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Head of Public Affairs, Guess What Comunicação

Campanha em alta-definição, conteúdo em baixa-resolução

6 jan, 15:59

As eleições que se avizinham não são apenas uma competição de estilos, mas também um reflexo do nosso tempo. Mostram uma democracia que se mede pela sua capacidade de nos emocionar, mas que ainda precisa de recuperar a serenidade da ponderação

Há eleições que definem o rumo de um país e outras que revelam, de forma implacável, quem somos enquanto democracia. As eleições presidenciais de 2026 pertencem à segunda categoria. Num panorama sem incumbente e com um número recorde de 11 candidatos, o eleitorado português assiste à campanha mais fragmentada da história, em que a pluralidade por vezes se confunde com saturação e a sobriedade institucional dá lugar a um espetáculo contínuo.

A política portuguesa entrou em modo de alta-definição. Cada gesto é captado, cada frase é repetida e cada olhar é ampliado por outdoors XXL espalhados pelo país e ecrãs que nunca se apagam. A imagem deixou há muito de ser um complemento da mensagem, tendo-se tornado a própria narrativa. Num país onde o comentário se transformou em capital político, a figura de Marcelo Rebelo de Sousa permanece como arquétipo de um novo poder: o da presença constante, em direto, em selfies e em comentários. O comentador que chegou a Belém transformou a visibilidade numa forma de autoridade. E, desde então, ninguém voltou a comunicar a Presidência sem pensar primeiro na câmara.

No entanto, o legado da sobre-exposição tem um efeito colateral, isto é, quanto mais nos aproximamos da imagem, mais nos arriscamos a perder o foco no conteúdo. A fronteira entre a política e o entretenimento torna-se cada vez mais ténue. As campanhas eleitorais assemelham-se, por vezes, a séries televisivas, em que os candidatos competem não apenas por votos, mas também por audiências e prestações em debates televisivos. No entanto, o público procura algo que a coreografia não oferece, um traço de verdade, uma palavra não ensaiada, um gesto que não está no guião.

O que dizem os teus olhos?”, pergunta o entrevistador do programa Alta Definição. A mesma questão ecoa agora no espaço público. A eleição para a Presidência da República deste ano é, em parte, uma tentativa de perceber quem fala connosco sem fingimento. Numa época em que a emoção se tornou um critério de autenticidade, o eleitor procura o que é genuíno, mesmo que seja apenas em pixels. O debate político é cada vez mais emocional e, talvez de forma inevitável, a razão já não é suficiente sem uma boa história que a acompanhe.

Do ponto de vista dos Assuntos Públicos, este contexto exige uma nova abordagem. A visibilidade, por si só, já não tem valor e tornou-se abundante. O verdadeiro desafio é a relevância. Numa paisagem povoada por feeds infinitos e soundbites de segundos, a autoridade constrói-se com consistência e não com frequência. De pouco serve estar presente se não houver nada de substancial que permaneça.

As eleições que se avizinham não são apenas uma competição de estilos, mas também um reflexo do nosso tempo. Mostram uma democracia que se mede pela sua capacidade de nos emocionar, mas que ainda precisa de recuperar a serenidade da ponderação. Porque, afinal, o Presidente continua a ser mais do que uma imagem em direto, é o guardião da Constituição, a voz do equilíbrio institucional, o rosto de uma ideia de país que resiste à velocidade do ecrã.

A política em alta-definição exige-nos precisamente isso, que tenhamos a capacidade de distinguir o brilho da substância, o instante da permanência. E talvez seja nesse momento de nitidez que Portugal reencontrará o seu próprio foco.

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