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Umas presidenciais contrarrelógio

3 fev, 13:52

A caça ao voto, portanto, é, antes de mais, uma caça à atenção. Há que prender a atenção do eleitor, ainda que pelos debates ou por uns minutos de campanha passados no telejornal

Estas eleições presidenciais são mais um reflexo da efemeridade do nosso tempo. São uma montra da sua pressa. Da voracidade com que um tema desta semana é engolido pelo próximo, que poderá impor-se dentro de minutos.

Quando era adolescente e adorador de videojogos, sabia o relato dos jogos do FIFA de cor: “o tempo corre, não anda. Ele é quem manda”. Essa voz do relatador Hélder Conduto seria um presságio social e político.

Porque é notório: as atuais campanhas eleitorais são um produto da velocidade. Da noção de que a informação deve ser o mais curta e chamativa possível, ajustada à atenção média do eleitor, que vive envolto em estímulos e notificações no smartphone.

Esta lógica, umbilicalmente ligada ao digital, traz consigo uma paradoxal herança: o contacto direto convive com a epidemia de desinformação - cujos números, avassaladores, falam por si. Segundo um estudo do LabCom - Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior, a desinformação associada às presidenciais soma, desde novembro de 2025, mais de 7,7 milhões visualizações nas redes sociais.

A caça ao voto, portanto, é, antes de mais, uma caça à atenção. Há que prender a atenção do eleitor, ainda que pelos debates ou por uns minutos de campanha passados no telejornal. Hoje o Homem, além de político, como lembra Aristóteles, está por defeito desatento. Nem sempre assim foi – e esta é das mudanças mais estruturais na política contemporânea.

Um contraponto revelador a esta lógica advém de 1986. Como demonstra a série de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, “A Duas Voltas: Mário Soares e as Presidenciais de 1986”, os tempos de antena eram, então, vistos e revistos ao pormenor. Na campanha de Soares, estavam a cargo de António Pedro Vasconcelos, cineasta que levou o storytelling e a técnica do grande ecrã para os tempos de antena.

O país parava para os ver. Os seus e os de Freitas do Amaral, o oponente do outro lado da contenda. Mesmo diferentes na forma e no conteúdo, ambos tinham o faro da rua e era de lá que advinha o seu conteúdo. O tempo não corria, andava, e era do espaço público físico que provinham as temáticas da campanha.

Sendo hoje o espaço público para lá do físico, as campanhas são multidimensionais. Tão tradicionais quanto vanguardistas; tanto dando uso à velha prática da arruada pelas praças de norte a sul do país, como aos vídeos feitos à medida para audiências em redes sociais.

Por outras palavras, as campanhas eleitorais são mais complexas, tal e qual o tempo em que operam. São de uma maior elasticidade nos temas tratados pelos candidatos e no seu posicionamento. E é por isso que, em última análise, estas Presidenciais poderão ser lembradas como as primeiras que foram tomadas pela lógica digital de velocidade e captação da atenção. A lógica do algoritmo.

A espuma dos dias pode ser mesmo um estado permanente.

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