PERFIL || Começou na política aos 16 anos e fez de quase tudo - no poder local, no governo, no parlamento. Só lhe faltou ser primeiro-ministro. Tinha a experiência e o currículo para ser Presidente da República e trazia consigo a bandeira da ética e da seriedade. Mas, certamente, não contava com umas eleições tão disputadas à direita. Com 98% dos votos apurados, Marques Mendes estava em quinto lugar com apenas 11,69% dos votos
Em novembro, Marques Mendes era o favorito. Não ganharia à primeira, mas na segunda volta a vitória era quase certa - fosse qual fosse o seu adversário, diziam as sondagens. Depois vieram os debates e depois veio a campanha. Luís Marques Mendes até parecia estar em vantagem, afinal, experiência não lhe falta. Desde os 16 anos que anda na política, começou a falar para as massas da JSD em Fafe e nunca mais parou - passou pelo poder autárquico, esteve no governo e na oposição, chegou a presidente do PSD, ganhou e perdeu eleições, até, finalmente, deixar a política ativa para se tornar comentador político na televisão.
“Sou, com cargos ou sem cargos, um viciado em política”, dizia há uns anos em entrevista ao Observador. “Continuo a gostar de uma boa discussão política, de uma tertúlia política, gosto de emitir opinião.” É o verdadeiro “animal político”, “com aspas e no bom sentido”, diz à CNN Portugal o histórico social-democrata Guilherme Silva, que o define como “um homem com uma intuição política extraordinária”, “não toma decisões sem pesar os prós e os contras e usando, além dessa intuição, uma inteligência fulgurante e rara”.
Nunca foi primeiro-ministro, esse é talvez o único cargo que lhe falta, mas o seu currículo dava-lhe, à partida, boas hipóteses de ser Presidente da República. No entanto, esta experiência acabou por se virar contra ele. Considerado um dos “operários do cavaquismo” e uma espécie de “discípulo” de Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes acolheu com satisfação o apoio do PSD e do atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, mas ficou “colado” a ele e nunca se conseguiu livrar do rótulo de “candidato do sistema”.
Depois, ainda houve a acusação de, na sua atividade como advogado, ser um “facilitador de negócios”, que aqueceu a campanha durante algum tempo, sobretudo num disputado debate com Gouveia Melo. A polémica não se estendeu muito mais, mas o dano estava feito e a verdade é que o candidato nunca mais recuperou nas sondagens.
Quando tem que nomear as suas grandes influências políticas, Marques Mendes não hesita: Sá Carneiro e o pai, António Joaquim Marques Mendes, que era advogado, dirigente local, esteve envolvido na fundação do PPD e foi deputado. Luís segue-lhe os passos. A partir 1974 dedica-se à política na região ao mesmo tempo que tira o curso de Direito sem quase ir às aulas, só vai à Universidade de Coimbra para fazer os exames. Vai trabalhar para o escritório do pai e casa com a namorada do liceu, Sofia, com quem haveria de ter três filhos.
Em 1985, no congresso do PSD na Figueira da Foz, Marques Mendes, que é na altura vice-presidente da distrital de Braga, está ao lado daqueles que promovem a candidatura de Aníbal Cavaco Silva e, no final, entra para a Comissão Política Nacional. No momento de formar o governo, Cavaco chama aquele militante “muito novo, mas muito vivo”, que vinha recomendado pelos dirigentes de Braga, escreve o então primeiro-ministro na sua autobiografia. É assim que aos 28 anos Marques Mendes se muda para Lisboa para ser secretário de Estado, porta-voz do governo e, por fim, ministro-adjunto do primeiro-ministro.
“Adorei os dez anos que trabalhei com Cavaco Silva. Para mim, é o melhor e o mais reformista primeiro-ministro da democracia portuguesa”, diz a Luís Rosa no livro “Luís Marques Mendes: uma vida política”, elogiando o rigor e a capacidade de tomar decisões do primeiro-ministro. “Fui das cinco pessoas que estiveram do primeiro ao último dia com Cavaco Silva no governo.”
Marques Mendes sabe que o viam como “um moço de recados” de Cavaco Silva. Quando Marcelo Rebelo de Sousa é eleito presidente do partido, em 1996, quer provar que estão errados, reinventa-se e torna-se líder parlamentar. Nesse período, negoceia com o PS a terceira grande revisão da Constituição. Foi um processo difícil, recorda: “Eu fiz o que se impunha. Aliás, sempre gostei de participar em processo negociais com vista a chegar a compromissos. Quando eu hoje falo de diálogo, entendimentos, consensos, convergências, falo por experiência própria”. “Fazer pontes” tornou-se um dos seus motes na candidatura à Presidência da República.
