Gouveia e Melo definiu-se como suprapartidário e acusou Catarina Martins de ser marxista. A candidata lembrou os exemplos de Jorge Sampaio e Mário Soares para mostrar que um Presidente deve ter uma posição política. Discordaram em tudo menos na crítica à justiça: "Não podemos permitir que o sistema judicial condicione o sistema político", disse o almirante
"Eu e a senhora deputada temos um oceano de diferenças", começou por dizer Henrique Gouveia e Melo, no debate deste domingo com Catarina Martins. Antes sequer de responder à questão que lhe tinha sido feita, o almirante acusou Catarina Martins de se apresentar nestas eleições "com uma lógica partidária", de ter "um pé aqui e outro em Bruxelas, provavelmente o seu pé de recuo", de olhar para Constituição da República "de forma assimétrica", porque disse que se o Chega ganhasse as eleições tentaria evitar que formasse governo, e ainda de ser "uma declinação sofisticada do marxismo". "Eu pelo contrário tenho uma candidatura suprapartidária e independente, quero unir os portugueses, tenho os dois pés aqui sem recuo nenhum. Há 45 anos que defendo a Constituição e vou continuar a fazê-lo. E sou pelo mercado, pela livre iniciativa e pela propriedade privada."
Na reposta, a antiga líder do Bloco de Esquerda, mostrou-se indignada: "A mim ninguém me diminui por ser eleita", disse, deixando claro que não vai renegar o seu partido. E continuou: "Não vou passar esta campanha a falar de dar posse a um governo de extrema-direita, era o que mais faltava, até porque se eu for eleita presidente quer dizer que há uma maioria que é contra a extrema-direita e nunca vai ser governo. Eu estou aqui para defender a liberdade e não para andar a falar aqui dos sonhos salazarentos de André Ventura. Claro que cumprirei sempre a Constituição", garantiu.
Catarina Martins aproveitou para terminar a intervenção devolvendo a ferroada, lembrando que Gouveia e Melo almoçou com André Ventura: "Isto sim, é falta de independência. Acho que fez mal em ir almoçar com a extrema-direita. Temos que decidir quem é que defendemos." Sobre isto, Gouveia e Melo respondeu apenas: "Todos nós temos que conhecer os atores políticos, foi por isso que aceitei o almoço".
Estava lançado o tom para todo o debate: Catarina Martins trouxe as causas que já lhe conhecemos, defendendo a intervenção do Estado em áreas como a saúde, a educação e a habitação, entre outras, e criticando uma política fiscal que privilegia os mais ricos. Por seu lado, Gouveia e Melo afirma-se "do lado de uma economia livre e não estatizada, onde o estado cria os ingredientes para uma economia saudável". Aceita que haja intervenção estatal em áreas como a educação, a saúde e a habitação, mas "para além disso deve funcionar o motor económico", diz.
Reforma laboral e saúde: um quer mais Estado, outro quer menos
No que toca à reforma laboral, por exemplo, Gouveia e Melo não se mostrou nem muito defensor nem muito crítico: disse que é necessária "uma economia com coesão social", mas também que é importante haver alguma flexibilização, nomeadamente para fazer face aos desafios digitais. Instado a escolher um direito laboral que não deve não deve ser mexido, referiu os tempos que estão definidos nos contratos: "a mudança vai precarizar os contratos e não vai contribuir para a competitividade da economia", disse.
Já Catarina Martins foi segura nas críticas que faz à reforma laboral que está em discussão: a redução das horas extraordinárias irá levar a uma redução efetiva de salário para muitas pessoas, disse, e a precarização dos contratos fará com que "as pessoas mais jovens que nunca tiveram um contrato de trabalho possam estar permanentemente com contratos a prazo de empresa a empresa; não vão ter estabilidade nem podem comprar uma casa". E sublinhou ainda que, na contraproposta que fez, o governo propôs que "mesmo quem já tem um contrato pode baixar de posição e de salário se o empregador quiser – isto é gravíssimo".
O papel de um Presidente não é governar, mas defendeu Catarina Martins, "pode ser colocar os problemas de uma outra forma". "Lembro-me do que Mário Soares fez com a habitação, quando havia bairros de barracas e ele fazia presidências abertas a falar disso", recordou. "O que nós precisamos hoje é de um Presidente que em vez de estar a defender uma ministra que é do seu partido tenha capacidade de falar do acesso à saúde. Como precisamos de um Presidente que saiba dizer que as escolas em Portugal estão a fazer um trabalho extraordinário com poucos meios e que precisam de mais meios. Temos um país que faz milagres todos dias para que as coisas funcionem."
