opinião

"Idiota útil" do patriarcado, me confesso

19 jan, 11:46

Os eventos da última semana de campanha para as eleições presidenciais conduziram a algumas aprendizagens indeléveis:

  • Uma mulher não pode testemunhar, em público, sobre a conduta conhecida de um homem: se o fizer, é insultada ou desprezada pelas mulheres que foram encarregues por direito divino de defender todas as outras mulheres (exceto aquela ou aquelas);

  • Uma mulher que acusa um homem tem sempre razão, porque representa automaticamente, e sem mandato, todas as mulheres que alguma vez sofreram algo à mão de um homem;

  • Um homem que é publicamente, e por via de meio de rápida disseminação, acusado da prática de um crime, não pode negar a sua prática, porque isso equivale a desrespeitar a vítima, que o é apenas por o declarar ser;

  • “A presunção de inocência não implica a presunção de culpabilidade da vítima”, talvez a frase mais ilógica e ignorante que já ouvi ou li. Se uma pessoa é acusada da prática de um crime que não cometeu, negá-lo é a única coisa que lhe resta fazer. Se uma pessoa acusa outra da prática de um crime que esse outro não cometeu, comete ela mesma o crime de difamação. As duas coisas não coexistem.

Todas estas premissas, exceto a última, abstraem cada pessoa (homem ou mulher) das suas características individuais e reduzem os homens à condição de homens e as mulheres à condição de mulheres, qual aprisionamento coletivo e dogmático que retira de qualquer membro do grupo a faculdade de agência para além do género em que se insere. Redutor e deprimente.

Nunca fui contra o wokismo. Vejo que a sedimentação de algumas ideias progressistas pode ter de ser feita de maneira mais ativista, apesar de não aderir à forma. Acredito na dignidade da pessoa humana e na igualdade de género por inerência dessa dignidade. Sei que as mulheres estão em desvantagem em vários contextos e situações. Sei que muitas pessoas que integram este tipo de movimentos respeitam o próximo, preocupam-se com os migrantes, com o destino do planeta, e com o papel da mulher no mundo.

No entanto, aquilo a que assistimos não se confunde com nada nisto, nem com intenções nobres. Nada justifica a agressividade, a violência e a irracionalidade das massas (sobretudo em altura de crispada campanha eleitoral).

A atmosfera intimidatória e rasteira (em que se é preso por se ter cão e preso também por não o ter) afasta toda e qualquer pessoa com boas ou razoáveis intenções da esfera pública. Está-se sob absoluto e contínuo julgamento. A defesa é impossível, quando se aparece condenado. Quanto maior a exposição do visado, maior a dimensão da certeza, opinião, julgamento, especulação. A racionalidade deixa-nos.

Sempre me pareceu evidente, mas aparentemente é necessário realçar: não é por se testemunhar sobre a conduta conhecida de um homem que se é contra todas as mulheres que sofreram ou sofrem assédio ou se nega a existência dessas situações.

Dito isto, as mulheres “que defendem as mulheres” não me representam. O espírito liberal rejeita coletivos justiceiros que falem em representação de um grupo ou classe, vitimando-o e minimizando-o. Não me alongarei sobre a audácia de muitos em exprimir opiniões categóricas sobre matérias concretas e delicadas, com chavões e certezas genéricas (mas absolutas) e ideais “mais altos” de justiça - que só estes, do conforto do seu teclado, juram defender. Isto faz parte dos tempos que correm.

Apontar o dedo é fácil. Não tem nada a ver com justiça, justiça social, ou igualdade de género. Diz antes respeito à validação própria de uma moral beata, intocável e superior. Quem se costuma orgulhar da mesma, com certezas inabaláveis e sem humildade, não são os justos, mas os pecadores.

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