opinião

Seguro, Presidente por exclusão de partes

9 fev, 08:00

António José Seguro ganhou, e o mérito da vitória é dele. Mas engana-se se pensa que a percentagem de eleitores que agora o elegeu o seguirá cegamente nos próximos cinco anos. A dimensão desta vitória eleitoral diz mais sobre a rejeição ao que André Ventura representa do que ao amor que o eleitorado tem pelo novo Presidente

Estas foram, provavelmente, as eleições presidenciais mais estranhas de sempre. Gouveia e Melo, o primeiro favorito, ficou em quarto. Marques Mendes, o candidato do partido do Governo, ficou em quinto. Cotrim de Figueiredo, apoiado por um partido que vale 5%, ficou em terceiro. Ventura, que quer ser primeiro-ministro, passou à segunda volta. E Seguro, que não conseguia convencer o seu próprio partido, foi o escolhido para Belém. 

Não se pode dizer que António José Seguro não tinha uma estratégia para lá chegar. Primeiro, chegou-se à frente; depois, limitou-se a existir. Não fez combate político, não se comprometeu com nada e, durante vários meses, andou por aí. Sabendo que a esquerda não gostava dele e que a direita não o tinha em grande conta, a estratégia passava por não irritar ninguém. E esperar. Seguro ocupou espaço, e esse espaço foi ficando cada vez maior. Primeiro, dentro do PS — o que fez outros putativos candidatos pensar duas vezes se avançavam. Depois, à esquerda, onde não surgiu ninguém capaz de agregar. E, por fim, no centro-direita, que se assustou com a ideia de ver André Ventura em Belém.  

O resultado desta estratégia é estratosférico. Vence as presidenciais com o melhor resultado de sempre — ultrapassa em número de votos o recordista Mário Soares —, tornando-se, assim, no Presidente que conseguiu agregar, numa só eleição, um espectro político que vai desde do PCP, ao Bloco e ao Livre, do PS ao PSD, da IL ao CDS. 

Isto não significa que comunistas, bloquistas, sociais-democratas, liberais, centristas e, até, muitos socialistas se sintam representados por Seguro. Significa, antes de mais, que uma esmagadora parte do eleitorado não se identifica com André Ventura. E não o queria em Belém. Que a maioria dos eleitores partilha com o futuro Presidente um chão comum, que tem um conjunto de valores que não reconhece em Ventura. Perante as opções que tinha pela frente, o eleitorado não hesitou. 

Seguro não venceu pelas ideias que apresentou, nem pela visão que tem do mandato de Presidente da República, e muito menos por ser de esquerda ou o socialista de que a direita gosta. Seguro venceu porque era a única opção moderada que transmitia segurança aos eleitores. E isso não é coisa pouca. 

O país aguarda agora para perceber que tipo de Presidente elegeu com a melhor votação de sempre. E Seguro tem dois caminhos: transformar esta votação expressiva em relevância política; ou desperdiçá-la com inseguranças, vazios políticos e discursos compostos por frases feitas. Com este resultado, António José Seguro encheu um balão. O mandato que fizer como Presidente da República ditará se o balão apenas se vai esvaziando lentamente — como é natural — ou se rebenta rapidamente. 

Colunistas

Mais Colunistas