“Luís Marques Mendes - ‘o meu porta-chaves’, como Marcelo se costumava referir - era um líder parlamentar aguerrido, com iniciativa e faro político”, conta Vítor Matos na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo e Mendes, ambos noctívagos, falam muitas vezes ao telefone pela noite dentro, procurando formas de incomodar o governo. “Chegámos a combinar coisas importantes de madrugada, enquanto o engenheiro Guterres dormia. Nem ele imaginava que, enquanto ele dormia tranquilamente o sono dos justos…”, conta ao Observador. É um período de “tensão permanente”. Nessa altura chega a fumar três maços por dia - deixaria de fumar depois da morte de um grande amigo, em 2010. Tem até direito a um boneco no programa humorístico “Contra-Informação”, um tal de “Marques Pentes” que aparece sempre ao lado do “professor Martelo” a dizer “ganda nóia”.
Disputa pela primeira vez a liderança do PSD em 2000: sai derrotado, mas marca a sua posição. Rui Moreira conheceu-o por esta altura e recorda “um orador notável”, que “encanta as salas, estabelece empatia”. O ex-presidente da Câmara do Porto e mandatário da candidatura de Luís Marques Mendes à Presidência da República, vê-o como “uma pessoa extremamente equilibrada, muito perspicaz e com a capacidade de ouvir, não se esquiva a responder a perguntas”, diz à CNN Portugal.
Volta ao governo, mas quando Durão Barroso vai para a Comissão Europeia, Marques Mendes não concorda com a forma como é decidida a sucessão, com a nomeação de Santana Lopes: “Em democracia, o modo como as coisas se fazem conta”.
Em 2005 é eleito presidente do PSD. Nas autárquicas desse ano, Marques Mendes “veta” as candidaturas de Isaltino Morais e Valentim Loureiro, invocando razões de "credibilidade e confiança" política. Os dois são eleitos, mas em candidaturas independentes, e o PSD perde as câmaras de Oeiras e Gondomar. “Mais vale perder uma eleição do que perder a honra e a credibilidade”, defende.
“Para mim era claro que a questão da ética tinha de ser introduzida nas decisões que tomaríamos sobre as candidaturas autárquicas. Daí eu ter decidido afastar vários autarcas que tinham problemas sérios com a Justiça e que não tinham um comportamento ético sólido e correto”, explica no livro. “Foi a decisão mais difícil da minha vida política, e não tenho dúvidas de que foi a mais marcante que tomei até hoje. É fácil falar de ética, o problema é praticá-la.”
Além disso, recusa apoiar Santana Lopes na corrida a Lisboa, preferindo o independente Carmona Rodrigues, que acaba por vencer. Porém, dois anos depois, em 2007, o autarca lisboeta é constituído arguido no caso Bragaparques. Marques Mendes considera que o executivo não tem condições para continuar e deve renunciar ao mandato. “Só podemos estar na política desta forma, para servir os outros. Não é para estarmos agarrados a um lugar”, justifica. No rescaldo da derrota nas eleições intercalares, Marques Mendes convoca eleições internas antecipadas e perde a liderança do partido. Decide, então, fazer uma pausa na política e dedicar-se à advocacia, entrando para a Abreu Advogados. “Deixei a vida política sem traumas, sem dramas, sem ficar zangado com ninguém. De bem comigo próprio e de bem com a vida”, garante.
Rui Moreira não tem dúvidas de que a ética é uma das características mais vincadas de Marques Mendes: “Quando teve de afastar pessoas, por quem até tinha uma consideração pessoal, sabia que se estava a expor. Isso levou a que fosse afastado. Mas ele conformou-se, não rasgou as vestes, aceitou que esse seria o preço a pagar por ter um comportamento ético. É se calhar o aspeto mais notável da carreira dele”.
Em 2010, estreia-se como comentador televisivo, na TVI24. Passa depois para a SIC: além do comentar a atualidade, todos os domingos, procura trazer novidades, usando a sua rede de contactos para antecipar jogadas políticas.
Há anos que se falava da hipótese de Marques Mendes se candidatar à presidência, mas o comentador nunca assumiu claramente ter essa ambição. Mas assumiu que adora o “combate”: “No momento em que surge uma oportunidade, eu, que acredito em mim próprio, que acredito nas ideias que tenho, que acredito que posso ser útil, que tenho um projeto na cabeça, luto por elas. Posso ganhar ou perder”. Foi isso que fez em fevereiro: deixou o comentário televisivo e entregou o cartão de militante do PSD para apresentar a candidatura a Presidente da República. Foi o primeiro a fazê-lo. E, naquele momento, parecia mesmo ter a vitória na mão.
Esta noite, no momento de assumir a derrota, garantiu que não se sentia amargurado ou ressentido. "Gosto muito do meu país, honrou-me muito servi-lo e honrou-me muito ser candidato a Presidente das República”, afirmou, sob fortes aplausos. Para a segunda volta das presidenciais, Marques Mendes, disse que não iria fazer o endosso dos votos que obteve. "Tenho a minha opinião, mas enquanto candidato que é a única posição que tenho aqui hoje, não sou dono dos votos que em mim foram depositados. Cada um dos que votaram em mim decidirá, na altura própria, de acordo com a sua liberdade e com a sua consciência”, sublinhou perante uma sala repleta, que foi interrompendo o candidato com aplausos.