Seguro "tem de mostrar força, fibra e dentes" se quiser vencer o debate. Ventura tem "dois caminhos": um "se quiser ganhar" estas eleições, outro se quiser "ser PM"

27 jan, 07:00
Debate da 1ª volta das eleições presidenciais, a 17 de novembro de 2025: António José Seguro e André Ventura na TVI, moderados por José Alberto Carvalho. Foto Rui Valido

ANÁLISE || É dia de grande debate: 20:30 na TVI/CNN, 75 minutos de duração. E é um debate com este contexto: Ventura entrou em "território desconhecido", Seguro tem de fazer "um jogo complicado" - "desmontar a fúria de Ventura". Portanto: "Podemos ter uma situação em que uma das pessoas diz coisas e a outra pessoa ignora"

"A minha leitura é que os objetivos de André Ventura nestas eleições estão amplamente conseguidos. A partir de agora está em território desconhecido para ele", considera Luís António Santos, especialista em comunicação política e docente da Universidade do Minho. Por outro lado, "o líder do PSD decidiu retirar o partido destas eleições - sendo a primeira vez nos últimos 20 anos que o PSD não está numas eleições para Presidente da República, isso foi ótimo para Ventura", sublinha Luís António Santos.  "Ele pode andar andar estas semanas a dizer que é o líder da direita e ninguém o vai contestar."

Ventura não é atualmente o líder da direita mas, na opinião de Luís António Santos, estas eleições podem ser decisivas sobre isso: "O que pode transformar completamente a política portuguesa será o facto de Ventura ter um resultado superior a 30%. Se passar o número de votos que Montenegro teve para se eleger - essa comparação vai ser feita, embora uma coisa não tenha nada que ver com a outra -, ele vai agarrar-se muito a essa ideia de o Chega ser o partido pivô da direita e isto poderá ser modificador."

Significa isto que Ventura vai optar por ter um discurso mais moderado neste debate, tentando angariar votos entre os eleitores habituais do PSD e ainda da Iniciativa Liberal? Não necessariamente, dizem os especialistas.

A politóloga Sílvia Mangerona afirma que André Ventura tem "dois caminhos possíveis" e terá de escolher qual é o enfoque que quer dar à sua prestação neste debate. Poderá "aparecer mais moderado na linguagem verbal e não verbal, de forma a parecer ser mais equilibrado e mostrar ao eleitorado que saber ser responsável"; "mas também pode optar por aumentar a polarização, simplificar o discurso político através da oposição esquerda/direita e apresentar-se como vítima - um homem só contra o sistema".

"A primeira faria mais sentido se Ventura quisesse efetivamente ganhar as eleições", diz a politóloga. "Mas como sabe há muito que provavelmente não vai ganhar, e nem sequer quer ganhar, o que está a fazer nesta campanha é capitalizar mais eleitorado da direita para um dia chegar ao poder e liderar o governo". Por isso, o mais provável é que opte por "radicalizar o discurso, apresentar-se como o candidato que contra os elites e que tem o apoio do povo - e aprofundar esta oposição", antecipa Sílvia Mangerona.

O comentador da CNN Portugal Afonso Azevedo Neves, especialista em comunicação política, também não acredita que Ventura vá moderar o seu discurso. "André Ventura começa a chegar à conclusão de que a sua corrida poderá não ser a presidência mas para primeiro-ministro" e, por isso, por agora, "é previsível que o seu discurso se mantenha". Vai continuar a apresentar-se como alguém "que está fora do sistema, contra todos e contra o sistema", e vai "tentar encostar Seguro e todos o que o apoiam como defensores do sistema e do imobilismo" - e isto é algo que, segundo Afonso Azevedo Neves, Ventura dirá a Seguro como diria a qualquer um que fosse o seu adversário neste debate. "Vai dizer 'eu sou o homem providencial que vem para fazer reformas'."

"Mas não é verdade que Ventura esteja fora do sistema", explica Afonso Azevedo Neves. "O Chega chegou, entrou no sistema e cresceu, Ventura fala todos os dias - isto é um sinal de que o sistema não está fechado. Ventura gosta de se queixar de censura na comunicação social mas ele é o que mais fala."

André Ventura em campanha nas Caldas da Rainha foto Lusa/ André Barroso

Seguro: "Deixar que Ventura escorregue"

Já António José Seguro chega ao debate com o bom resultado conseguido na primeira volta e "os apoios que entretanto foi recolhendo de uma forma substantiva em quadrantes diferenciados - até de pessoas que estão muito distantes politicamente ou que podiam não declarar o seu apoio, e isso seria aceitável, como, por exemplo, Cavaco Silva", contextualiza Luís António Santos.

Para o especialista em comunicação política, Seguro "tentará solidificar duas coisas que são o centro da campanha dele": primeiro, a ideia de um respeito pelas instituições e pela forma como as instituições estão alinhadas umas em relação às outras (os poderes da presidência, do parlamento, dos tribunais) - António José Seguro corporiza uma candidatura que respeita e não quer mexer nesse equilíbrio"; além disso, Seguro quererá "apresentar-se ao eleitorado como uma figura que entende a política como um exercício que pode ser de discórdia mas não é de rutura".

