A noite em que Montenegro e Cotrim entregaram a direita a Ventura

19 jan, 08:50
André Ventura (Tiago Petinga/Lusa)

CRÓNICA || Sabem aquela de que se o Governo seguisse a agenda de Ventura esvaziaria o seu eleitorado? Vê-se: Ventura varreu Marques Mendes, o PSD e uma coleção de ministros, incluindo o primeiro. Mas Montenegro reforça Ventura, dando-lhe a representação da direita. Quanto a Cotrim, mantém-se fiel ao flirt que vem de trás

Desde o primeiro momento pareceu bizarra a colagem descarada de Luís Marques Mendes ao Governo, com palco reservado para ministros nas suas principais ações de campanha, e andor para Luís Montenegro nos momentos de maior necessidade. Diz que foram treze os ministros que acudiram à chamada do ex-líder social-democrata, desde que este surgiu em queda na tracking poll da CNN. 

Bizarra porque até aí Mendes puxava o lustro à sua “independência” face ao Governo. Mas, trucidado nalguns debates, enlameado por Gouveia e Melo e por Cotrim Figueiredo, e sem capacidade de resposta, Mendes pôs-se nas mãos de Montenegro. No partido, Hugo Soares deu ordem para que deputados e dirigentes locais despertassem a militância. No Governo, Montenegro capitaneou a falange de ministros que, supostamente, tiraria Mendes do buraco em que estava. Afinal, partido e Governo enterraram Mendes ainda mais. O social-democrata foi o último no pelotão da frente, com uns humilhantes 11% e 600 mil votos, que Miguel Relvas não se cansou de afirmar que é o pior resultado de sempre da história do PSD (até Ferreira do Amaral, na candidatura sacrificial de 2001, a da reeleição de Sampaio, teve 34% e quase um milhão e meio de votos).

Há aqui duas más notícias para Luís Montenegro. Primeira, que o PSD não anda ao dispor das suas ordens. Segunda, que o Governo não puxa carroça. Na semana passada disse que Mendes podia não estar ainda arrumado nas presidenciais – admitia que a mobilização de um partido como o PSD pudesse resgatar o seu candidato do degredo onde estava. Não podia estar mais enganado. É até possível que o desfile de ministros, do ponderado Castro Almeida ao histriónico Paulo Rangel, passando por Miguel Pinto Luz, que tanto tem feito pela habitação, tenha enterrado Mendes de vez. E, vá lá, a ministra da Saúde não foi para a estrada, ou nem a 10% chegaria. 

foto Miguel A. Lopes (Lusa)

O campeão da direita contra o “socialismo”

Luís Montenegro disse ontem que o Governo não se mete mais nas presidenciais, e vai concentrar-se no seu papel, que é governar. Mas desde ontem a margem para o fazer é menor. Não é só o facto de a entrada do Governo na campanha ter valido zero (ou até pontos negativos), nem tão pouco a evidência de que a derrota de Mendes é também um tiro na AD e no Governo. É sobretudo o facto de Montenegro ter oferecido de bandeja a representação da direita a André Ventura.

O líder do Chega apostava tudo em vencer esta primeira volta, consciente de que todas as sondagens o dão como derrotado na segunda contra qualquer adversário (e, se há coisa que podemos dizer sobre as sondagens nestas eleições, e em particular a tracking poll da CNN, é que leram bem a inclinação do eleitorado). Não tendo vencido, e tendo até ficado oito pontos atrás de Seguro, Ventura quase conseguiu segurar o apoio do eleitorado do chega nas ultimas legislativas. Seguro foi muito além da última votação do PS, mas o candidato da AD ficou a léguas do resultado da coligação em maio passado.

Sem surpresa, Ventura pôs logo em prática a tática mais previsível: a fratura entre direita e esquerda, posicionando-se como o campeão contra os perigos “do socialismo”, supostamente encarnados pelo bom velho Tozé. Seguro, que não esteve com Sócrates, é o socratismo, tal como é o costismo apesar de nunca ter apoiado Costa. Se há socialista a quem não cola essa conversa do papão “socialismo” e do “esquerdismo” é Seguro, que toda a vida foi a esquerda de que a direita gosta (e, particularmente, durante o governo Passos Coelho/troika). Mas é essa a batalha que Ventura quer travar, porque percebe que é aí que pode crescer eleitoralmente. Para isso, tem de conquistar a direita que lhe escapa: os apoiantes de Cotrim e as bases da AD. As portas estão escancaradas.

Foto Tiago Petinga (Lusa)

A “nova forma de fazer política”

Sobre João Cotrim, note-se que já praticamente tinha endossado Ventura (momento em que começou a suicidar a sua campanha – foi ele que se suicidou, não foi Montenegro que o matou). Voltou ontem a fazê-lo, de forma mal encapotada, que é a sua “nova forma de fazer política”. Apontou o cenário tremendista de um “socialista” em Belém – vale a pena insistir: o Tozé, senhores!, o Tozé... 

Não ocorreu a Cotrim apontar o facto de Ventura ser a antítese de qualquer liberalismo, mesmo que para totós: o caminho de Ventura fez-se a atacar liberdades, a incensar Salazar, a arrogar-se a ser um novo ditador que legisla, julga e condena. Ao equivaler um democrata a um ditador wannabe, supostamente distanciando-se de ambos, Cotrim fez o jogo de um deles e revelou-se. O público que o ouvia aplaudiu essa equidistância de pacotilha. Enquanto isso, uma destacada apoiante de Cotrim escrevia “nas redes” que “não dá para entender que não se defenda um democrata em detrimento de um autoritário”... E tanto José Miguel Júdice, mandatário nacional de Cotrim, como Mário Amorim Lopes, líder parlamentar da IL, já assumiram que votarão Seguro, sem medos.

