Portugal tem responsabilidades específicas. A sua posição geoestratégica no Atlântico, os laços históricos com África e América Latina e a sua pertença ativa à União Europeia conferem-lhe um papel de charneira entre mundos
A eleição presidencial portuguesa ocorre num momento particularmente sensível para a política internacional e para a posição de Portugal no mundo e a escolha do próximo Presidente da República não será apenas um gesto simbólico ou protocolar. Será um ato estratégico com impacto direto na capacidade do país de enfrentar os novos desafios do século XXI.
O próximo chefe de Estado terá de ser mais do que um garante da Constituição, mas afirmar-se como voz firme na defesa da legalidade internacional, da soberania dos Estados e da centralidade dos direitos humanos. O palco internacional exige clareza, consistência e sobriedade, porque a vaga de autoritarismo, a desvalorização das normas multilaterais e o colapso da diplomacia tradicional impõem uma liderança que não ceda ao ruído populista nem à tentação do silêncio conveniente.
E Portugal tem responsabilidades específicas. A sua posição geoestratégica no Atlântico, os laços históricos com África e América Latina e a sua pertença ativa à União Europeia conferem-lhe um papel de charneira entre mundos. Perante a atual crise na Venezuela, Portugal não pode limitar-se à neutralidade cautelosa. Como país fundador da CPLP e com uma diáspora venezuelana significativa, tem o dever de contribuir para soluções pacíficas que respeitem a autodeterminação dos povos.
O mesmo se aplica à crescente tensão no Ártico e este novo tabuleiro global, onde o poder se mede em recursos, território e influência militar. Portugal deve defender uma Europa que não se limite a reagir, mas que saiba antecipar e agir. A Europa precisa de uma bússola estratégica. Portugal, mesmo sendo pequeno, pode ajudar a calibrá-la.
A captura de Nicolás Maduro, um horrível torcionário, por forças norte-americanas, sem mandato internacional, e o discurso de Washington sobre “governar” temporariamente a Venezuela abre um cenário de imprevisibilidade que não pode ser simplesmente ignorado na esperança de que tudo corra bem. A simultânea pressão sobre a Groenlândia, lança um sinal perigoso sobre a disposição de certas potências em ignorar regras para proteger interesses.
A ordem internacional baseada em regras, por imperfeita que seja, encontra-se em risco. Portugal e a Europa não podem pactuar com este declínio das normas. Têm de reagir, com diplomacia firme, com alianças sustentáveis e com liderança moral.
É neste enquadramento que devemos ler a eleição presidencial. Não é tempo de improvisações nem de figuras decorativas. A próxima Presidência terá de ser moderadora, mas não passiva. Precisa de autoridade política, inteligência estratégica e capacidade de comunicação e não pode ceder à tentação do populismo fácil, venha ele da esquerda radical ou da direita autoritária.
Portugal precisa de um Presidente que compreenda o mundo e o lugar do país nele. Um Presidente que respeite o pluralismo, que defenda os princípios constitucionais e que saiba dizer não à demagogia. Num tempo em que o mundo se torna mais instável, o nosso voto deve ser um ato de responsabilidade, não de protesto e onde a estabilidade, a justiça e o respeito pelas instituições não são dados adquiridos. São conquistas a preservar. E isso começa na escolha que fizermos nas urnas.