André Ventura tem usado o "socialismo" como eixo central da sua campanha presidencial para atacar António José Seguro, mas historiadores e politólogos rejeitam essa leitura, lembrando que Portugal nunca foi um Estado socialista. Segundo os especialistas, o líder do Chega utiliza o termo de forma ambígua e estratégica
Quase como uma bola num jogo, a palavra “socialismo” tem sido arremessada durante a campanha presidencial. Mas é no discurso de André Ventura que ganha destaque como argumento principal para desincentivar ao voto no adversário, António José Seguro.
O candidato apoiado pelo Chega, e também presidente do partido, faz da “rutura do socialismo” uma das suas bandeiras, no entanto, explica à CNN a historiadora Raquel Varela, “Portugal nunca foi um Estado socialista”.
Apesar de se ramificar em várias correntes, o socialismo implica o “controlo público dos meios de produção, democracia no trabalho, bem como amplas liberdades individuais”, sublinha a investigadora, que recorda o período revolucionário como a única altura em que o socialismo se afigurou como uma possibilidade real: “Houve uma disputa entre socialismo e capitalismo em 1974 e 1975, que foi derrotada no 25 de Novembro - desde o seu Estado moderno, Portugal foi sempre um Estado capitalista.”
Para o historiador Manuel Loff, a ideia de que o socialismo vigora em Portugal há anos “é um disparate monumental”. “Se considerarmos o período revolucionário dos anos de 1974 e 1976, o projeto e a agenda económica e social da Constituição de 1976, na qual se dizia que Portugal estava empenhado na construção de uma via portuguesa para o socialismo, aí é possível falar em socialismo”, esclarece.
Se a ideologia política que nasceu no século XIX se centrava então na propriedade pública dos meios de produção “ou daqueles que neles trabalham ou do Estado e geridas por ele”, a história é outra nos séculos XX e XXI, sublinha o historiador, com a predominância do socialismo da social-democracia, que consiste na “preservação de um conjunto de serviços públicos, já não de um setor empresarial do Estado”.
“Na perspetiva das sociais-democracias dos nossos dias - muito liberais - o Estado praticamente não tem participação no mundo económico como tal, mas preserva nas suas mãos o essencial dos serviços públicos no campo das grandes políticas democráticas, universais: Educação, Segurança Social, Saúde”, continua.
É nesta última corrente do socialismo que se enquadra Portugal. “No Portugal de 2026 sobrevivem aspetos da política social-democrata do século XX”, apesar de todos estarem “muito degradados e sob ataque”, considera Manuel Loff.
Para Bruno Ferreira Costa, politólogo e professor de Ciência Política, o presidente do Chega refere-se a uma linha “mais dura, mais estrutural, mais histórica”: o socialismo marxista-leninista. “Não ataca necessariamente a social-democracia europeia”, porque essa, acrescenta, está “próxima de vários dos seus posicionamentos”.
De resto, está mesmo próxima de Francisco Sá Carneiro, o malogrado primeiro-ministro que toda a direita relembra e que André Ventura já assumiu ser um modelo. Quando no Governo, o então líder do PSD seguia essa mesma filosofia, de uma social-democracia nórdica popularizada lá fora por nomes como Olof Palme, o histórico primeiro-ministro da Suécia.
A proximidade a que se refere o politólogo é “programática” e não ideológica, tendo em conta que em determinadas votações no Parlamento o Chega votou ao lado dos Socialistas. O partido de André Ventura “aprovou várias medidas que significam uma maior carga orçamental para o Estado, obviamente sempre com a narrativa de que são mais benéficas para as famílias”, lembra Bruno Ferreira Costa, acrescentando que o argumento do despesismo associado ao socialismo “cai assim por terra”.
“Não podem dizer que são diferentes ou que são contra o socialismo quando se aliam ao PS em várias tomadas de posição”, argumenta.
O candidato apoiado pelo Chega pode mesmo estar a “jogar numa dupla vertente”, analisa o historiador Riccardo Marchi. Ao mesmo tempo que faz do socialismo a sua arma de arremesso contra o adversário, André Ventura “defende muitas medidas de proteção das camadas mais desfavorecidas, que vêm da sua tradição de social-democrata, que aprendeu na sua formação católica”.
O próprio presidente do CDS-PP, Nuno Melo, associou André Ventura ao socialismo, argumentando que o Chega defende aumentos de impostos e “um Estado a dar tudo a todos”, ainda que o tenha feito “obviamente no âmbito da retórica e da luta política per si”, reforça o politólogo.
Outra hipótese é a de que o presidente do Chega se esteja a referir ao “socialismo do Estado burocrático e pesado” - e à ocupação dessa máquina por parte do Partido Socialista, principalmente. “Isto de facto existiu: o Estado pesado controlado pelo partido”, considera Riccardo Marchi, garantindo que André Ventura tem mimetizado uma retórica que “sempre existiu” na direita portuguesa.
“Os partidos tradicionais - PSD, CDS, e a Iniciativa Liberal quando entrou no Parlamento - sempre utilizaram o termo socialismo para indicar toda uma área de esquerda em Portugal que determinou as políticas económicas desde 1976, o famoso preâmbulo com o caminho para a construção do socialismo em Portugal”, salienta.
A ideia de que havia forças políticas de esquerda a impor um modelo económico com uma forte presença do Estado foi o grande foco do centro-direita que se dizia reformista e liberal, diz o investigador. Até porque, desde o primeiro Governo da Aliança Democrática, em 1980, “o centro-direita focou-se em desmantelar, no sentido de reformar, com as várias revisões constitucionais que ocorreram ao longo dos anos, exatamente para desarticular este projeto socialista do Estado pesado”.