O papel do Presidente é promover "consensos e diálogo" - estas são palavras "muito importantes" para este candidato. "Seguro vai reafirmar a garantia de que vai dialogar com o primeiro-ministro e com o parlamento, corporizando uma ideia de estabilidade que é algo que um grupo muito substantivo de portugueses ainda preza. E não vai dizer nada de radical sobre nenhum tema fraturante que tenha que ver com os costumes, com a religião ou mesmo com a imigração".

Sílvia Mangerona afirma que Seguro "não se apresentará com muita vontade de entrar na guerra". Irá, certamente, "renovar e reiterar a moderação e vai sublinhar que a sua candidatura é a que mais cumpre com os requisitos institucionais para o cargo", antecipa. Além disso, Seguro terá de "desmontar a fúria que se antecipa de Ventura - seja das palavras, seja da própria apresentação".

Em termos de conteúdo, é provável que António José Seguro tente "dirigi-lo para áreas mais consensuais, como a posição perante os conflitos internacionais, defendendo o multilateralismo e apresentando-se como um facilitador de soluções para os problemas que virão", diz Luís António Santos. "Tem também a velha bandeira da saúde e aí pode mais uma vez apelar aos ouvidos da maior parte da população."

Tem também a tarefa de não cair "nas esparrelas" que o adversário lhe vai lançar. "Não poderá trazer para a mesa temas da governação, isso não lhe será benéfico", afirma o especialista em comunicação. "É natural um candidato presidencial discutir temas estratégicos para o país, na saúde ou na segurança social, mas não pode ir ao detalhe das ambulâncias que faltam  - isso é a política de episódios que Ventura gosta de fazer." A estratégia de Seguro poderá passar por "não se posicionar demasiado e deixar que Ventura escorregue na sua precipitação habitual".

Afonso Azevedo Neves avisa que "Seguro tem de fazer um jogo complicado" neste debate. Por um lado, "não pode cair em campos ideológicos", nem na oposição esquerda/direita, porque não é isso que está em causa nestas eleições. Por outro lado, terá de mostrar ao que vem: "Por exemplo, na saúde e no trabalho é importante saber se está ou não está disposto a aprovar reformas" - esses são temas que lhe podem efetivamente dar ou tirar votos.

Presidenciais: António José Seguro em Famalicão foto Lusa/ José Coelho)

"Podemos ter uma situação na mesa em que uma das pessoas diz coisas e a outra pessoa ignora"

André Ventura tem interpelado António José Seguro nos últimos dias através da comunicação social e já se queixou que o adversário não lhe tem dado resposta. Num debate, é impossível ignorar as questões que lhe forem colocadas, mas António José Seguro pode optar por, ainda assim, contornar as provocações e não entrar em confronto direto. "Podemos ter uma situação na mesa em que uma das pessoas diz coisas e a outra pessoa ignora, não responde, contrapõe com algo que lhe interesse dizer", antecipa Luís António Santos.

"Geralmente, Seguro retira-se de campo quando o discurso se torna mais agressivo", aponta o especialista em comunicação. "Vamos ter um candidato que está muito sereno e que quer ganhar as eleições e um outro candidato que poderá ser mais combativo mas que se calhar não quer tanto ganhar", diz o analista. "Como é que se cria debate com candidatos assim?"

"O facto de haver só este debate traz muitas dificuldades para ambos os candidatos", considera Sílvia Magerona, mas será mais decisivo para Seguro, que é o que tem mais a perder neste momento: "Se tem um debate menos favorável, não tem hipótese de corrigir", sublinha. "Ventura sabe à partida que a vitória será muito difícil, portanto não tem nada a perder e parece-me que vai prescindir de se moderar e vai, como se diz, em linguagem desportiva, colocar a carne toda no assador", conclui a politóloga. Nesse sentido, "antecipa-se um debate muito ruidoso".

Afonso Azevedo Neves concorda: "Ventura já terá percebido que, sendo uma eleição perdida, não perde nada em partir a louça toda. Tem um discurso que é relativamente previsível mas difícil de contrapor. Seguro tem de se manter emocionalmente sólido - essa é a parte difícil de debater contra Ventura. Tem de manter a frieza", afirma Afonso Azevedo Neves. "O que resulta num debate é repetição e emoção - Ventura é fortíssimo nisto, Seguro não é", considera Afonso Azevedo Neves. "E depois factos, factos, factos" - e aqui Seguro tem vantagem.

Sendo assim, se quiser vencer este debate (e ao mesmo tempo conquistar mais alguns votos), Seguro tem de ser "um bocadinho mais agressivo e mais impositivo" do que tem sido, considera o Afonso Azevedo Neves. "Terá de mostrar alguma força e fibra moral - mostrar os dentes, pôr as garras de fora."

Mais logo se verá que dentes e garras foram mostrados: 20:30, transmissão em simultâneo na TVI/CNN, SIC e RTP.

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