"Um presidente não governa, mas pode inspirar, pode acompanhar e pode ajudar a mobilizar para soluções", defendeu Gouveia e Melo. E pegando no exemplo da saúde: "O que está a acontecer na saúde é um problema de organização interna e de responsabilização sobre essa organização. Podemos ter os recursos todos, se não mudarmos não vamos resolver os problemas. Qual é o destino que queremos para o SNS?", perguntou. "Isso não está claro nesta governação e o Presidente pode ajudar a esclarecer. Isso é muito importante para perceber se se quer um modelo em que o estado tem um papel essencial, l, ou se quer um modelo mais híbrido e com mais espaço para a medicina privado."
Gouveia e Melo defende que ideal é "o modelo é híbrido mas em que o estado tem de garantir um SNS público de qualidade." Já Catarina Martins propõe "que possamos olhar para as questões de outra forma, reinventarmo-nos", apostar numa "medicina na comunidade" e de acompanhamento de doentes crónicos.
"Não podemos permitir que o sistema judicial condicione o sistema político"
Há neste momento riscos reais para a democracia portuguesa?, questionou a jornalista Clara de Sousa. Ambos os candidatos responderam que sim, que esses riscos são reais.
"Existem propostas que não são benéficas para a democracia", disse Gouveia e Melo. "Por exemplo, há um candidato que quer mudar o regime para outro que não sei qual é", disse, sem especificar. Mas, mais do que isso, existe um problema na justiça: "Deixámos construir sem querer um sistema de quase vigilância para a classe política, através de escutas que não estão perfeitamente controladas e que não são as mínimas necessárias", afirmou o candidato, sublinhando que as explicações dadas pela PGR sobre as escutas ao antigo primeiro-ministro António Costa não o deixaram sossegado: "Aliás, o nosso Presidente da República disse aquilo que eu já tinha dito: houve escutas e quis-se legalizar as escutas após terem sido feitas, quando devia ter sido o contrário". Além disso, "escutar políticos anos seguidos ou se encontra um crime e tem de se atuar imediatamente ou então é um processo de vigilância que condiciona o sistema político", acusou. "Não podemos permitir que o sistema judicial condicione o sistema político – isso para mim é uma linha vermelha, que vou tentar combater se for Presidente da Republica."
Catarina Martins concordou que "os casos de justiça mostram isso", mas referiu outro problema: "a degradação do debate político, com o ódio, o insulto, o extremismo, a indecência, para se esconder depois os debates que é preciso fazer" e "também a degradação da vida das pessoas", que decorre do modelo da economia. "A democracia cai em descrédito quando não traz resposta à vida das pessoas", afirmou. "Por isso é tão importante ter uma posição sobre a reforma laboral e sobre a habitação. Uma Presidente da República deve ter causas - nisso o Jorge Sampaio é um grande exemplo – e é importante é abraçá-las. Para mim é uma causa não deixarmos que Portugal tenha uma economia que depende do turismo e da especulação imobiliária, ou que tenha um sistema fiscal muito injusto", disse, lembrando a fuga aos impostos por parte das grandes empresas multinacionais e o regime de residentes não habituais. "Quem vive dos seus salários paga uma brutalidade de impostos", criticou.
Troca de acusações sobre o investimento na defesa
Sobre defesa, Henrique Gouveia e Melo e Catarina Martins trocaram acusações, um dizendo que o outro tinha mudado de opinião.
Catarina Martins disse que “a Nato não garante a segurança da Europa” e perguntou a Gouveia e Melo se “continua a acreditar que a aliança com os Estados Unidos não garante a nossa segurança”, como disse no passado. Gouveia e Melo afirmou que “pertencemos à Nato e a Nato tem regras. Que eu saiba, não há guerra. O nosso alinhamento neste momento pode ser mais a Leste, como pode ser no Oceano Atlântico”. "A senhora antes dizia que não devíamos investir na Defesa. A Europa não investiu na Defesa por isso é que estamos aqui. E a senhora tem culpas nisso também”.
Catarina Martins reconheceu que, no passado, criticou as despesas na defesa, lembrando o “escândalo de corrupção” com a compra de submarinos pelo Estado português. “Nestas despesas da defesa houve sempre muito mais interesses da indústria de armamento e da corrupção do que interesses portugueses e pela paz, que é o que nos deve mover”, concluiu.