"Não é fixe para a democracia": os candidatos presidenciais "não têm piada" porque o humor é-lhes "pouco natural"

16 jan, 18:57
André Ventura (Lusa)

Os humoristas Diogo Faro e Levi Galaio consideram que a “classe política” e a comédia não podem entrar juntos num bar porque “misturar política com entretenimento” é tirar a seriedade ao que “impacta efetivamente a nossa vida”

Se “a cantiga é uma arma”, como cantava José Mário Branco, o humor também o pode ser. Os candidatos presidenciais de 2026 têm utilizado a piada, as aparições em livestreams e os vídeos para o TikTok como parte do seu arsenal político de campanha.

É o caso da aparição na série “Bom Partido”, de autoria do humorista Guilherme Geirinhas, que tem sido uma paragem obrigatória para quase todos os candidatos desde que foi criada para as eleições legislativas de 2024. Nesta campanha presidencial, marcar presença não foi exceção. O único partido com representação parlamentar que nunca se sentou com o humorista foi o Chega, ainda que tenha sido sempre convidado. Por outro lado, houve espaço para vermos André Ventura de camuflado.

Ou António José Seguro a ser DJ, João Cotrim de Figueiredo a ser streamer com Wuant e Henrique Gouveia e Melo a dançar numa discoteca. Mas terá afinal o humor assim tanto peso nas campanhas eleitorais? Terão os candidatos presidenciais sucesso na tentativa de ter graça? Será sempre muito subjetivo, mas a CNN Portugal tentou procurar a resposta a essas questões junto de quem sabe: humoristas profissionais.

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Para quem faz rir profissionalmente, o humor “não tem o poder de influenciar o voto de ninguém”, mas é através dele que se pode construir “uma ponte” para aproximar a classe política “distante das pessoas” do eleitorado. Quem o afirma é o humorista Levi Galaio, que considera que “os políticos tendencialmente não têm piada” e que “quando tentam ter graça as pessoas veem o quão pouco natural isso sai”.

Já Diogo Faro admite que “sim”, que estas táticas de campanha podem conquistar alguns votos, mesmo sem ser “coisa decisiva”, apesar de achar que os políticos “raramente têm graça” e que o humor dos candidatos “quando é forçado é só embaraçoso”.

O humor é utilizado para “mostrar que os políticos são humanos”, considera Levi Galaio, acrescentando que a presença em programas como “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, de Ricardo Araújo Pereira, ou “Bom Partido”, serve também de “espaço mediático” para “fazer chegar informação às pessoas de uma forma mais leve”. 

Mas nem tudo deve ser brincadeira. Para o humorista, “olhar para um período eleitoral através de uma lente mais cómica pode misturar política, que impacta efetivamente a nossa vida, com entretenimento”.

Para Diogo Faro, a aposta dos candidatos presidenciais no TikTok e no espaço do humor “não é fixe para a democracia e para uma saudável vida política”, porque afasta as atenções daquilo “que não está bem”: “Há pessoal desesperado com direitos dos trabalhadores, alterações climáticas e ter dinheiro para pagar uma casa e estão aqui a ser DJ’s e preocupados com os gostos do TikTok”.

Apesar de considerar que “ninguém é dono do humor” e que “toda a gente deve fazê-lo”, Diogo Faro admite que há um “exagero naquilo que se tornou o espaço mediático [da política]”: “A última vez que eu verifiquei o Presidente da República era uma coisa importantíssima, mas agora tudo é pão e circo”, conclui.

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