O dicionário diz que um debate é uma "discussão em que os discutidores procuram trazer os assistentes à sua opinião". Parte desse sentido teórico não se cumpriu no debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo: mais do que um debate, "foi uma palestra", classificou a comentadora da CNN Portugal Helena Matos. Até que veio aquela pergunta final - que transformou um debate aparentemente sem história num debate que vai ter um momento que fica para a história desta corrida presidencial
Não foi um debate intenso no sentido do confronto nem das interrupções, também não foi um debate fraturante no sentido de haver uma distância evidente nos posicionamentos enunciados: Jorge Pinto e Gouveia e Melo admitem dissolver o Parlamento se houver revisão constitucional, ainda que ambos tenham dito isso com nuances distintas; ambos concordam que o ódio tornou-se uma ameaça à democracia em Portugal, ainda que ambos o tenham dito novamente com nuances distintas; nenhum deles ambiciona ter o apoio de Sócrates e, já adivinhou, ambos disseram isso com nuances distintas - mas só um deles vai ter o voto de Sócrates. A única diferença mais evidente apareceu logo no arranque do debate, transmitido pela TVI e pela CNN Portugal: Jorge Pinto veta a lei laboral do Governo, Gouveia e Melo não disse nem que sim nem que não. Portanto: não foi um debate intenso, houve foi nuances intensas. Portanto: foi "uma palestra", diz Helena Matos.
O tema inicial, a reforma da lei laboral, foi mesmo o que mais separou o almirante do candidato apoiado pelo Livre - separou-os no sentido em que um diz que veta e outro não clarificou. Gouveia e Melo, prudente, disse que qualquer pretendente à cadeira de Belém pode “perturbar as negociações” caso fale sobre o tema. Mas, ainda assim, falou sobre ele: “Nós precisamos de flexibilizar a lei do trabalho sem atacar o núcleo mais importante dos direitos dos trabalhadores”, disse Gouveia e Melo, sem nunca explicar que núcleo é esse. “Porque é que nós estamos a mudar os tempos dos contratos a termo e dos contratos a termo incerto? Qual é a necessidade? Isso vai acrescentar alguma competitividade? Por exemplo: se um trabalhador for despedido ilegalmente, depois não deve ser reintegrado? Acho que é atacar o núcleo duro de direitos que foram conquistados que não faz sentido em termos de flexibilizar a economia”.
Gouveia e Melo mencionou também que o poder de veto deve ser usado de forma “excecional”. Aí entra Jorge Pinto - “engenheiro Jorge Pinto” para o almirante, pormenor esse que Rui Calafate explica AQUI por que motivo faz diferença -, mas retomando: aí entra Jorge Pinto. “O Presidente da República tem à sua disposição o veto político”, disse o candidato de esquerda, reiterando que vetaria a proposta se chegasse como ela está à sua secretária.
“Vou ser mais claro que Gouveia e Melo. Acho que um Presidente que venha a ter este documento na sua secretária tem de ser muito claro. Há pontos que levantam dúvidas constitucionais (…) e que eu enviaria para o Tribunal Constitucional. (…) Estamos a falar de mais de 100 propostas de alteração em que todas elas servem para piorar os direitos dos trabalhadores e das suas famílias. São propostas que vão alterar a dinâmica familiar”, afirmou Jorge Pinto.
Dissolvo
Os dois candidatos falaram também sobre uma eventual revisão da Constituição, capítulo em que Jorge Pinto pediu uma “clarificação” a Gouveia e Melo. “Caso haja essa tentação de uma revisão drástica à Constituição apenas à direita e à extrema-direita, apenas a um lado do espetro político, o que faria? (…) Eu tenho sido muito claro na minha posição. (…) Se houver essa tentação, não tendo o assunto passado pelos portugueses em eleições legislativas, eu usaria esse poder [dissolução do Parlamento]”, disse o candidato apoiado pelo Livre.
Gouveia e Melo faria isto: “Quem faz a legislação é a Assembleia da República, o Presidente tem poderes limitados. Tem de respeitar verdadeiramente a Constituição e os poderes que a Constituição determina para a Assembleia da República. De facto, não gostaria de estar nesse papel. (…) No entanto, terei de respeitar sempre a própria Constituição que eu juro. Estou muito contente e satisfeito com a Constituição atual”. Por isso: se houver uma "revisão da Constituição à revelia", Gouveia e Melo diz que dissolve o Parlamento.
O ódio
A sintonia entre os dois candidatos notou-se no capítulo sobre qual a maior ameaça interna a Portugal. Gouveia e Melo foi claro: "Temos uma ameaça interna: o ódio". E desenvolveu: "A divisão da nossa sociedade pode criar-nos graves problemas, não só ao desenvolvimento, mas também, no limite dos limites, à destruição da nossa democracia. É possível [travá-la]. Os partidos tradicionais, que perderam eleitores para os extremos, devem fazer uma autorreflexão. Porque é que isto está a acontecer? Que respostas podemos dar?” E para finalizar: “Não é a população que está errada, são as respostas que não são dadas à população. Temos uma economia e um sistema que está estagnado desde 2008, há quase 20 anos. A população está desiludida com a política tradicional”.
Sem nomear André Ventura, Jorge Pinto disse que há uma “grande ameaça à nossa República” e que “há um outro candidato presidencial que disse, na Assembleia da República, que quer acabar com a mesma”. “Percebo que os portugueses estejam desiludidos. Quero falar a essa desilusão e dizer-lhes que deve ser colocada ao serviço da defesa do nosso país. Essa ideia de que a fraternidade em Portugal se está a perder é problemática. Nós não podemos ter familiares que deixam de se falar porque discordam politicamente. Não podemos ter colegas de trabalho chateados para sempre porque discordam politicamente. Isto não acontecia antes e não pode acontecer agora”.
"Provocatória"
No final do debate, Gouveia e Melo foi questionado sobre José Sócrates ter dito horas antes na CNN Portugal que vai votar no almirante. “O engenheiro José Sócrates votará em quem desejar. Eu não tenho nada que ver com isso”, disse o almirante, visivelmente incomodado. “Essa pergunta parece-me até provocatória e deslocada deste debate. Deslocada porque dá a sensação de que tenho alguma relação com ele. É espuma dos dias e politiquice e não gosto sequer de perder o tempo sobre isso. Preferia ter discutido isso [Ucrânia] a saber que o senhor José Sócrates vota no A, no B e no C”. E a seguir: "Ainda bem que ele [José Sócrates] disse que não tem qualquer relação comigo".
Jorge Pinto não se irritou quando foi confrontado sobre se ambicionava ter o apoio de José Sócrates. “De modo algum. Quando fui militante do PS, ainda José Sócrates era secretário-geral, eu mandei um email a dizer que não apoiava a sua recandidatura a secretário-geral. Estou perfeitamente de consciência tranquila e, muito antes de todos os escândalos, já me tinha afastado de José Sócrates enquanto militante socialista”.