Fica claro, segundo Riccardo Marchi, que o líder do Chega “não está a falar do socialismo cubano ou venezuelano, de Chávez ou de Maduro”, no qual o Estado “se ocupa de tudo”, com uma presença forte na economia e junto das camadas populacionais mais desfavorecidas. “Na Europa isso nunca foi implementado”, lembra o especialista, sublinhando que todos os partidos socialistas históricos europeus tiveram uma viragem para a social-democracia.
“Quando ele usa a palavra socialismo não está a recuperar imagens históricas. A lógica de André Ventura não é apresentar um António José Seguro chavista, é apresentar uma área que sempre teve resistência à liberalização, principalmente em questões económicas”, afirma.
Visão "minimalista"
O socialismo com que André Ventura ataca António José Seguro está associado a uma “máquina despesista” de “procedimentos pouco transparentes e éticos” e intimamente ligada à “corrupção”, aponta Bruno Ferreira Costa. É por aí que o presidente do Chega tenta trazer sempre o nome de José Sócrates, que está a ser julgado por crimes alegadamente cometidos quando foi primeiro-ministro.
“É esta divisão que André Ventura tem procurado sinalizar quando diz que é o candidato contra o socialismo, contra uma máquina despesista, contra uma máquina corrupta e contra uma máquina que impõe uma agenda cultural, através da educação, que desvirtua os valores que ele considera que devem estar na base da sociedade”, argumenta.
A ideia de que o candidato apoiado pelo Chega está a utilizar o conceito do socialismo para criticar os aspetos práticos da governação socialista é consensual entre os especialistas.
“O que ele quer aqui despertar é uma insatisfação para um descontentamento hipotético de um conjunto de eleitores que podem não se rever na visão socialista da história portuguesa recente, ou dos últimos 50 anos”, entende a politóloga Paula do Espírito Santo, que vê uma tentativa, por parte de André Ventura, de recuperar tudo o que foi negativo na governação socialista.
“Vai desencadear essa visão histórica de algo que é negativo, colado, por exemplo, a José Sócrates. Vai tentar todas as vias para trazer ao de cima tudo o que não foi funcional e que foi negativo para a democracia portuguesa, do ponto de vista de algumas personalidades e de casos que surgiram”, frisa.
O mesmo defende Bruno Ferreira Costa, assegurando que André Ventura “não atacará tanto a questão ideológica, mas sim a concretização de políticas e a forma como o Partido Socialista geriu o país nos últimos 50 anos, quando teve essa responsabilidade”.
Também Manuel Loff considera o recurso ao chavão nada mais do que um “slogan propagandístico”. André Ventura fá-lo, diz, “julgando que o conjunto da sociedade portuguesa já tem um preconceito contra o socialismo”, associando a palavra aos governos de António Costa. É desta maneira, defende, que tenta atrair votos da AD e da Iniciativa Liberal para o seu lado, dizendo: “Isto é o PS de novo a chegar ao poder.”
Mais do que isso, esta “gramática política funciona com o eleitorado de centro-direita moderado e liberal”, que André Ventura precisa de conquistar se quer ganhar a segunda volta. Riccardo Marchi destaca ainda que o líder do Chega juntou à ideia da área “não-socialista”, a sua vertente “clássica populista”: “O povo contra a elite.”
“Entretanto, muito rapidamente, toda a chamada elite se pôs ao lado de António José Seguro. Portanto, esta ideia de que ‘todos aqueles que comandam, todos aqueles que têm um peso público, estão contra mim’ funciona”, reforça o historiador.
A ambiguidade com que André Ventura cita o movimento político é “deliberada”, para Paulo do Espírito Santo, e tem uma explicação. É que “nem ele sabe a que socialismo se refere”, defende, sendo que o argumento do candidato não passa de uma instrumentalização “redutora” de um conceito para descrever o seu adversário.
“André Ventura tem sempre uma visão minimalista e redutora dos problemas e, neste caso, dos conceitos. Este é um conceito que ele quer no fundo utilizar de forma redutora para caracterizar o seu opositor”, observa a especialista.
Manuel Loff acredita que André Ventura pretende “demonizar” o socialismo, utilizando o termo “só porque sabe que as pessoas no seu eleitorado identificam socialismo com o Partido Socialista”.
E onde podemos encaixar António José Seguro, candidato apoiado pelos socialistas? Na realidade, explica Bruno Ferreira Costa, André Ventura sabe que o perfil de António José Seguro não encaixa no socialismo que tem vindo a atacar, mas “não tem outra alternativa se quer ir buscar parte do eleitorado que votou, por exemplo, em Cotrim de Figueiredo ou em Marques Mendes e Gouveia e Melo”.
Caso venha a ser eleito, o candidato apoiado pelo PS “conseguirá certamente fazer várias pontes com o PSD”, já que é um social-democrata com uma visão mais à direita, defende o politólogo. Por isso mesmo, é visto com “desconfiança” por alguns dirigentes mais à esquerda do seu partido - como o tempo que demorou Augusto Santos Silva a declarar o seu apoio -, mas esta posição, lembra, permite “consenso e moderação”.
Apesar de tudo, António José Seguro foi secretário-geral do PS, “portanto, seria estranho que não se enquadrasse e não se assumisse ideologicamente a esse nível”, considera Bruno Ferreira Costa.
