Estas eleições presidenciais apresentam-se como uma espécie de paradoxo para o eleitorado
Nunca houve tanta escolha e nunca foi tão difícil escolher. Se, à esquerda, nenhuma candidatura parece ser suficientemente mobilizadora — como foram as de Mário Soares ou de Jorge Sampaio —, à direita, a divisão do eleitorado torna ainda mais óbvio que nenhum dos candidatos é uma escolha natural para ser Presidente da República — como foram, no passado, Cavaco Silva ou Marcelo Rebelo de Sousa. É isso que explica que estejamos na iminência de, pela segunda vez na história da democracia, termos uma segunda volta, tal como aconteceu em 1986.
É também isso que explica que António José Seguro e Marques Mendes tenham colocado, tão cedo nesta campanha, o tema do voto útil em cima da mesa. O receio, fundado, de não serem capazes de agregar sozinhos o eleitorado dos partidos que os apoiam — menos ainda, valerem mais do que esse eleitorado — explica este apelo precoce, e quase desesperado, para que possam ser eles e não outros a ir a uma segunda volta.
Neste momento, André Ventura parece ser o único candidato capaz de fidelizar o eleitorado do seu partido. Tal como explicou Fernando Medina de forma muito eloquente, essa é, aliás, a principal razão da sua candidatura à Presidência. Não é a vontade de ser Presidente, nem a vontade de cumprir e fazer cumprir a Constituição. É, apenas e só, o medo de que Henrique Gouveia e Melo lhe roube o eleitorado.
E esse risco era real. Há um ano, por esta altura, estas presidenciais pareciam ser um passeio no parque para Gouveia e Melo, em grande medida porque o Almirante surgia como um candidato anti-sistema, muito mais palatável do que André Ventura. A autoridade ia ao encontro dos desiludidos com os políticos do sistema, a ordem e a organização respondiam aos que consideram que o país é uma bandalheira, e a gravitas de um homem de farda, alto, de cara séria, funcionava como íman que parecia capaz de atrair eleitorado vindo de todo o espectro político.
O início desta queda acelerada de Gouveia e Melo nas sondagens surge no momento em que André Ventura decide avançar com uma candidatura a Belém. E não foi por se ter desiludido com as posições do Almirante que Ventura avançou. Foi por receio de que o seu eleitorado — sim, seu e não do Chega — lhe começasse a escapar das mãos.
Com a chegada de André Ventura à corrida presidencial, Henrique Gouveia e Melo perdeu espaço como candidato anti-sistema — como provam todas as sondagens — e passou a precisar do sistema — ou dos seus eleitores — para poder aspirar a ser Presidente da República. As curvas e contracurvas que foi percorrendo, antes e, sobretudo, durante os debates televisivos, foram uma espécie de tentativa de pesca por arrasto nos eleitorados do PS e do PSD.
É, de facto, neste centrão que se vão decidir as próximas eleições presidenciais. Se António José Seguro não conseguir mobilizar o eleitorado do PS e Marques Mendes não conseguir agarrar o da AD, abre-se uma janela de oportunidade — mais à direita do que à esquerda — para outros candidatos disputarem esse eleitorado. Isso tornou Marques Mendes numa espécie de incumbente destas eleições. Não só por ser apoiado pela coligação que está no Governo, mas porque qualquer outro candidato, para poder ir à segunda volta, tem de tirar Mendes da frente.
João Cotrim de Figueiredo foi o primeiro a perceber isso e também por isso foi o primeiro a definir Marques Mendes como o seu alvo principal. Apesar de os debates não lhe terem corrido especialmente bem, a campanha que tem feito tem sido, sobretudo, marcada pela eficácia, quer na definição dos eleitorados, quer na forma como comunica com eles.
Para não perder uma batalha que parecia ganha, Henrique Gouveia e Melo tinha de fazer alguma coisa. E fez. Apanhou a boleia de Cotrim de Figueiredo, estabeleceu prioridades e apontou a Marques Mendes, como a única forma de conseguir garantir uma passagem à segunda volta. Se é uma boa estratégia e se ainda vai a tempo, os eleitores o dirão. Mas, de facto, a Gouveia e Melo não resta outra alternativa que não seja tentar roubar aquele eleitorado.
As próximas duas semanas vão ser marcadas por uma dramatização crescente do discurso dos candidatos, entre apelos ao voto útil e o combate à utilidade dos votos nos candidatos do bloco central. A segunda volta será uma outra eleição, completamente diferente, sobretudo se se confirmar a passagem de André Ventura. Mas, para já, a grande conclusão desta campanha é a de que o eleitorado tem mais claro em quem é que não quer votar do que em quem quer ver como Presidente da República.