E cada lembrança dessas tornou o debate particularmente intenso
A poucos segundos do final do debate contra André Ventura, Marques Mendes parecia ter tudo controlado. Mas o candidato apoiado pelo Chega disse assim: “O homem que está à minha frente dizia que estava tudo bem com o BES. Hoje, diga isso aos milhares de lesados que perderam as poupanças todas”.
Foi uma estocada que marca o debate e que implica ver este fact check para saber mesmo o que disse Marques Mendes sobre o BES - mas antes dessa estocada já tinha acontecido uma outra que também marca este frente-a-frente. Esta: "Onde é que está Pedro Passos Coelho?", questionou Ventura. "Nem o antigo primeiro-ministro o apoia, Marques Mendes. Passos Coelho, se tivesse de escolher entre mim e si, escolhia-me a mim como Presidente da República porque sabe que o senhor nunca foi um homem independente”.
André Ventura acabou por cima, antes disso o debate teve flutuações - e equilíbrio. Rui Calafate deu mesmo um "Bom" a ambos os candidatos presidenciais, apesar de, diz o mesmo Rui Calafate, "André Ventura ter esmagado" no final com aquelas estocadas. Mas Marques Mendes também feriu o adversário.
A dado momento, Marques Mendes lembra uma visita de André Ventura a Espanha em que o líder do Chega pediu a detenção de Pedro Sánchez. “Ventura é político, não é polícia ou magistrado”, vincou Marques Mendes - que vincou mais nesse seguimento. “Os políticos a mandar prender alguém, André Ventura, era no tempo da PIDE, não é agora.”
Marques Mendes tem uma certeza - a de que desmontou a psique de André Ventura. E Marques Mendes disse ser imune a ela, à psique: “O senhor [André Ventura] tem uma técnica habitual: ataques pessoais, lançar alguma lama para ver se irrita o adversário. Comigo não faz isso, eu nunca perderei a compostura. A sua preocupação é ocupar o tempo dessa maneira para disfarçar a ausência de propostas. Mas André Ventura não tem propostas para assunto nenhum”, disse Marques Mendes. Que disse ainda: "André Ventura não tem sentido de Estado", dando como exemplo as palavras de Ventura sobre a recente visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola. "Não tem sentido de Estado", reforçou Marques Mendes.
Ventura concordou com isso: "Não tenho sentido de Estado". E justificou: "O meu sentido de Estado é amar este país, defender Portugal até ao fim. Quando outros dizem que somos ladrões, corruptos, que escravizámos África, o senhor fica calado e acha muito bem. Acha que está a honrar a memória do ex-combatentes e dos retornados?” O líder do Chega disse que não sairia de Luanda calado, "como Marcelo Rebelo de Sousa", após o discurso de João Lourenço, em que o presidente angolano referiu a opressão e a escravização do colonialismo português.
“Eu não sairia de lá calado. Em Luanda, eu diria que o presidente de Angola só se pode queixar de uma coisa em relação à pobreza do país. Não é do colonialismo português, é da corrupção que inundou Angola nos últimos anos. É de estar uma elite a desviar dinheiro para se enriquecer enquanto o povo empobrece”, afirmou Ventura, que acusou Marques Mendes de ter “interesses” nas ex-colónias, acusação desmentida pelo candidato de centro-direita.
O líder do Chega foi ainda mais corrosivo sobre o presidente do Brasil. “O Lula da Silva é outro, um corrupto e um ladrão. Pode querer dar-lhe abraços e tirar fotos com ele, é um ladrão e um corrupto”.
O debate entre os dois candidatos presidenciais debruçou-se também sobre o facto de o Parlamento ter assinalado solenemente o 25 de Novembro. Ventura diz que esse dia foi “o garante da liberdade” após um 25 de Abril que “trouxe expropriações” e a “vergonha” da descolonização e defendeu a decisão de ter retirado os cravos vermelhos colocados pela esquerda durante a cerimónia de comemoração do dia, esta terça-feira, no Parlamento. “Eu tirei os cravos porque não deviam estar lá hoje, deviam estar rosas brancas. Estou farto de que a esquerdalhada faça o que quer no Parlamento. Eu sei que [Marques Mendes] não está porque viveu com ela a vida toda, mas eu estou. Se hoje era dia de rosas brancas, há de haver alguém que dê um murro na mesa.”
Em contraponto, Marques Mendes acusou Ventura de querer “branquear” a corrupção do Estado Novo ao falar nos “três Salazares”. “Quando o senhor fala de corrupção e depois associa três Salazares, a imagem que o senhor quer passar é que, antes do 25 de Abril, no regime anterior, não havia corrupção. O senhor está a branquear o regime anterior, havia tanta ou mais corrupção do que agora. O senhor não é candidato a xerife da República.”