Na sala da conferência de imprensa, não houve sobressaltos desses. Os apoiantes estavam rendidos a Cotrim, o que quer que este dissesse. Celebraram o candidato como se tivesse ganho alguma coisa, e este fez um discurso de derrota exaltando infindáveis vitórias. A “nova forma de fazer política” fez lembrar as noites eleitorais do PCP… Quanto ao que correu mal (tipo… ter metade do resultado do vencedor), atirou a culpa a Montenegro. Pareceu muito pouco meritocrático. Mas, ao menos, Cotrim manteve-se coerente no egotismo e na venturite.

foto António Pedro Santos / Lusa

A noite que o PSD há de lamentar

Luís Montenegro fez o mesmo que Cotrim, mas com mais responsabilidades, e com mais riscos. O primeiro-ministro disse que, derrotado o seu candidato, lhe é igual se ganha Ventura ou Seguro. Não devia ser. Um autocrata não é igual a um democrata. Um extremista radical não é igual a um moderado incondicional. Um incendiário não é igual a um apaziguador. Mas para Montenegro, é.

A falta de visão de Montenegro é angustiante. No Governo, segue a agenda do Chega, crente de que assim o “esvaziará” – vê-se. Na frente partidária, diz-se equidistante entre um líder partidário que se construiu no fraccionamento do PSD e um ex-líder do PS tão conciliador que negociou acordos com o Governo de Passos Coelho.

Para além disso, o PM fez a Ventura o favor de colocar a 2ª volta exatamente nos termos que convêm ao líder do Chega. Montenegro resumiu a coisa assim: Seguro representa “o espaço político à esquerda do PSD”; Ventura é “o espaço político à direita do PSD”. Direita contra esquerda: este é o tabuleiro onde Ventura quer jogar, porque sabe que o espaço da direita é, à partida, mais forte do que a esquerda. Esta foi a passadeira que Montenegro estendeu a Ventura. Resta saber se a direita – que não é uma, mas várias – alinha.

É claro que o primeiro-ministro podia ter traçado outro quadro. Podia ter dito que Seguro representa a moderação, o equilíbrio, o respeito pela democracia e pela Constituição; e que Ventura representa a divisão, o ódio, a subversão do regime democrático, o ataque às liberdades individuais. 

Por que razão Montenegro optou por uma caraterização, e não pela outra? Porque fez o jeito a Ventura? Só há uma explicação: afinidade de pensamento.

Podia ser um cálculo de curto prazo do ponto de vista do Governo, se Montenegro sentisse que teria mais segurança e estabilidade coabitando com Ventura. Mas alguém imagina que Ventura não se transformará numa força de bloqueio, e no grande desestabilizador do sistema, presidencializando o regime caso chegasse a Belém? Seguro seria um PR muito mais conveniente para qualquer Governo do que Ventura. Não faz sentido supor o oposto.

foto José Coelho / Lusa

Podia ser um cálculo de médio prazo, do ponto de vista partidário: talvez Montenegro tema que a vitória de Seguro revigore o PS – e tem razão. Mas a vitória de Ventura ameaça o PSD. Não é exatamente a mesma coisa. Talvez Montenegro devesse preocupar-se mais com este cenário. Ou não terá aprendido nada nestes meses de seguidismo da agenda do Chega?

Ventura já canibalizou vários partidos, como dizia ontem Francisco Rodrigues dos Santos, e o seu próximo alvo é o PSD (a IL já está no papo). A vida corre-lhe bem: varreu ontem o candidato oficial dos sociais-democratas e já fala como o “líder da direita”. Se não lhe faz frente, Montenegro faz-lhe o favor. Já admitiu que Ventura é o representante da direita na segunda volta. Mesmo que não ganhe, Ventura tem tudo para sair destas eleições a ombrear com a legitimidade do primeiro-ministro: pode ter a 11 de fevereiro tantos ou mais votos do que Montenegro teve nas legislativas. Poderá agradecer ao PM. Em vez disso, será uma questão de tempo até derrubar o Executivo. E uma questão de tempo até abocanhar mais eleitorado do PSD. É isso que Montenegro está a facilitar, quando não consegue distinguir o adversário do inimigo.

Miguel Poiares Maduro, militante do PSD, apoiante de Marques Mendes e ex-ministro de Passos Coelho, identificou exatamente esse risco ontem à noite, e por isso declarou que votará em António José Seguro. Por Seguro ser um socialista que não ameaça ninguém, mas também porque Poiares Maduro pensa na sobrevivência do seu partido. O mesmo com Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto e, desde ontem, vontante de Seguro-

E Montenegro, pensa em quê? Já se esqueceu de que só continua a governar porque o PS lhe viabilizou o Orçamento que Ventura chumbou (e a IL também). Parece esquecido de que só os socialistas lhe poderão dar a mão quando Ventura voltar ao Parlamento inchado com um milhão e muitos muitos votos no bolso.

Ou será que, como outra personagem tragicómica, Montenegro não sabe o que lhe passa pela cabeça?

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