquerda teve influência governativa. “António Filipe já teve oportunidade de viabilizar governos da Geringonça e de passar seis orçamentos e, durante esse período, a imigração passou de ser um tema para um problema, a habitação que era um problema passou a ser uma crise, e a saúde passou a ser um caos”. “É difícil que António Filipe, quando esteve perto do poder executivo não tenha conseguido fazer qualquer espécie de diferença, e que seja a partir do Palácio de Belém que ache que vai conseguir”.
Questionados sobre que tipo de reformas defendem no Serviço Nacional de Saúde (SNS) perante os problemas no setor, Cotrim Figueiredo defendeu o modelo que constava da lei de bases que o seu partido propôs, dizendo que para si é “igual que o prestador seja público, privado ou cooperativo”.
“Os doentes é que teriam de estar no centro do sistema”, afirmou, avisando que quando o SNS falha “são os privados que mais ganham” e dizendo que seriam estes prestadores “os maiores opositores” desta mudança. “O que se está a passar no SNS é resultado de políticas neoliberais na saúde”, acusou António Filipe, avisado que teria de ser o Estado a financiar os privados na visão do seu adversário, e contrapondo que o necessário é reforçar o investimento no SNS.
No capítulo da Defesa, João Cotrim Figueiredo disse ser contra a ideia de reforçar o serviço militar voluntário e das estruturas de reserva à luz do aumento do orçamento da NATO. Considerou que “não faz enorme sentido”, argumentando que a evolução tecnológica e cibernética da guerra não se “compadece com serviços militares voluntários de pessoas com pouca experiência”.
Já António Filipe apresentou uma leitura distinta do problema, centrando-se na dificuldade em atrair jovens para as Forças Armadas. Defendeu que o país enfrenta “um problema de falta de atratividade”, sublinhando que as carreiras oferecidas aos jovens “os condenam ao desemprego no fim do contrato”. “Temos de olhar para o que precisamos e não para aquilo que nos queira ser imposto de fora”.