Mais um debate, mais algumas revelações sobre a corrida presidencial e respetivos protagonistas
Mais experiente em confrontos eleitorais, Cotrim de Figueiredo foi o primeiro a evidenciar-se quando falou - outra vez - em ter sofrido pressões para desistir da corrida a Belém em favor de Marques Mendes. E questionado sobre declarações de Duarte Mendes, diretor de campanha de Marques Mendes, de que essa acusação de pressões era um “ato de cobardia”, Cotrim reagiu assim: “Essa coisa da cobardia faz-me um bocado de impressão, especialmente quando vem de uma campanha que até agora não soube explicar exatamente o porquê de apoiantes se sentirem autorizados ou à vontade para me pressionar a não avançar ou a pensar já em desistir a favor de Marques Mendes”.
“Não retiro uma vírgula do que disse sobre essas pressões, sobretudo porque era importante que deixasse de haver aqueles contactos e aquelas tentativas de intimidar uma candidatura que está a correr bem”, defendeu ainda o candidato apoiado pelos liberais.
Ainda sobre desistências: Jorge Pinto quis afastar qualquer possibilidade de o vir a fazer em favor de António José Seguro, apresentando um lamento. “Lamento que depois de ter feito essa declaração tenha havido outros candidatos que deturparam aquilo que eu disse. Em relação a isso, posso fazer pouco a não ser confrontá-los quando tiver a oportunidade de debater com eles. Aquilo que eu disse sempre, e reitero, é que venho para fazer diferente e para dizer aos portugueses muito claramente que há uma candidatura nova que é menos do mesmo”, afirmou Jorge Pinto, apresentando-se como a voz de uma nova geração que pretende trazer “uma forma diferente de fazer política”.
Noutro tema, Cotrim de Figueiredo foi contundente sobre os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e não poupou críticas à gestão e à moral do sistema. Para o candidato presidencial, existe “corrupção moral” no setor público.
“Corrupção não é só a corrupção legal de que alguém recebe um benefício em troca de fazer uma coisa que é ilícita. Há corrupção moral, há corrupção técnica, no sentido de coisas que se deterioram ao ponto de se tornarem perversas. Por exemplo, o caso das funcionárias em Corte Graça, uma freguesia de 3.700 habitantes onde foram inscritas 10.000 pessoas sem que o sistema detetasse isso, a não ser muito mais tarde, a troco de benefício próprio. Essa é uma corrupção legal. Corrupção moral são os médicos que se aproveitam de incentivos perversos dentro do SIGIC para fazerem cirurgias pagas a peso do ouro, retirando com isso recursos às pessoas que efetivamente deles necessitam. E há corrupção de tipo técnico, também de total desleixo, quando há uma médica que receita 65.000 receitas de um medicamento antidiabético, lesando o Estado e os diabéticos que necessitam do medicamento.”
Do lado oposto, Jorge Pinto rejeitou o termo, considerando o SNS “a mais bela das conquistas da democracia”.
“Eu fui tripulante de ambulância voluntária durante três anos. Transportei dezenas ou centenas de pacientes de todas as origens e nunca a nenhum lhes perguntei se eram ricos ou pobres. Nunca a nenhum lhes perguntei se tinham um seguro de saúde complementar ou não. E soube sempre que todos eles, no hospital, iam ser igualmente bem atendidos. É isto que é o nosso SNS. E é isto que está a ser ameaçado e é precisamente a isto que temos de dar condições para que se mantenha”, defendeu aquele que é o candidato às presidenciais de janeiro.
Jorge Pinto quis ainda sublinhar que "um Presidente da República pode ser muito claro em relação àquilo que quer para o SNS, mas não legisla". "Pode convocar Estados-Gerais para discutir os problemas do SNS com toda a sociedade civil, médicos, enfermeiros, utentes e partidos políticos, mas não resolve os problemas dizendo que o SNS é corrupto ou com propostas constitucionais que, segundo a DECO, fomentariam corrupção."
Quando o debate se debruçou sobre a legislação laboral, as diferenças entre Jorge Pinto e João Cotrim Figueiredo tornaram-se ainda mais evidentes. Jorge Pinto destacou a “diferença profunda” entre as duas candidaturas e criticou a nova legislação preconizada pelo Governo, afirmando que “em nada” responde aos problemas da precariedade ou em relação à baixa taxa de natalidade. Para o candidato apoiado pelo Livre, a direita pretende transformar Portugal num “Bangladesh dos contratos informais”, com longas jornadas de trabalho, limitações ao direito de greve e facilidade de despedimento.
Cotrim de Figueiredo disse que o pacote laboral em discussão não é perfeito, mas defendeu-o como uma alteração necessária. “A legislação laboral em discussão é um passo em frente”, frisou.
Jorge Pinto ataca o legado de Marcelo, Cotrim puxa pelos “passistas”
A discussão sobre o papel do Presidente da República aquecia com os dois candidatos a apresentarem perspetivas diferentes para a subida do Chega no panorama político, aliada a uma possível responsabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa.
"Basta ver qual era a presença da extrema-direita no parlamento português quando Marcelo tomou posse e qual é agora”, começou por lembrar o candidato apoiado pelo Livre. “Foi ele [Marcelo] que deu azo a que houvesse um novo ato eleitoral. O próprio colocou-se numa má posição negocial ao dizer que demitiria e dissolveria a Assembleia da República em determinadas condições. Isso contribuiu para a queda da Assembleia, evidentemente porque foi o próprio que dissolveu por vontade própria e isso teve o reflexo de, a cada nova eleição, haver esse crescimento do Chega. Portanto, foi e será certamente o grande legado de Marcelo Rebelo de Sousa: não ter sabido colocar-se a ele próprio numa boa posição negocial, tendo preferido o contrário e colocado Portugal perante estes miniciclos, que também são uma das razões pelas quais muitos portugueses estão hoje cansados da vida política e dos agentes políticos”, afirmou Jorge Pinto.
Sem mencionar a subida da extrema-direita em Portugal, Cotrim de Figueiredo quis dirigir-se diretamente aos apoiantes do Chega. E lembrou Passos Coelho: "Eu quero dirigir-me ao eleitorado do Chega porque esse eleitorado até há pouco tempo votava em partidos à esquerda mas não estava interessado em contar com apoio de passistas. Eu recordo que houve cerca de dois milhões de pessoas a votar em Pedro Passos Coelho. Eu não me importava nada que todos os que votaram em Pedro Passos Coelho votassem a mim".